TERÇA-FEIRA, 03-05-2016, ANO 17, N.º 5939
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destaques

Vinha da romaria, atrasou o jogo...
Do Passado para o Presente No primeiro jogo em que o Sporting foi ao Porto, ganhou. Só que não era oficial. Quando o foi, na final do Campeonato de Portugal de 1922, perdeu – e foi assim que o FC Porto arrancou para o primeiro título nacional da história, numa caminhada marcada por peripécias e desconcertos, no futebol e no país. Com o Sporting de novo no Porto – ainda a sonhar com o regresso a campeão – em pano de fundo é sobre o que aconteceu nessas primeiras vezes que aqui se fala... Com o Benfica já o FC Porto jogara antes e fora esmagado, mas contra o Sporting, no Porto, a primeira vez foi em 1917 e perdeu por 4-1. O desafio foi no Campo da Constituição – que, por vezes, os portistas emprestavam ao Salgueiros, a troco de pagamento de um escudo e cinquenta centavos por partida e 20 centavos por banho e uso de cada toalha. Algum tempo depois, na Illustração Portuguesa que nas praias da Póvoa e de Miramar, de São Martinho do Porto e da Figueira da Foz, de Cascais e da Rocha, no Algarve, já se surpreendiam «banhistas graciosas de braços nus e tornozelos ao léu» - e não como antes: elas de vestidos a roçagarem o chão e às vezes de sombrinha também. Os pobres continuavam, porém, a ter de ir à água em sorrateirice, pela madrugada, vestidos com a roupa do dia-a-dia. E também se contava que uma velha de 70 anos de Vieira de Leiria que andara a vida inteira 16 quilómetros por dia a levar e a trazer malas de correio para ganhar 30 réis ficara «muito feliz» porque já só tinha de «fazer 12 quilómetros» para deixar as cartas de aldeia em aldeia e lhe puxaram o ordenado para 60 réis... DO SPORTING, O PRIMEIRO FUTEBOLISTA A GANHAR DINHEIRO (E NÃO SÓ…) Era do Sporting o futebolista que em Portugal mais ganhava por essa altura: Artur José Pereira. Fora, em meados de 1914, do Benfica para o Lumiar seduzido por José de Alvalade, recebia 36 escudos por mês – e tinha um outro privilégio: ser o primeiro a utilizar a banheira de água quente que havia no balneário. Valeu a pena o investimento – com ele o Sporting venceu o Campeonato de Lisboa de 1914/15, foi o primeiro título da sua história. (Mas, ainda não nacional – porque, então, títulos nacionais não havia no futebol, em Portugal…) Por essa altura, o Benfica tinha no futebol um massagista particular, o sueco Boo Kullberg, que, além de professor de ginástica, se tornou seu primeiro treinador de atletismo. Pagava-lhe pelo serviço de massagens 40 escudos por trimestre – e o FC Porto não se dava a tais luxos, nem a esses do massagista, nem aos outros do amador disfarçado. Nas viagens para fora da cidade, eram os próprios futebolistas do FC Porto que suportavam as despesas. Alguns, se se sentissem com pouco dinheiro, pediam discretamente dispensa. Por causa disso, levantou-se no clube um movimento de insubordinação, com ameaça de greve geral – quando se descobriu que Joaquim Reis, o Farrapa, recebera por baixo da mesa 100 escudos. Para apagar o fogo, o presidente Henrique Mesquita convocou os demais jogadores para, numa reunião no seu gabinete, lhes tocar ao ao coração: - O Farrapa só recebeu as suas despesas por ser tão pobre que jamais poderia pagá-las! «SUJOS E VERGONHOSOS» E OS PORTISTAS QUE FORAM À GUERRA… Era, era vida dramática dos pobres – por essas eras. No Porto ou em Lisboa. Ou onde quer que fosse. Pão pouco havia – e o que havia era de má qualidade. A batata às vezes podre custava 8 centavos o quilos. E na noite de 19 de Março de 1917, milhares de pessoas invadiram, em Lisboa, padarias e mercearias, saqueando-as. A