SÁBADO, 25-06-2016, ANO 17, N.º 5992
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destaques

Na campa do pai, a promessa da taça…
Grande História Rakitic, Modric, Perisic… à primeira vista parecem nomes de medicamentos, mas não, são os senhores que deixarão tudo em campo para travar a tropa portuguesa na luta pelo título no Europeu. Depois de uma época de guerra, só mesmo o futebol para devolver à Croácia uma ambição sem precedentes, já prometida nas lágrimas de Darijo Srna, cujo cancro lhe roubou o pai. Um capitão como há poucos, que antes do futebol pensou em ser eletricista de profissão. Modric, por sua vez, o irmão de Ronaldo no Real Madrid, quis estudar hotelaria ou até ter um bar de praia, mas o seu passado como refugiado reservou-lhe outro destino, assim como ao compatriota Rakitic, rival em Espanha, no comando do Barça. Se não fosse jogador, tinha sido um mestre-de-obras. Um plantel de luxo, dominado por um treinador que além de nunca ter sido jogador, foi reparador de rádios e televisões numa pequena loja no centro de Zagreb… Uffffff… Já está! Depois de noventa minutos ligados à máquina, os portugueses conseguiram respirar de alívio e a Seleção Portuguesa segue invicta para mais um desafio. À sua espera está a Croácia, a Seleção que, sem vários dos habituais titulares, protagonizou um dos momentos mais surpreendestes do Euro de França, ao vencer a Espanha, a campeã europeia em título, e garantir o primeiro lugar do Grupo D. Portugal ficou atrás da Hungria e da Islândia, mas Ronaldo já mostrou que não está para brincadeiras, até porque conhece bem as manhas e manias de Modric e Rakitic. A Seleção da Croácia chegou ao Europeu para jogar futebol, mas mais que isso, sair da sombra daquela geração que, em 1998, foi terceira classificada no Mundial. A equipa que chegou ao pódio no Campeonato do Mundo realizado também em França tinha Suker, Boban e Prosinecki – que também faziam parte da Seleção que, dois anos antes, deu à Croácia a primeira presença numa competição internacional como Nação Independente. PORTUGAL: UM RIVAL JÁ CONHECIDO A geração de ouro dos anos noventa já lá vai, mas o plantel de luxo apresentado por Ante Cacic não lhe fica nada atrás… Recuando no tempo, o passado de Portugal contra os croatas até é vitorioso: três vitórias em outros tantos jogos, embora só um numa fase final. Foi na fase de grupos do Euro em 1996, quando a equipa de grandes jogadores como Suker, Prosinecki, Jarni, Asanovic ou Boban perdeu com a portuguesa (3-0), com golos de Figo, João V. Pinto e Domingos. Os outros dois confrontos foram particulares - em 2005 e 2013, com vitórias por 2-0 e 1-0. No primeiro destes marcaram Petit e Pauleta, no segundo... Ronaldo. Sábado a história vai continuar, numa estreia para a equipa das Quinas, no Estádio Bollaert-Delelis, em Lens - originalmente batizado de Félix Bollaert, construído por mineiros desempregados e que acolheu partidas do Europeu de 1984 e do Mundial de 1998, além de ter sido um dos palcos dos Campeonatos do Mundo de râguebi de 1999 e 2007. ...
