QUARTA-FEIRA, 04-05-2016, ANO 17, N.º 5940
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destaques

Depois das medalhas roubadas, o suicídio do homem que perdeu o recorde do mundo para Jesse Owens…
Grande História Como não lhe homologaram os 10,2 segundos de Vancouver, Eddie Tolan teve de partilhar o recorde do mundo com Percy Williams – que, em 1928, nos Jogos Olímpicos de Amesterdão se sagrara campeão de 100 e 200 metros. Para arranjar dinheiro para se deslocar à Holanda Percy trabalhou, nas férias escolares, como bagageiro num hotel – e quando regressou ao Canadá as autoridades puseram-no com a mãe numa digressão nacional em comboio especial, em Montreal deram-lhe um relógio de ouro, em Hamilton um serviço de chá em prata, em Winnipeg uma estátua de bronze e uma taça de prata – e por fim, em Vancouver, onde nascera: um vistoso carro desportivo e uma bolsa de 14500 dólares para poder seguir os seus estudos. NO QUE DEU O ATAQUE DE FEBRE REUMÁTICA… Aos 15 anos, Percy Williams sofrera ataque de febre reumática – que o impediu até de ir à escola durante um ano, lhe causou problemas de coração. Os médicos avisaram-no: - Nunca mais, na vida, poderá fazer grandes esforços! Jogava râguebi e ténis, teve de deixar de fazê-lo: - Não gostava nada de correr, mas essa passou a ser a única hipótese. O resto é o que já se sabe… Já era empregado da BC Electric Railway quando chegou a Los Angeles para a defesa dos seus títulos – mas chegou marcado por lesão muscular numa coxa. Por isso foi eliminado nos quartos-de-final, largando a pista com anúncio dorido: - Para mim, o atletismo acabou! COLECIONAVA ARMAS, USOU UMA DELAS PARA SE MATAR… Tornou-se corretor de seguros, fez a II Guerra Mundial na Força Aérea do Canadá – e depois decidiu: - Vou doar as minhas duas medalhas olímpicas ao British Columbia Sports Hall of Fame para que lá possam ser vistas por toda a gente, por toda a gente que não poderia vê-las se as tivesse guardadas em casa… Houve, porém, uma altura em que deixaram de vê-las – alguém que lá passara, as roubou. Nunca mais apareceram – e ninguém se lembrou de mandar fazer-lhes réplicas. Sem nunca se casar, Percy continuou a viver em casa da mãe. Ela morreu em 1977 – e, cinco anos depois, massacrado por dores, as dores causadas por artrite crónica que lhe ficara dos tempos do atletismo, numa noite de maior sofrimento foi à sala onde guardava armas que colecionava, pegou numa pistola que lhe fora oferecida em 1928 como prémio pelos títulos olímpicos de 100 e 200 metros – e disparou à cabeça. Tinha 74 anos. E sim: quem, enfim, lhe bateu o recorde do mundo foi Jesse Owens… ...