polícia ripostou, a multidão em fúria enfrentou-a com pedras e paus, tiros e bombas – e pelo meio, a arrastar-se, sempre o mesmo grito: - Temos os filhos a morrer de fome... Houve mortos e feridos. E presos, muitos presos. O governo decretou o «estado de sítio» e só cinco dias depois anunciou que o «abastecimento de farinha estava regularizado e a vida na cidade tinha voltado à normalidade». Antes, a 30 de janeiro, partira para França, para a I Guerra Mundial, a I Brigada do Corpo Expedicionário Português, sob comando do coronel Gomes da Costa. Quase metade da equipa do FC Porto – entre portugueses e britânicos, sim porque britânicos eram o Harrisson e o Hamilton – foi na leva. Alguém escreveu que a «soldadesca portuguesa» chegara «suja, imunda, vergonhosa, uma tropa fandanga com que se pretendia alardear que temos um exército, mas não»... (A Cruzada das Mulheres Portuguesas lançou campanha de subsídios de 2 escudos e 30 centavos às famílias dos mobilizados – e em Lisboa o Século criou a Sopa dos Pobres para dar de comer a «milhares de desvalidos»...) A 4 de Abril deu-se nota do primeiro morto do CEP em combate: o soldado António Gonçalves Curado. Sobre o abrigo onde estava caiu granada que fez abater o tecto – e foi isso que lhe esmigalhou a cabeça. ...
Grande História Arrepiante, o destino de três húngaros que foram campeões olímpicos de esgrima. Mas não só o deles. Pelo que aqui se conta também passa um polaco fuzilado por nazis – e aviões a caírem (e não apenas na guerra). Ainda se fala de cavalos a fazer salto em altura e salto em comprimento e das peripécias por que passaram os homens que saltaram mais do que eles, por exemplo o que levou quatro medalhas de ouro dos Jogos Olímpicos de Paris, em 1900 (e por causa de uma delas apanhou um soco). E também se fala de um alemão deportado para a Ilha de Man por o apanharem em Londres a trabalhar como ourives, de um outro alemão que, atropelado nos Estados Unidos, foi campeão olímpico com uma perna de pau – e de mais que talvez nem imagine, por exemplo de José Bento Pessoa, o português que se tivesse podido ir a Atenas, em 1896, o mais certo teria sido sair de lá com medalha, de ouro talvez… Guerra Junqueira escrevera numa das suas truculentas crónicas de imprensa que «a bicicleta era o único veículo em que a besta puxava sentada» - e foi precisamente na «velocipedia» que nasceu a primeira grande figura do desporto português: José Bento Pessoa, que em 1899 bateu o record mundial de 500 metros no velódromo de Chamartin. Por já ser profissional, não disputara, três anos antes, os Jogos em Atenas. Onde se fizeram 100 quilómetros numa... pista de cimento, no velódromo que se construíra por 104 000 dracmas construíra-se um velódromo. (O Estádio Olímpico, o Panatenaico, também fora propositadamente construído para a edição do renascimento – graças à oferta de um milhão de dracmas de George Averoff, comerciante de Alexandria. A pista era de terra, em forma de ferradura – e tudo o resto se fizera com mármore do Monte Petélico, de onde saíra também a pedra para o Pártenon.) ERAM SÓ DOIS, O GREGO TEVE AVARIA, O FRANCÊS ESPEROU POR ELE… Nos 100 quilómetros na pista do Velódromo Olímpico, apenas dois concorrentes chegaram ao fim – e o francês Léon Flameng venceu-os em 3 horas e 8 minutos, com 11 voltas de avanço. E até poderia ter sido por mais. A dado passo, Flameng apercebeu-se de que a bicicleta de Georgios Kolettis se avariara. Parou enquanto o outro a arranjava. Adiante o francês caiu, mas o grego não esperou por ele, mesmo assim perdeu como perdeu – e no final foi duramente repreendido pela sua falta de fair-play, chegando mesmo a colocar-se a hipótese de