Por
J. M. Delgado, R. Azevedo e M. C. PereiraO presidente da Liga assegura, em entrevista ao nosso jornal, que não será candidato daqui a uns meses. Avança com o perfil do seu sucessor, indica cinco possíveis candidatos e ainda com uma novidade: «O futuro presidente da Liga deve ser remunerado!» E fala de quem, segundo diz, lhe tentou fazer a 'vida negra' na Liga.
- Está arrependido de ter embarcado na aventura de ser presidente da Liga de Clubes de Futebol Profissional?- Absolutamente nada. Situemo-nos no tempo: quando decidi ser candidato, o futebol português atravessava momentos de dificuldade e instabilidade, as demissões sucediam-se, o ruído e a confusão não cessavam. Numa primeira fase, a decisão de avançar para a Liga tomei-a de forma solitária - aliás apresentei a minha candidatura num hotel do Porto, sem apoios - identificando o rumo e o projecto que entendia serem mais adequados. E posso garantir que tinha uma ideia clara do que me esperava nos anos que iriam seguir-se. Era preciso regenerar o futebol, devolver-lhe credibilidade e dar confiança aos adeptos. Garanto que não me arrependo de nada do que foi feito nestes 39 meses.
- Qual era a sua relação com o futebol [antes de chegar à Liga]?- A de adepto, a de alguém que seguia o fenómeno de forma apaixonada, tão apaixonada que continuo a jogar com os amigos todos os sábados de manhã...
- Quando tomou posse como presidente da Liga fez um discurso arrojado, de que todos (ou quase todos...) gostaram mas em que poucos acreditaram...- É verdade que às vezes falo com o coração, mas naquele momento tinha a noção clara de que o futebol português precisava de um grande abanão. Ao não estar comprometido com nenhum clube - embora tenha logo dito, para não haver especulações, que era sportinguista - , sem qualquer projecto pessoal ou agenda oculta, tinha condições para falar como falei, dando, reconheço, com aquelas palavras, uma pedrada no charco.
- O 'sistema' estava preparado para esse abanão?- Não foi no 'sistema' que pensei. Aquilo que me motivou foi a certeza de que o futebol português precisava de mudar de rumo se queria afirmar-se interna e externamente. Hoje ninguém tem dúvidas de que o futebol em Portugal está diferente. Embora esteja a ser juiz em causa própria, parece-me evidente que está diferente para melhor.
(...)
- É certo que temos visto alterações regulamentares importantes; mas também tem sido possível identificar, em diversas matérias, nomeadamente de natureza disciplinar, um grande contra-vapor por parte de muitos clubes...- Há necessidade de que 'passem' em AG da Liga e o que sinto é que muitas vezes é preciso explicá-las bem aos clubes. Não apenas no âmbito disciplinar mas também na órbita da arbitragem e do próprio regulamento de competições. Temos de compreender também, usando a prudência e o bom-senso que o caminho faz-se caminhando. Ou seja, não podemos mudar tudo de uma vez, é preciso saber, além de explicar bem os propósitos, fasear as alterações. Uma coisa garanto, pois senti isso por parte dos clubes: há uma grande vontade de reformar, reestruturar, alterar e construir novas soluções. Relativamente a algumas delas, precisamos de ser capazes de dar um passo atrás para que, depois, possamos dar dois à frente.
- Essa vontade que diz perceber nos clubes mantém-no motivado?- Em tudo o que faço, ando sempre motivado. Na vida as coisas têm-me sucedido com grande naturalidade. Nunca pensei ser presidente da Liga, ou da Câmara, membro de dois Governos e tudo isso aconteceu. Só sei dar o meu melhor até ao fim.
- Mas mesmo assim tem sido alvo de críticas...- É um facto, mas mesmo aí algumas pessoas - umas a falar em voz alta, outras a falar em voz baixa - só mostraram que me conhecem mal. Repare que começaram por insinuar que eu estava na Liga a caminho da presidência da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e eu sempre disse que isso não era verdade. Vim para a Liga por ter entendido que era o momento certo para realizar um conjunto de reformas necessárias ao futebol profissional. Repito: quem andou a dizer isso só demonstrou que não me conhece. Se quisesse ser presidente da FPF, eu próprio assumiria essa candidatura.
- São essas mesmas pessoas que estão agora a tentar empurrá-lo da Liga?- Não sinto que estejam a tentar empurrar-me da Liga.
- Então como explica as declarações públicas, de presidentes de vários clubes?- Bom, nesse âmbito há um argumento que, de facto, não consigo perceber e passa pela compatibilização da Liga e da Câmara. Visitei essas mesmas pessoas, quando decidi candidatar-me e era então deputado à Assembleia da República e recolhi o seu apoio. A única coisa que mudou foi a Liga. Hoje é uma instituição apetecível. Tem a casa arrumada. Tem as contas em dia. Tem credibilidade. Gerou confiança no mercado. Tem patrocinadores. Mas a Liga não pode ser um 'tacho'. E rio-me quando oiço dizer que a Liga é mais um 'tacho' que eu tenho. É mentira, até porque não ganho nada na Liga, nem um cêntimo, pura e simplesmente não sou remunerado. Mas acho que o próximo presidente da Liga deve ser remunerado.
- Mesmo que seja Hermínio Loureiro a suceder a Hermínio Loureiro?- Não sou candidato a presidente da Liga!
- Não acha que está a ser demasiado peremptório na decisão de não se recandidatar?- Isto é um ciclo, é uma missão, é uma tarefa à qual me propus e cujos objectivos julgo estarem atingidos. Não sendo eu uma pessoa ligada ao futebol, julgo que chegou o momento do futebol português, nos seus clubes e nos seus dirigentes, encontrar alguém que, depois da casa arrumada, depois de o caminho da credibilidade e da regeneração estar implementado, tenha uma maior ligação ao futebol para poder gerir os destinos da Liga Profissional.
- E não há nada que, no futuro, o faça mudar de ideias?- Não. Não sou candidato a presidente da Liga e ponto final. Acho que há hoje condições para que o futebol encontre alguém que trilhe este caminho de credibilidade de regeneração e reformista, para que o futebol português não ande para trás. Não pode andar para trás. Com a casa arrumada, é uma casa mais apetecível do que quando entrei. Quando entrei vivíamos um período conturbado de demissões, com os órgãos a terem quorum um dia e no outro já não tinham, com algumas decisões a serem tomadas no Porto, outras em Lisboa e outras ainda em sala de hotéis. Isso tudo, felizmente, acabou.
- Seria recomendável um nome equidistante dos três grandes?- Tem de ser alguém que seja profundo conhecedor da indústria do futebol, tem de ser alguém com credibilidade, tem de ser alguém que, como é evidente, goste de futebol e que tenha um perfil de independência e de equidistância que não trema em nenhuma circunstância, que resista sempre a pressões e que não tenha medo.
- E essa pessoa existe?- Claro que existe. Existem muitas e várias pessoas que reunam estas condições de que falei.
Esta é apenas uma parte da entrevista. Leia-a na íntegra na edição impressa de A BOLA
03:51 - 21-11-2009