SEGUNDA-FEIRA, 29-08-2016, ANO 17, N.º 6057
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destaques

O salto da morte, promessa de indiana para o Rio...
Estilos e Espantos Podia ser um conto de fadas, mas é a história de vida de Dipa Karmakar. Cresceu num ambiente pobre, num país cujo nome não vinha no mapa, até agora. Karmakar tornou-se a primeira ginasta do seu país a classificar-se para uma edição dos Jogos Olímpicos. Do anonimato saltou para a fama, depois de em 2014 ter sido a primeira indiana a conseguir uma medalha nos Jogos da Commonwealth, em Londres. Uma coisa já se sabe: no Rio vai fazer o salto Produnova, o mais desafiador da ginástica feminina. É perigoso? É. Mas nada que abale quem se lançou à ginástica como se lançou: sem apoios financeiros, a treinar no meio de ratos… Aos 22 anos, Dipa Karmakar é uma das poucas ginastas que consegue fazer o que Elena Produnova fez - a campeã russa que que integrou a equipa que conquistou uma medalha de prata durante os Jogos Olímpicos de 2000, em Sydney. E foi precisamente a ginástica de Elena que em 1995 deu nome ao salto – Produnova – a primeira a saltá-lo, um dos saltos mais difíceis do Código de Pontuação da Ginástica Feminina. E se para Karmakar os Jogos do Rio são uma estreia, para Oksana Chusovitina, com a vida já cheia de história, são um desafio - pois, aos 41 anos, ainda pode conquistar uma medalha de ouro. A LEUCEMIA DO FILHO Oksana Chusovitina entrou para história da ginástica ao tornar-se a primeira atleta da modalidade a caminho da sétima edição dos Jogos Olímpicos debaixo de três bandeiras diferentes. A primeira aparição de Chusovitina em competições dos Jogos Olímpicos aconteceu em Barcelona (1992), onde na estreia conquistou o ouro, como ginasta da Equipa Unificada, que reunia atletas que compunham a Comunidade dos Estados Independentes das antigas repúblicas da União Soviética. Nos jogos seguintes, em Atlanta (96), Sydney (2000) e Atenas (2004), Chusovitina representou o Usbequistão e em Pequim (2008) e Londres (2012) participou com atleta alemã. Mas para os Jogos do Rio, a ginasta de 41 anos, vai voltar a levantar a bandeira do Usbequistão. Chusovitina nasceu a 19 de junho de 1975, em Bucara, Uzbequistão, mas em 2002, a atleta que tinha feito uma pausa na carreira por ter sido mãe, viu-se obrigada a mudar-se para a Alemanha precisamente por causa de Alisher, o filho, na altura com dois anos de idade, quando lhe foi diagnosticado uma leucemia. Chusovitina tinha 27 anos quando adquiriu a nacionalidade germânica e voltou a competir para conseguir pagar os tratamentos e remédios caríssimos do filho. «Se eu não voltasse a competir, ele não sobreviveria. Simples assim, não tinha escolha». A PRIMEIRA VEZ NOS JOGOS OLÍMPICOS Chusovitina começou a praticar ginástica com oito anos, e apresenta-se no Rio como uma das atletas mais velhas em competição. Mas para ela a idade é apenas um número, já que o espírito é igual ao de Dipa Karmakar, a primeira atleta indiana a levar a ginástica aos Jogos Olímpicos. Nascida em Tripura, no nordeste da Índia, a vida de Karmakar mudou radicalmente depois de ter conquistado a medalha de bronze nos Jogos da Commonwealth em Glasgow. «As pessoas começaram a tratar-me como uma celebridade. Onde quer que vá as pessoas pedem autógrafos e querem tirar fotos comigo». E em 2015 não foi diferente: Karmakar voltou a conquistar o bronze durante o Campeonato de Ginástica que decorreu na Ásia. «Desde que eu me tornei uma celebridade em Tripura, sinto que tenho mais para dar ao meu povo. Eles têm-me dado tanto amor, eu sinto a necessidade de retribuir-lhes. Podia ser competindo por uma medalha Olímpica, de modo a que eles nunca se esqueçam que houve uma menina chamada Dipa Karmakar, que lhes deu algo que talvez ninguém mais poderia ter-lhes dado». Karmakar é a primeira ginasta indiana a qualificar-se para os Jogos Olímpicos. Sim, homens já houve: em 1964, mas os seis que competiram em Tóquio não precisaram passar por nenhum processo de classificação. CHUVA E RATOS NO