o desclassificarem por «atitude incorrecta». Mas como desclassificá-lo de nada valia, assim ficou… ERA AVIADOR, FOI ABATIDO NA I GUERRA MUNDIAL… 100 quilómetros também se fizeram em estrada – pelo caminho dobrado da maratona, a essa prova Flameng não foi – e o campeão, o grego Konstantidinis, gastou a cumprir a distância mais 14 minutos do que Léon fizera em pista. (Depois de Atenas, Léon Flameng lançou-se a outra aventura – foi piloto aviador. Estava em combate na I Guerra Mundial quando o seu avião foi abatido por fogo alemão – caiu ao solo em Éve. Morreu na hora, acabara de fazer 40 anos…) O FRANCÊS DAS TRÊS MEDALHAS E O RECORDE DO MUNDO DO PORTUGUÊS… Quem, porém, dominou as provas mais curtas na pista foi Paul Masson. Também ele, francês. Venceu os 1000 metros em sprint (onde Flameng foi terceiro, atrás do grego Nikolopoulos), os 1000 metros em contra-relógio e os 10 quilómetros em pista (onde Flameng foi segundo). Saiu de Atenas – e profissionalizou-se. Mudou de nome, passou a ser Nossam – que é Masson ao contrário -, Paul Nossam. O melhor que fez foi um terceiro lugar no Campeonato do Mundo de 1897. Foi o ano em que, na inauguração do velódromo de Chamartin, em Madrid – José Bento Pessoa correu os 500 metros na sua nova Raleigh de nove quilos e meio em 33 segundos e 1/5, estilhaçando o recorde mundial do francês Jacquelin. Meses depois, duvidando da fiabilidade dos cronómetros de Madrid, achando que ele era espanhol e não português, suíços desafiaram-no para duelo com aquele achavam que era o ciclista mais rápido do Universo, tratavam-no simplesmente pela alcunha: Champion – e, no velódromo de Jonction, em Genebra, Bento Pessoa pura e simplesmente arrasou-o… O dinheiro que recebia pelas corridas que fazia – ainda mais o impedira de estar nos Jogos de 1900, em Paris. Se estivesse só uma anormalidade impediria que se tornasse o primeiro português a ganhar uma medalha olímpica… ...
Estilos e Espantos Cameron McEvoy tornou-se o principal trunfo australiano da natação da Austrália no ataque aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Depois de ter batido recorde de Ian Thorpe, com apenas 17 anos, e de se tornar o nadador mais novo em estreia olímpica, há quatro anos, em LOndres é o favorito à conquista do ouro nos 50, 100 e 200 metros livres - e nas estafetas de 4x100 metros livres, 4x200 metros livres e 4x100 metros estilos. E para reforçar ainda mais o estatuto, tornou-se o primeiro australiano e o terceiro homem na história da natação a tocar a fronteira dos 47 segundos sem fato tecnológico, fez 47,04... Quis e conquistou sonhando, o que o outro por querer aprendeu. O pai sempre viveu para o surf, o irmão mais velho preferiu as piscinas. Começou a ter aulas de natação com apenas cinco anos, não fazia do desporto vida, a ciência meteu-se no seu caminho. McEvoy tornou-se o novo herói australiano à conquista do ouro Olímpico, mas tal como Einstein é na física que encontra o seu equilíbrio. «Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta». O próximo passo é tornar-se astronauta. Foi durante uma viagem de turma a Manchester, em Inglaterra, que McEvoy percebeu que amava tanto o desporto como a ciência. E se os colegas aproveitaram a viagem para visitar o mítico estádio de ´Old Trafford´, o nadador australiano trocou o futebol para se dar a conhecer a pesquisadores famosos e visitar museus. Há inclusive relatos que dão conta do dia em que McEvoy chegou a abandonar a piscina a meio de um treino para fazer anotações, quando teve uma ideia para solucionar uma equação matemática. Apesar da tenra idade, 21 anos, o gosto pelo conhecimento já rendeu a McEvoy o apelido de ´o professor´. ...