Estilos e Espantos Talvez seja, para já a maior surpresa do Euro. Sim, do gelo e do fogo surgiu uma Islândia a apurar-se para os oitavos de final. Sim, mais do que isso e mais do que o golo de Ramsey, que fez estremecer os famosos ou os bailes de Gareth Bale a mostrarem um País Gales como só se tinha visto assim no... râguebi - há a Irlanda do Norte nos oitavos de final. País marcado pela guerra, palco de uma tentativa de assassinatos, começou por agitar França através do encanto dos seus adeptos (tal como os da outra Irlanda...), mas essa Irlanda é muito mais do que isso, faz-se das histórias que levou na mala. Por exemplo, Kyle Lafferty, a estrela da equipa, conhecem-no por ser um mulherengo fora de controlo. E Will Grigg? Todos o conhecem, inclusive, os adeptos dedicaram-lhe uma música, mas ainda ninguém o viu jogar. E depois há um pedreiro, que quando começou a jogar futebol, treinava apenas uma vez por semana. Hoje é um dos titulares da Seleção, só teve mesmo tempo de escapar por uns momentos para se casar… Mais do que Ronaldo, Bale, Iniesta ou Rooney, o jogador mais falado, ou melhor, mais cantado do Euro 2016 é Will Grigg. Já ouviu falar? Falar certamente que sim, mas jogar já é mais complicado. Não, não está lesionado, apenas ainda não entrou nos planos do treinador da Irlanda do Norte. Dentro de campo não marca golos, mas fora de jogo já é uma estrela. A Irlanda do Norte pode não ganhar o Europeu, mas fama já a tem – nem que seja pela música em homenagem ao seu jogador, até ao momento, a grande sensação do Europeu. «Will Grigg’s on fire», uma adaptação da melodia original «Freed From Desire», de 1997, cantada pela italiana Gala. Em maio, Sean Kennedy, um fã do Wigan, a equipa inglesa onde joga Will Grigg, sentou-se ao computador e gravou uma adaptação dedicada a Will Grigg. O objetivo era homenagear o avançado que, com os seus 28 golos em 40 jogos, foi decisivo para a subida do Wigan do terceiro para o segundo escalão inglês. Antes, Sean ainda versionou Girl on Fire de Alicia Keys, mas foi a boa disposição da música de Gala que fez o maior sucesso, não só nos estádios franceses, como até contagiou apoiantes de outras seleções como, por exemplo, os ingleses (que a adaptaram para o seu avançado Vardy) e os polacos. A CULPA DA ADIDAS NA ESTREIA DA IRLANDA DO NORTE Alívio em Belfast - finalmente Habemus Irlanda do Norte numa fase final de um Europeu, depois de os irlandeses terem falhado todas as qualificações – ao todo, 15 entre sete Mundiais e oito Europeus. A última vez que a Irlanda do Norte chegou tão longe em competições internacionais foi nos Mundiais de 1986 e 1982 (marcado por uma célebre vitória por 1-0 sobre a anfitriã Espanha e pelo afastamento da Seleção portuguesa). Tal como aconteceu com a Islândia, a Irlanda do Norte é uma novata à conquista de França, e a culpa é da Adidas, a marca que voltou a patrocinar a Seleção. O futebol na Irlanda viveu o último século como qualquer outro sector da sociedade, porém, dividido entre barreiras, ódios e religiões. Desde o reconhecimento oficial da República da Irlanda e a divisão da ilha entre fiéis ao Reino Unido – a esmagadora maioria de orientação protestante – e os republicanos de inspiração católica a sul – que se instalou o caos – uma guerra sem limites, a quem nem o futebol conseguiu escapar. TENTATIVA DE ASSASSINATO A MARGARET THATCHER A estreia da Seleção da Irlanda do Norte em Mundiais de futebol aconteceu em 1958, na Suécia, e viveu a década seguinte com a magia individual de George Best, antes de regressar aos grandes palcos nos anos oitenta, numa altura em que vários dos seus jogadores começavam a despertar na Liga Inglesa. Enquanto decorria um processo de paz, a tensão intensificava-se na Irlanda do Norte, entre republicanos e unionistas, ao mesmo tempo que se instalava a polémica com o desarmamento dos grupos paramilitares, e com a libertação de Patrick Magee, o operacional do IRA (Exército Republicano Irlandês) que saiu da prisão de alta segurança de Maze, na Irlanda do Norte, depois de ter tentado matar Margaret Thatcher, num atentado terrorista ao Grand Hotel, na cidade de Brighton, em outubro de 1984. Não houve festa, nem sorrisos em excesso, ainda menos declarações à imprensa. A Dama de Ferro só não morreu por ser uma viciada no trabalho. O IRA previra que à hora que a grande quantidade de explosivos detonou, Thatcher