GINÁSIO De origens humildes, a jornada de Karmakar até aos palcos da fama é baseada em trabalho e dedicação. Cresceu no seio de uma família pobre, filha de um treinador de halterofilismo (que treinou atletas nas Ilhas Andamão) e de uma dona de casa. Dipa Karmakar começou a praticar ginástica aos seis anos, mas ao contrário de muitas atletas, não foi por amor à modalidade, mas sim por incentivo do seu pai. O início da carreira não foi fácil para Karmakar – sem apoio financeiro do Governo, a atleta treinava num ginásio sem condições, onde havia ratos a passearem por entre os equipamentos, e de inverno, as chuvas inundavam o pavimento. Karkamar não tinha calçado à altura, e na primeira competição em que participou, teve que usar roupa emprestada. «Só depois das minhas vitórias internacionais é que as pessoas começaram a entender o valor da ginástica. Hoje, sou tão respeitada quanto uma atleta no Japão ou China». O SALTO DA MORTE «Um movimento em falso e pode morrer ali mesmo…». Esta é a frase que melhor resume os perigos que Karmakar enfrenta, cada vez que sobe para a barra de equilíbrio. Mas como a ginasta costuma dizer, para conseguires algo na vida, tens que correr riscos. Dipa Karmakar nasceu num dia histórico, a 9 de agosto de 1993. E foi precisamente num dia 9 de agosto (de 1942), que Mahatma Gandhi lançou o movimento Quit India - (ou Deixem a Índia, ou Saiam da Índia) contra o Reino Unido, na busca pela independência, durante a Segunda Guerra Mundial, e acabou na prisão (no Palácio de Aga Khan, em Pune). Karmakar não defendeu os direitos civis dos índios, nem tão pouco se tornou líder de um movimento de independência da Índia como fez Gandhi, mas para levar o nome do seu país aos Jogos Olímpicos arriscou a vida. Se ao Produnova lhe chamam o Salto da Morte, também lhe o Everest da ginástica. Karmakar já o fez e promete que vai repeti-lo no Rio. Se chegará para medalha ou não, logo se verá, é uma das curiosidades que a ginástica vai ter... ...
Estilos e Espantos É a principal esperança da Irlanda para defender o título nos Jogos Olímpicos do Rio, e nem sequer é profissional. Katie Taylor começou a praticar boxe aos 12 anos, mas aos 10 já tinha um par de luvas à sua espera, na academia do pai. Além do ouro conquistado em Londres, na categoria de 60 kg, Taylor conta com cinco Mundiais e seis Europeus. Católica fervorosa, coloca Deus acima de tudo, e antes de cada combate lê a bíblia. Fora dos ringues, é figura de televisão, revistas e anúncios de automóveis, e já foi convidada a encontrar-se com Barak Obama. É no boxe que Taylor faz sucesso, mas em criança chegou a participar em provas de atletismo e foi capitã da equipa de futebol… Não se imagina a viver em qualquer outro lugar que não seja em Bray. Bray é a sua casa. Bray é a sua família. Foi em Bray, Irlanda, a terra da sua mãe, que Katie Taylor nasceu, a 2 de julho de 1986. Foi ali, perto do mar, que começou a dar os primeiros passos, e aos nove anos, já revelava ser uma promessa no desporto. Para Katie, a mãe é o seu porto seguro. É Bridget que cuida da sua dieta diária. Já Peter, o pai, um inglês nascido em Leeds e campeão de boxe de pesos pesados, é quem a acompanha pelo Mundo fora, em cada competição, em cada medalha que leva para casa. O PRIMEIRO PAR DE LUVAS AOS 10 ANOS Na escola, Katie era uma criança calma e tímida, aos olhos da mãe, que encontrou no desporto, a sua forma de se comunicar com o Mundo. Katie á a mais nova dos quatro irmãos (Sarah, Lee e Peter). E era precisamente com os irmãos mais velhos que Katie brincava em criança, também eles praticantes da modalidade. Começou no boxe aos 12 anos, treinada pelo pai, na academia Bray Boxing Club, mas aos 10, Katie já tinha um par de luvas à sua espera. O boxe estava-lhe no sangue, mas mais que isso. Katie era uma apaixonada por desporto. Praticou atletismo e jogou futebol, defendendo a Irlanda nas seleções sub-17, sub-19, onde era a capitã da equipa. «K TAYLOR…» Katie entrou para a história do boxe aos 17 anos, quando em maio de 