SEGUNDA-FEIRA, 03-08-2015, ANO 16, N.º 5665
Chegou a hora de Ronaldo
Portugal
O grande líder, o querido líder e o nosso líder
03:00 - 21-06-2010
É hora de Ronaldo assumir rédeas na Selecção. Não ganhar à Coreia do Norte pode ser o fim.

É agora ou nunca! Não há volta a dar. Aos 25 anos, chegou a hora de Cristiano Ronaldo ser o comandante da Selecção, dando brilho ao estatuto que, há ano e meio, o levou ao título de melhor jogador do Mundo. O desafio da Coreia do Norte, hoje à hora de almoço, apresenta-se como um dos maiores da carreira do nosso 7, do nosso novo menino de ouro, do nosso líder da actualidade, depois de Eusébio nos anos 60 e de Figo nos anos 90 e no novo milénio.

Chegou a tua vez, Ronaldo! Não vencer hoje a Coreia do Norte pode ser o fim. Pode significar o princípio do adeus de Portugal ao sonho sul-africano. E pode, por acréscimo, implicar que o jogador mais caro de sempre (o Real Madrid pagou, há um ano, perto de 100 milhões de euros ao Man. United) fique fora do Mundial no final da primeira fase, restando-lhe esperar pelos 29 anos para, no Brasil, em 2014, ter nova e, provavelmente, derradeira tentativa de sagrar-se campeão mundial, um sonho tantas vezes confessado.

Inspiração lusitana não lhe faltará. Desde logo porque o jogo se realiza numa das cidades mais marcantes da nossa história, a Cidade do Cabo, o da Boa Esperança que deixou de ser das Tormentas quando o navegador Bartolomeu Dias, em 1488, o dobrou e deu novos mundos ao Mundo.

KIM PAI, KIM FILHO

A Coreia do Norte é a selecção mais misteriosa e desconhecida do Mundial, muito por culpa do regime de clausura e da ditadura em que vive o país asiático comandado, entre 1948 e 1994, por Kim Il-Sung (o Grande Líder, também conhecido por Eterno Presidente) e, desde 1994, dirigido pelo seu filho, Kim Jong-Il (o Querido Líder, também tratado como Supremo Líder). Da selecção norte-coreana sabia-se apenas que corria muito, que era solidária a defender, que tinha um ou dois jogadores perigosos a atacar. Argumentos confirmados na derrota da primeira jornada com o Brasil, por 1-2.

É contra esta selecção exótica que Cristiano Ronaldo deve assumir o papel de grande líder, de querido líder, de nosso líder rumo à primeira vitória neste Campeonato do Mundo. Tal como em 1966, no Mundial de Inglaterra, Eusébio liderou os magriços a fantástica reviravolta, precisamente contra norte-coreanos (nos quartos-de-final, Portugal recuperou de 0-3 e ganhou por 5-3, com quatro golos do Pantera Negra). Tal como, no Euro-2000, com a Selecção a perder por 0-2 frente a Inglaterra, Luís Figo pegou na bola a meio-campo, correu com ela e, ainda longe da grande-área, disparou um míssil para o 1-2, liderando os portugueses a nova recuperação histórica: Figo foi buscar a bola ao interior da baliza e o seu gesto, semelhante ao de Eusébio em 66, inspirou os companheiros até à vitória por 3-2.

O GOLO QUE TARDA...

Esta é a hora de Ronaldo. Portugal mostrou-se perdido, sem soluções, sem rumo, no empate a zero com a Costa do Marfim. Precisa de uma referência! Ela quase surgiu naquele disparo do número 7 ao poste. Foi por pouco o tal golo que o capitão Ronaldo persegue desde 11 de Fevereiro de 2009, quando apontou o último, num particular frente à Finlândia (1-0). Que esse golo e esse líder aguardado surjam hoje, a partir das 12.30 horas, para que milhões de portugueses continuem a sonhar.
João Pimpim

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