estivesse já no seu quarto. Não estava. Salvou-se. Também na Irlanda do Norte, a era Thatcher continuou a trazer recordações amargas, sobretudo aos republicanos, que se enfrentaram com uma primeira-ministra que rejeitou cedências, mesmo quando prisioneiros do IRA morriam em greves de fome. DERRY CITY, O CAMPEÃO QUE UNIU IRLANDAS Liderada por Michael O`Neill, a Irlanda do Norte apresentou-se em França como Kyle Lafferty, jogador do Birmingham, eleito melhor marcador da qualificação, com sete golos. É o jogador irlandês mais emblemático, a par de Jonny Evans, o central/lateral do West Bromwich que despontou no Manchester United. Mas quando não está a jogar a fama de Lafferty é outra – um mulherengo fora de controlo, assim descrito pelo presidente do Palermo, Maurizio Zamparini, durante a sua passagem pelo clube italiano em 2013/14. Lafferty foi casado com uma ex-Miss Escócia, Nicola Mimnaugh, e foi relacionado romanticamente com outra, Vanessa Chung. Mas antes de aparecer o nome de Lafferty e companhia, apareceu outro, e a história de uma equipa da Irlanda do Norte que se tornou uma das melhores equipas da República da Irlanda. Irlanda do Norte e República da Irlanda estão separadas por muitas coisas - a primeira está integrada no Reino Unido, a segunda é uma nação independente. Irmãos geograficamente unidos na mesma ilha, mas separados pelo futebol – cada um tem o seu campeonato, mas há uma equipa que já foi campeã das duas Irlandas: o Derry City, o clube localizado na Irlanda do Norte mas que atua no campeonato da República da Irlanda. Fundado em 1928, já depois da independência da República da Irlanda, em 1922, o Derry City tentou desde a sua génese não ser sectário, atraindo adeptos católicos e protestantes, mas a sua associação aos católicos acabou por ser inevitável, uma vez que o seu estádio, o Brandywell, está localizado no lado nacionalista da cidade. Integrado no campeonato da Irlanda do Norte, o Derry City foi quebrando o domínio das equipas de Belfast (Linfield, Belfast City e o Glentoran) e conseguiu conquistar a Taça da Irlanda por três ocasiões (1949, 1954 e 1964). Em 1965, conseguiu o primeiro título de campeão e, com este troféu, ganhou entrada na Taça dos Campeões Europeus, tornando-se a primeira equipa do país a ultrapassar uma eliminatória europeia. Apesar do bom momento da equipa, o Derry City também não conseguiu escapar ao clima de guerra que se vivia ente católicos e protestantes, onde os campos de futebol também serviam de palcos para os vários confrontos – Brandywell era um deles, especialmente frente ao Linfield. Após uma partida interrompida devido á violência, o Derry City começou a receber a equipa adversária num campo emprestado (numa cidade protestante). O clube emitiu um pedido à Federação para voltar a jogar no seu estádio, mas a proposta foi recusada, tamanho era o cenário de violência em Brandywell. Face à recusa o Derry City retirou-se do campeonato, durante 13 anos foi uma equipa sem pátria, até que em 1985 o campeonato da República da Irlanda foi alvo de uma reestruturação – começou na segunda divisão, conseguiu a promoção à primeira liga e tornou-se uma das melhores equipas da Liga. ...
Do Passado para o Presente Não é sobretudo do regresso de Ronaldo a Ronaldo que aqui se vai falar. Nem é sobretudo desse Portugal-Hungria onde o Ronaldo regressou a si próprio - e ao seu destino. Do que aqui se vai falar é, pois, sobretudo, dos outros jogos entre Portugal e a Hungria – em que o primeiro foi uma fraude. Mas não só – além dos jogos há sempre um outro olhar que pode passar por uma nadadora em angústia por ter o fato de banho com menos tecido do que o fato de banho com que a Miss Portugal foi, em glamour, ao Brasil ou à América. Também se conta como é que, depois do Dream Team da Hungria não ter sido capaz de ganhar a Portugal seis meses antes de se desfazer nas cinzas deixadas pelos tanques soviéticos em Budapeste, Puskas foi a Alvalade fazer o primeiro jogo noturno da história do Estádio e foi dele o primeiro golo. Marcou-o a Carlos Gomes que haveria de tornar-se também exilado político, fugindo do salazarismo escondido na bagageira de um Boca-de-Sapo. Ou o que é a cabeça partida de Eusébio no primeiro jogo oficial entre Portugal e a Hungria (e nos cinco oficiais que houve até Lyon, Portugal tinha vencido todos…) – tem a ver com as cartas irritadas