2005, se tornou a primeira mulher irlandesa a ganhar uma medalha de ouro no Campeonato Europeu de Seniores de boxe. Antes disso, teve que lutar para conseguir singrar na modalidade. Na Irlanda, o boxe é a modalidade que alcançou mais sucesso a nível internacional a partir dos anos 1920, mas nem todos tinham a possibilidade de lutar. Proibido para as mulheres, Katie infringiu algumas regras com a ajuda do pai. Para conseguir subir aos ringues, fazia-se passar por homem, e uma vez que os torneios eram só para homens, era inscrita como K Taylor. Só ficavam a saber que Katie era uma mulher no fim dos combates, quando tirava o capacete protetor. Só aos 15 anos, é que Katie viu reconhecido o seu direito de lutar, pela Associação Irlandesa de Boxe Amador. Em 2007, numa altura em conquistava admiradores por toda a Europa, a sua luta frente à canadiana Katie Dunn, no Mundial Masculino de Chicago, foi a chave para a inclusão das mulheres no boxe dos Jogos Olímpicos, confirmado em 2009. O OURO NOS JOGOS DE LONDRES Katie Taylor é o orgulho da Irlanda, considerada por muitos, a melhor atleta de todos os tempos. Em Londres (2012), os primeiros Jogos Olímpicos em que participou, e onde carregou a bandeira do país, Katie Taylor conquistou o ouro da categoria até 60 kg. Katie tornou-se a primeira boxeur a ter essa honra, e a terceira representante do boxe a carregar o símbolo irlandês, numa edição dos Jogos Olímpicos. Antes dela, Wayne McCullough, em Barcelona 1992, e Frances Barrett, em Atlanta 1996, foram os pugilistas que transportaram a bandeira da Irlanda. Aos 30 anos, Katie conta com 18 medalhas de ouro no currículo, cinco títulos Mundiais e seis Europeus. E Katie não é a única estrela da Irlanda. Foi em Dublin que nasceu Conor McGregor, o campeão do peso-pena do UFC. «O boxe Olímpico é na categoria amadora», e por isso mesmo, ao contrário do seu compatriota, Katie nunca se quis profissionalizar, apesar das várias propostas. DEUS E MUHAMMAD ALI Katie não tem muito tempo livre, o único dia de folga, aproveita para estar com os amigos. Para estar apta para as competições, treina duas vezes por dia, seis dias da semana. Mas há algo que não pode falhar na sua rotina: a leitura do Salmo. É ao som da sua música preferida que a campeã Olímpica lê o salmo 18 e algumas passagens na bíblia. Católica fervorosa, é dessa forma que se prepara antes de uma luta. «A coisa mais importante na minha vida é a minha fé e a minha relação com Deus. Isso é mais importante do que o boxe e qualquer medalha que possa ganhar». Katie Taylor sempre falou abertamente sobre o papel de Deus em sua vida. Katie e a família frequentam regularmente a igreja em Dublin. «Encontro Deus em tudo o que faço, dando-lhe o louvor e honra para o meu boxe». Mas foram nas palavras de Muhammad Ali, que Katie encontrou a fórmula para eliminar as suas adversárias. «Nunca ninguém irá chegar perto de onde ele chegou». Katie cresceu com a imagem de Muhammad Ali, um poster que tem colado na parede e que bem retrata a filosofia de vida do pugilista americano. «A luta é ganha ou perdida longe de testemunhas: atrás das linhas, no ginásio, e lá fora na estrada, muito antes de eu dançar sob aquelas luzes». O ENCONTRO COM BARACK OBAMA Em onze anos de combates, Katie sofreu a primeira derrota no Mundial de Boxe realizado este ano em Astana, no Cazaquistão, ficando apenas com a medalha de bronze, perdendo a meia-final diante a francesa Estelle Mossely, em decisão dividida. Uma derrota que nada a impediu de seguir o seu destino – voltar a conquistar o ouro nos Jogos Olímpicos do Rio. E se na Irlanda não há ninguém que não a conheça, no mundo Katie é já uma estrela, dentro e fora dos ringues. A campeã olímpica é já um caso de sucesso – aparece em programas de televisão, jornais, revistas e até, em anúncios de carro e de seguros. Quem não ficou indiferente ao seu talento foi Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos, e a Rainha Elizabeth, da Grã-Bretanha, e Katie não disse não, quando foi convidada pela realeza. ...
