QUARTA-FEIRA, 01-07-2015, ANO 16, N.º 5632
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destaques

Com 15 tostões um pastor ganhou 235 vezes mais do que Eusébio na seleção da Europa...
Estrela de Diamante Como a ficção, ficção como a de Pão, Amor e... Totobola, ia, às vezes, além da realidade, A Bola contou (e nas entrelinhas estavam vários sinais do que era o país de Salazar, o país de Eusébio...) como «sôr Celestino», pastor da Herdade do Vale de Moura, nos arredores de Évora, transformara 15 tostões em quase 1500 contos: - Deus seja louvado, pois lembrou-se de nós. Era dura a vida. Igual à de todos os pastores. Ao sol, à chuva, ao vento, ao frio. De inverno e de verão, meses e meses no monte, dormindo em choupanas feitas de palha, quando as havia... Ou noites inteiras sentado numa pedra e tapado da chuva com um chapéu. Trinta e quatro anos assim. Vencimentos? Agora, recebia dez tostões por mês, isto é: 12 escudos ao ano; um litro e meio de azeite por mês; um quilo de pão por dia e 320 quilos de trigo ao ano. Ah, é verdade: tinha ainda pastagens para as 62 cabeças, todas ovelhas, que me pertencem, e para o burrito que também é meu. Por isso lhe digo, foi im milagre Deus ter-se lembrado de nós, da minha mulher, das minhas filhas, duas... Nome no Totobola? O do «chefe de família», mesmo que a aposta fosse a da mulher... Fora em novembro de 1963 e, nessa semana da fortura do pastor, foi Eusébio que não deixou que saísse zebra do jogo do Benfica. E porque esse era ainda o tempo em que as mulheres, todas as mulheres, apenas podiam transpor fronteiras sozinhas com «expressa autorização» dos maridos, não fosse estarem a fugir aos seus «deveres de esposa e mãe», dizia-se, (e seria preciso esperar-se até 1975 para que se revogasse artigo do Código Penal de 1886 que estabelecia que marido que matasse esposa em flagrante adultério sofreria apenas um desterro de seis meses para fora da sua comarca) - o nome que apareceu no boletim do Totobola foi o do... «chefe de família», mesmo não tendo sido ele a preenchê-lo. (OK, mas isso fora o Celestino que mandara, nisso o Totobola modernizara-se: as mulheres podia concorrer - e não tardaria até havia de chegar notícia da primeira milionária...) Fora para o pastoreio, dissera a mulher que apostasse só o mínimo, ela disse como foi: - Estava com as duas filhas e a mais nova pediu-me para eu lhe ir dizendo os resultados. Avisou-me de que os que diziam primeiro eram os que jogavam em casa deles e foi escrevendo. Por duas vezes, a «Estrudes» Antónia disse-me: «Oh mãe, não vês que estás a dizer que vai ganhar o mais fraco?» mas eu não me importei e disse mesmo como me parecia que devia ser. E foi mesmo. Ai se eu me fio na «Estrudes» Antónia!... Eusébio na seleção da Europa por 6400 escudos... Antes, pouco antes, Eusébio fora, tendo José Augusto como companheiro, à seleção da Europa que venceu em Copenhaga seleção da Escandinávia por 4-2. Apresentaram-no como «o europeu de maior poder de remate», mas só esteve meia hora em campo por ressentir de lesão em desafio com a Inglaterra. Recebeu, ainda assim, 6400 escudos de cachet, José Augusto que alinhou o tempo todo, teve direito ao mesmo – 235 vezes menos do que calhara ao pastor de Évora... Nem um ano depois, o Monumental agitou-se com o Esplendor na Relva de Elia Kazan. (Mais ou menos cortado – e, claro, sem a cena famosa da Natalie Wood a correr desesperada e nua por um corredor, depois de aparecer, insinuante, de perna alçada no banho, com a espuma a cobrir-lhe o corpo, numa sensualidade desarmante...) O filme era um olhar desapiedado e perturbador em torno das ansiedades e dos desejos de uma certa juventude no final dos anos 20, de uma força que torturava as personagens em direções monstruosas, disfuncionais: os homens obrigados a terem sucesso e a serem machões, as mulheres a terem de escolher entre a virgindade e os «comportamentos de pêga». Era um grito contra que a repressão (e não só sexual...) que se entrecruzava na vida, numa vida de que até a morte fugia na vertigem de uma catarata, numa vida que podia mudar ou não num manicómio com um pedaço de relva na mão, entre velhas catalépticas e enfermeiras de olhares estranhos. As senhoras que diziam: cuidado com as atrizes americanas, elas são o modelo oposto do Estado Novo! Por isso, claro, era um daqueles filmes que levavam a que no Portugal bufarinheiro dos anos 60, as senhoras da Mocidade (e do MNF da Cilinha Supico Pinto), embrulhadas, às vezes, como bruxas goyescas nos seus casacos de astracã, baralhassem e dessem sempre de novo as ideias velhas do que se devia ser e do que se devia fazer: - Que nunca as raparigas sequer passassem os olhos por livros, revistas ou jornais onde a religião e os bons costumes fossem atacados, o suicídio ou o divórcio aprovados, as matérias obscenas tratadas. Que jamais aceitassem servilmente os figurinos do cinema americano, onde as atrizes representavam o modelo oposto ao modelo do Estado Novo... E era esse país assim, esse país triste no seu fado – que Eusébio fazia feliz no seu esplendor, o esplendor na relva que as senhoras do MNF da Cilinha Supico Pinto (e da Mocidade) usavam (elas e não só...) na sua propaganda – quisesse ele ou não... ...