Grande História Descendente de escravos do Alabama, James Cleveland Owens nasceu numa atamancada casa de madeira de Oakville, no Alabama. Sétimo de 10 filhos de Henry e Mary Emma, passou a infância infernizado por ataques de bronquite - e esteve internado no hospital da cidade com pneumonia que por pouco não o matou. À entrada dos anos 20, o pai, na ânsia de fugir à segregação racial do Sul, pegou na mulher, nos sete rapazes e nas três raparigas – e partiu para Cleveland. Com o pai já empregado numa siderurgia, ao chegar à escola, a professora perguntou-lhe o nome e ele na pronúncia arrevezada do Sul disse: JC, as iniciais de James Cleveland. Ela percebeu Jesse. Registou-o como tal. E Jesse ficou. Não, não ia só à escola – tinha de trabalhar para ajudar a família. Foi moço de recados de uma mercearia – e as entregas que tinha de ir fazer, fazia-as sempre a correr. Às vezes, também fazia descargas em vagões de mercadorias – na fábrica do pai. COMO, ESCONDIDO, SE LHE DESCOBRIU O DESTINO… Passou, entretanto, para a Fairmount High School – e também mudou de emprego. No fim das aulas, trabalhava como aprendiz numa oficina de concerto de sapatos. Antes de se formar professor na Temple University, Charles Riley fora mineiro e moleiro – e ao perceber que o salário de professor na Fairmount High School não lhe chegava para as despesas, sobretudo por ter filho deficiente, a cargo, arranjou um biscate: treinador de atletismo de um «boy club» lançado em torno de um bairro operário de Cleveland – e um dia apercebeu-se da vertigem que Jesse levava nos pés, correndo pela rua. Conhecia-o da escola, logo depois, cronometrou, escondido, mais um dos seus sprints - e ficou embasbacado. Pediu-lhe que o acompanhasse à pista de atletismo, e confirmou a suspeita: - É mesmo filho do vento! O TREINADOR TIROU-O DO SAPATEIRO, LEVOU-O PARA CASA… Jesse Owens estava a caminho dos 15 anos e logo nesse ano de 1928 bateu todos os records colegiais dos Estados Unidos, na velocidade, no comprimento - e até no salto em altura. Charles Riley achou que era de mais os sacrifícios que tinha de fazer, entre a escola, a fábrica de sapatos e os treinos – e, para lhe evitar o trabalho, pô-lo a viver na sua própria casa, ajudando, por vezes, a família com o pouco dinheiro que lhe sobejava do dia-a-dia. ...
Grande História Ao longo de três anos de competições escolares (e não só…), Owens não perdeu uma única prova. Riley conseguiu que a Escolheu a Ohio State University lhe abrisse as portas, mas não conseguiu que lhe dessem bolsa de estudo. Jesse conhecera Minnie Ruth Solomon no seu primeiro ano na Fairmount High School, não mais deixaram de namorar – e aos 18 anos tiveram a primeira filha. Chamou-lhe Gloria. Como lhe recusaram a bolsa, para sustentar mulher e filha e pagar os curso de Relações Pública, Owens voltou à labuta – por entre treinos e estudos foi ascensorista de um hotel, gasolineiro de uma bomba da cidade e catalogador de uma biblioteca. EM HOTÉIS E RESTAURANTES «SÓ PARA NEGROS» Nos Campeonatos Universitários dos Estados Unidos, os NCAA de 1935 e 1936 – deu sinal do que o esperava em Berlim: em cada um deles foi a quatro provas, as quatro venceu. (Foi preciso esperar por 2006 para que alguém saísse de uma só edição dos NCAA com quatro medalhas de ouro: Xavier Carter…) Apesar de todo esse sucesso pela Ohio State University, continuaram sem lhe dar bolsa de estudo, mas pior: não lhe permitiram, como a outros atletas brancos, que vivesse no seu campus – e numa ou noutra vez em que esteve em competição pela universidade teve de se hospedar em hotel «só para negros» e comer em restaurantes «só para negros». BALA BUCKEYE, A MAIS IMPRESSIONANTE REALIZAÇÃO DA HISTÓRIA… Aos habitantes do Ohio chamavam-lhes Buckeye e a Jesse Owens passaram a tratá-lo como Buckeye Bullet – A Bala Buckeye. Foi assim que pôs, deslumbrante, na história do atletismo o dia 25 de maio de 1935. Num meeting em Ann Arbor, no Michigan, bateu quatro recordes do mundo no espaço de 45 minutos: 8,13 metros no comprimento, 20,3 segundos nas 220 jardas, 22,6 segundos nos 200 metros e 22,6 segundos nas 220 jardas com barreiras – e se não bateu o das 100 jardas, igualou-o, com 9,4 segundos. (Em 2005, Richard Crepeau, professor na Florida University, considerou essa tarde de Owens em Ann Arbor como a «mais impressionante realização atlética da história da humanidade».) ...