Para lá do que se vê E se Cristiano Ronaldo tivesse ganho a taça ao serviço do Darfur United? Ou mesmo pelo Occitânia ou Abecásia? Nunca ouviu falar? São Seleções não oficiais, podem não ter um lugar de honra no mapa, mas conseguiram competir num Mundial de futebol. Não se formaram em grandes clubes, nem tiveram treinadores de mérito, apenas encontraram no futebol uma réstia de esperança para apagar da memória as feridas da guerra do Sudão. Quem por lá passou fala em genocídio. Ao início não foi fácil, juntar na mesma equipa jogadores que não se conheciam, todos falavam línguas diferentes. Mas bastou uma bola de futebol… Eram na sua maioria crianças e jovens, outrora habituados a jogar à bola em campos de terra, e principalmente descalços. Ali era tudo novo. Nos pés, agora calçados, tinham sapatos esquisitos. Uns às cores, outros pretos, todos com pitões colados à sola. Usavam-nos para pisar relva, pela primeira vez nas suas vidas. Não havia areia, terra ou pó. No meio do campo habituaram-se à figura de um homem que lhes ditava as regras. Para o Mundial seguiram sem um manual de instruções, apenas sabiam que iam jogar futebol. E sobre o desporto só conheciam uma coisa: a bola. Para eles, o futebol não era uma via para o estrelato, nem sabiam o que isso era. Longe das luzes da ribalta, desconhecidos entre os restantes olhares, o verdadeiro futebol era aquele que se jogava como veículo de expressão, homens, mulheres e crianças que perderam a família na guerra. Depois da tragédia, nada tinham, a não ser a esperança de um futuro melhor. A SELEÇÃO QUE SURGIU NUM CAMPO DE REFUGIADOS Gabriel Stauring tinha um sonho – criar uma equipa de futebol composta por sobreviventes de guerra. Na altura vivia-se o conflito étnico do Darfur, no oeste do Sudão, que desde 2003 é palco de violência, massacres e mortes. As Nações Unidas descrevem-na como uma das piores crises humanitárias do Mundo. O governo dos Estados Unidos classificou-a de genocídio, comparando com o sangrento conflito de 1994, no Ruanda. Os que sobreviveram não mais vão conseguir apagar da memória o rosto dos familiares mortos a sangue frio. Os dias que se seguiram não foram fáceis. Mulheres foram violadas, a água e os alimentos não chegavam para todos, o surto de hepatite crescia de dia para dia. Mas Stauring não desistiu do seu sonho, nem do sonho desses sobreviventes que mais que tudo, queriam viver. O americano usou as ferramentas da I-ACT, a sua organização não-governamental, e criou o Darfur United, uma Seleção de sobreviventes. «As cores do equipamento foram es-colhidas pelos refugiados: verde para representar a sua terra e branco para representar a paz». Mais do que o nome, uma Seleção unida pela esperança numa simples bola de futebol. O PRIMEIRO MUNDIAL NO CURDISTÃO Ao início não foi fácil. Para o primeiro treino de captação apareceram jogadores de cada um dos doze campos de refugiados que existem na frontei¬ra entre Chade e Sudão. Pior que isso eram jogadores que não queriam ser misturados com membros de outras etnias e exigiram que as tendas de cada grupo estivesse assinalada com o nome da respetiva tribo. Mas no futebol, cabe apenas ao jogador chutar a bola, e quando não está bem, a porta de saída é serventia da casa. Ninguém quis sair, habituaram-se a regras, e os que passaram nas captações adotaram uma nova postura. De