Estrela de Diamante É a parte 4. Com Eusébio a caminho do Panteão, relembramos-lhe Eusébio – o Eusébio Como Nunca se Viu do livro que A D. Quixote publicou em parceria com A Bola. Mas mesmo que já o tenha lido, não deixe de ir até ao fim – porque, aqui, há muito de novo para ler sobre o Eusébio e o país do Eusébio, o mundo do Eusébio. E não deixe também de atirar os olhos à galeria de fotos – porque para ver o Eusébio como o Eusébio nunca se viu há mais, muito mais ainda, nem imagina... Porque nesse Portugal de Salazar o «respeitinho era muito bonito», se, vinda do fundo da sua rebeldia uma aluna se atrevesse a entrar num liceu (onde rapazes e raparigas se não misturavam...) de minissaia e sem meias, tinha por certo o que a esperava: raspanete da diretora que julgando o «ato obsceno» a expulsava das aulas. Também acontecia amiúde: se uma estudante da Faculdade de Letras fosse apanhada pelo polícia de giro a fumar na paragem do autocarro do Campo Grande (e havia algumas que eram...), ouvia-o papaguear-lhe alínea de uma portaria municipal que considerava que era «atentado ao pudor mulher fumar na via pública» - e via-o passar-lhe multa de 20 escudos. O tabaco era obsessão como o sexo antes do casamento para a MPF e havia cigarros Benfica, cigarros Sporting... O tabaco era como o sexo antes do casamento uma das muitas obsessões da Mocidade Portuguesa Feminina: em todas as suas publicações se aconselhavam as «raparigas de boa moral» a «resistirem à tentação do cigarro», que era um «escândalo», uma «modernice dispensável» - e só para homens, mas só às vezes... Havia os SG: Gigante, Filtro ou Ventil, havia os Sintra, os Kayak, os Ritz, os Negritas, os Populares e os Provisórios, os Orfeu, os Além Mar e os Santa Justa – e ainda havia outras marcas, a tocarem mais ao sentimento: os cigarros 1X2, os cigarros Sporting e os cigarros Benfica. No maço dos Sporting dizia-se que era tabaco «suave e aromático», no maço dos Benfica dizia-se que era tabaco «forte e suave». Custavam entre 3 escudos e 50 centavos e 5 escudos – e, Eusébio não fumava, mas se quisesse podia, no futebol, o fumar não se proibia, não se castigava – a não ser que surgisse, insólito e caprichoso, algum treinador a deixar-se levar pelo espírito da MPF. E foi o que aconteceu com o Belenenses – nesse ano de 1963. 500 escudos de multa para quem fumasse. Não, não era no Benfica - e Eusébio nem fumava... Graças a golos de Eusébio e José Augusto, Portugal fora ganhar à Bélgica por 2-1 e a vitória valeu a cada jogador prémio de 4000 escudos - e nessa mesma noite, o Belenenses empatou na Irlanda com o Shelbourne para a Taça das Cidades com Feira. Tinha um treinador austríaco de maus fígados: Franz Fuchs. Antes da partida, chamara os pupilos a uma reunião de emergência para lhes revelar que a partir daquele instante quem fosse apanhado a fumar pagava multa de 500 escudos. Os jogadores não lhe suportaram a tirania, dois meses depois foi despedido – e voltou a liberdade de fumo. E por A Bola continuaram a aparecer em teto ou em rodapé de alguma página de A Bola anúncios a rasgá-las aos cigarros 1X2. O Totobola era tão passional que servia de chamariz a quase tudo – e em e A Bola também se podia ler: Acerta no Totobola Quem Toma Vitacola (Vitacola era um «energético natural supersaudável» - e uma lata para 25 dias custava 20 escudos...) ...