da Irmã Lúcia a pedir a Américo Tomás que acabasse de vez com «a pouca vergonha e os desplantes» que ofendiam a Senhora de Fátima. Mas há ainda mais, muito mais, para o surpreender… A primeira vez que a seleção jogou no Porto – jogou no Campo do Ameal, a 24 de janeiro de 1926. Selecionador era Ribeiro dos Reis – e na equipa principal não havia nenhum jogador do FC Porto, nem nenhum jogador do Benfica. Do Sporting havia dois: o Cipriano dos Santos e o Jorge Vieira, do Vitória de Setúbal dois havia: o João dos Santos e o Armando Martins. Dois eram do Académico do Porto: o Manuel da Fonseca e o Castro e do Olhanense eram dois também: o Raúl de Figueiredo e o Carlos Delfim. E havia ainda um do Casa Pia, o António Pinho; um do SC Braga, o Alberto Augusto; um do Belenenses, o César de Matos; e um do União de Lisboa, o Liberto dos Santos. Adversário foi a Checoslováquia, acabou empatado 1-1. ALVOROÇO CAUSOU A NADADORA QUASE A GANHAR A TODOS OS HOMENS... Muito mais alvoroço causou na cidade, outra coisa, por essa altura – para nadar contra os homens apareceu uma mulher à Travessia do Douro – e por uma unha negra mulher não ganhou a todos: - Os barqueiros e outros marítimos que acompanhavam a prova queriam a todo o transe que vencesse eu, chegou a tal ponto o entusiasmo entre eles – que puxaram de facas uns para os outros, para aqueles que não estavam a meu favor, por eu ser de Lisboa, do Sporting... Era Estela de Carvalho, também fazia remo e esgrima e jogava ténis – e a aventura começara três anos antes, tinha ela 16: - Num torneio só para sócios do Ginásio, sai-me tão bem que pedi que me inscrevessem na Travessia do Tejo. E eles que não me queriam deixar nadar, disseram-me que não, que não era coisa para meninas... Desgostosa, Estela procurou Margarida Pala, a primeira mulher a atrever-se em travessias do Tejo - e falou-lhe do desconchavo. Margarida desafiou-a para o Algés e Dafundo. De lá passou Estela para o Sporting, ganhou quase todos os campeonatos em que entrou… A MISS EM «CINTILANTE SUCESSO, FAZENDO GINÁSTICA, JOGANDO TÉNIS, NADANDO... Meses depois, em Lisboa, no salão nobre da Câmara de Lisboa, outro foi o frenesim - elegeu-se pela primeira vez uma Miss Portugal: Margarida Bastos Ferreira. Que nos Estados Unidos disputou o concurso Miss Universo. Antes da viagem de barco para a América, Silvino Santos fez filme com ela, que «passou em cintilante sucesso», pelo Coliseu dos Recreios e pelo Politeama de Manaus, mostrando-a no Estoril «fazendo ginástica, jogando ténis, tomando banho no mar» - mas para a praia teve de ir com maillot bem mais comprido (e menos decotado...) que o que Estela de Carvalho usava nas suas provas para «evitar zunzuns»... Havia mais quem se atrevesse a «modernidades» que «chocavam a boa moral». Por exemplo, as corridas de velocidade nas praias do Estoril para actrizes do Parque Mayer (com elas descalças e algumas em fatos de banho mais... «descompostos») – e, por isso, alguém escreveu na revista ABC: «Dizia um fidalgo trocista que às mulheres bastava, em toda a vida, sair de casa três vezes: a baptizar, a casar e a enterrar. E esta ironia foi uma verdade, em Portugal, até há pouco tempo. Agora não. A mulher de hoje pratica os sports sem que a face se tinja da púrpura da vergonha. Na escolha do sport não pode esquecer-se que a mulher não deixa de ser mulher pelo facto de entrar num stadium, tendo de banir todos os exercícios como o foot-ball em que ela se vê obrigada a atitudes e posições isentas de graça e decoro, exploradas pela apreciação idiota de um público sem educação nem cultura». DAS MULHERES DO BOXE À «ARTE SUBLIME» DOS «NUS ARTÍSTICOS» No Ecos dos Sports, que se considerava «a primeira revista sportiva e a de maior tiragem em Portugal», apareceu fotos de duas mulheres a lutarem de... maillot e punhos nus, a ironia e o preconceito (ou pior…) marcavam-lhe a legenda, como se tudo aquilo fosse afinal grande escândalo: «Aqui está uma fase de um encontro de boxe, ou qualquer coisa parecida, realizado no Barreiro, entre duas senhoras que não temos o prazer de conhecer, em festa organizada pelo Luso Football Club, que em boa verdade, deve sempre, nas suas festas, prescindir destes números...» Por outros jornais ainda se poderiam encontrar cronistas elogiando a «arte sublime» da companhia francesa Ba-ta-clan que mostrara em Lisboa «os seus famosos nus artísticos» - ou