desconhecidos, começaram a viver como irmãos, ensinavam os seus idiomas uns aos outros e partilhavam histórias. A primeira, a principal, sobre o primeiro Mundial das suas vidas. Desde 2012, que o Darfur United tem a sua própria Seleção de futebol. Não tem voz direta na FIFA, mas chegou longe – ao Viva World Cup –edição da prova para equipas não filiadas na FIFA - o primeiro Mundial para seleções não oficiais, que decorreu no Curdistão iraquiano. «No início parecia um sonho impossível de realizar por causa de todas as dificuldades logísticas, a falta de dinheiro para as viagens e os obstáculos em conseguir vistos para um grupo de homens refugiados sem país. Mas também parecia muito certo fazer tudo ao nosso alcance para conseguirmos. Antes de avançarmos, decidimos perguntar aos refugiados e a resposta foi positiva. Um líder de um grupo de refugiados disse-nos: ´Agora somos parte do Mundo´», disse Gabriel Stauring, o presidente do clube. À primeira tentativa, 15-0. No dia seguinte, 18-0. Ao terceiro jogo, 5-1. No final, mesmo com tanto golo sofrido em 360 minutos, Suleiman Bourma ficou orgulhoso do seu Darfur United. Palavra do capitão. «Perdemos os jogos todos, mas não estamos preocupados com isso. Conseguimos vir aqui e fazer história». UM AMERICANO NO SUDÃO Uma história diferente também na vida de Mark Hodson, um americano com experiência no futebol, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, o escolhido para erguer uma Seleção no Sudão. «Tem sido uma experiência fantástica. O futebol é uma linguagem global. Estive em África, com 60 jogadores que não se conheciam, todos falavam línguas diferentes, e bastou uma bola de futebol para juntar toda a gente». Mark Hogson, que orientou o Darfur United nos Mundiais não-oficiais de 2012 e 2014, já prepara o próximo desafio - agendada para setembro de 2016, na Abecásia, uma região autónoma situada no Norte da Geórgia. BALOTELLI À PROCURA DE UM PAÍS Depois do Mundial de Curdistão em 2012, uma nova viagem: o destino foi Ostersund, cidade plantada no lado sueco da Lapónia. Terra do Pai Natal, sim, mas que também acolhe Mundiais de futebol. E se no Mundial do Brasil, Mario Balotelli, um dos jogadores italianos mais badalados do mundo, levava o treinador a um verdadeiro ataque de nervos, o seu irmão mais novo também fazia das suas, também num Mundial, mas muito longe do Brasil e com menos alvoroço. Chama-se Enoch Barwuah e em 2014 esteve em Ostersund, na Suécia, ao serviço da Seleção da Padânia, a disputar um Mundial para seleções que não fazem parte da FIFA. E o primeiro jogo foi precisamente contra o Darfur United. Enoch, um avançado que alinha no modesto Vallecamonica, dos escalões secundários de Itália, e que passou pela formação do Manchester City quando o irmão andava por lá, passou despercebido num torneio onde não existiam estrelas do futebol mundial com contratos milionários. Occitânia, Abecásia, Lapónia, Ilha de Man ou Nagorno-Karabakh, também faziam parte da lista, seleções cujos jogadores representam minorias étnicas, estados não reconhecidos pela comunidade internacional, comunidades aprisionadas pela geografia em países que não são reconhecidos como países. Ali não há muito. Apenas histórias de vida, exemplos de superação e uma vontade comum de fazer parte do mundo, tal como os outros heróis conhecidos, como eles, amantes do futebol… ...