quem escrevesse que Lea Niarko lançara uma «mancha de modernismo exótico nos palcos modorrentos desta Lisboa atrasadota». Lea era a germano-persa contratada em Paris como especialista em danças orientais, que se exibiu nua no Variedades, no Coliseu e no S. Luís. Fazia ginástica - e, depois, de abalar jornais e revistas queixando-se de ter sido raptada e violada na Boca do Inferno desapareceu de cena, nunca mais se viu por Portugal... A 28 DE MAIO, TUDO MUDOU, TUDO COMEÇOU A MUDAR... Mas de repente tudo mudou, tudo começou a mudar a 28 de maio de 1926, quando o general Gomes da Costa arrancou de Braga à frente de coluna militar com propósito firme: - Acabar com a bagunça em Lisboa. Ainda antes de cruzar Lisboa a cavalo, Bernardino Machado entregou o poder ao almirante Mendes Cabeçadas. Pensou num governo apenas sem influência do Partido Democrático de Afonso Costa, mantendo a «ordem democrática». Não lho permitiram e a 17 de Junho foi obrigado a renunciar às funções de Presidente da República e de Primeiro-Ministro a favor de Gomes da Costa – que segundo Raul Brandão «tinha cabeça de galinha e era sempre da opinião da última pessoa com quem falava». Manipulado pelos monárquicos do Integralismo e pelos católicos da direita radical desencadeou imediatas perseguições e deportações de esquerdistas – e acabou vítima da sua própria volúpia. Exigiram-lhe que se demitisse do governo, que ficasse simbolicamente Presidente da República, respondeu-lhes não - e a 9 de Julho foi desterrado para Angra do Heroísmo. ACABARAM-SE AS MISSES E A NADADORA DO MAILLOT OUSADO TAMBÉM... Após 42 dias de lutas intestinas, o governo passou para as mãos de outro general, de Óscar Carmona – e, inexorável, arrancou a Ditadura Militar, pondo, ponto final, em «certas liberdades» (e certas modernidades). Não, não foram só os concursos de Misses que acabaram, ainda antes de fazer 22 anos, Estela de Carvalho, a nadadora que quase ganhara aos homens que com ela foram a despique a Travessia do Douro, despejou em lamento: - Vou começando a ter receio de que me critiquem por, com esta idade, nadar ainda. Também, agora criticam-me por tudo, por nadar, por não ter mais tecido no maillot, por mais isto e mais aquilo, que não me admira que tal suceda, me deixe disto depressa para me casar... (Sem que passasse muito tempo deixou mesmo de nadar em competição...) NÃO FOI PORTUGAL-HUNGRIA, FOI FRAUDE... Sim, foi já sob a Ditadura Militar que se fez o primeiro Portugal-Hungria, a 26 de dezembro de 1926, com Cândido de Oliveira a selecionador. Uma Portugal-Hungria que não foi, de verdade, um Portugal-Hungria. Fernando Pinto conta-o em História do Futebol Português No Campo Internacional: «Quando o sr. Ávila de Melo, então secretário da FPF esteve em Roma, encontrou naquela cidade o sr. Dr. Fódor, secretário da Federação Húngara. Os dois conversaram muito prazenteiramente sobre a realização de um encontro entre os dois países – e nada mais. Depois, quando vieram a Lisboa dois grupos magiares, o Sabária e o Hungária MTK, o último dos quais se fazia acompanhar do seu diretor, o tal já citado sr. Dr. Fódor e este pelo sr. Edwin Herzeg, membro do comité seletivo da Federação Húngara. O sr. dr. Fódor e o sr. Edwin com insólito desplante disseram-se autorizados a negociar com a Federação Portuguesa o encontro, e esta porque não quis e foi negligente não exigiu as respetivas credenciais, pagando a verba estipulada para os dois grupos e entregando ainda os milhares de pesetas destinados à Federação Húngara. E o jogo realizou-se entre uma equipa portuguesa que era a nossa verdadeira seleção e um misto formado pelos dois grupos classificados um em quarto e outro em sétimo lugar do campeonato húngaro da Liga Profissional. Dias depois, o húngaro sr. Akos, treinador do FC Porto, exibia jornais do seu país nos quais se noticiava que o Dr. Fódor iria ser demitido do cargo por motivo da realização do encontro...» Apesar de ser no Porto, a seleção continuou sem um único... portista, alinhou com: Casoto (Boavista); António Pinho (Casa Pia) e Jorge Vieira (Sporting); Raul Figueiredo (Benfica), Augusto Silva (Belenenses) e Varela (Império); Pereira da Silva (Casa Pia), Liberto (União), Severo Tiago (Belenenses), João dos Santos (V. Setúbal) e José Manuel Martins (Sporting). Acabou empatado 3-3, os golos foram de Severo, João Santos e José Manuel Martins… ...