Por
Paulo Cunha, na BósniaReportagem na Bósnia: visita à base onde estão os 54 militares portugueses em missão na Bósnia-Herzegovina. Se pudessem entravam em campo, mas 'cuidado com os lobos'. esfomeados...
SARAJEVO - Mais do que apelar a conceitos tácticos, dissertações sobre o 4x3x3 ou o 4x2x3x1, transições ou blocos defensivos e ofensivos, a Selecção Nacional, quando pisar o Estádio Bilino Polje, em Zenica, onde 15 mil bósnios vão criar o inferno na terra, precisa de congregar forças, unir-se numa única vontade, sofrer por uma causa.
O amor à camisola, o apego à bandeira que os portugueses exigem na hora do tudo ou nada na antecâmara do último capítulo da qualificação para o Mundial-2010 é o lema do contingente português estacionado na Bósnia-Herzegovina, exemplo de camaradagem que os craques estão obrigados a seguir. Por nós, por eles.
Desde o final da guerra que martirizou a antiga Jugoslávia, caldeirão de etnias, religiões e povos separados pela história e unidos por um só homem, o marechal Tito, que Portugal, integrado actualmente num grupo de 27 países sob a égide da União Europeia, ajuda a criar as bases de um entendimento civilizado entre sérvios, bósnios e croatas, cristãos ortodoxos, muçulmanos e católicos, enfim, um barril de pólvora sempre na iminência de explodir ao mínimo rastilho. No total, a Eufor (Força Europeia) conta com 1700 militares que previnem antes de ser necessário remediar, 54 dos quais lusos de gema, divididos pela GNR (40), Exército (13) e Força Aérea (1).
É inspirado no espírito de missão destes homens, qual deles o mais entusiasmado com a presença da equipa das quinas em Sarajevo e Zenica, que Carlos Queiroz pode dar o mote para um jogo que o seleccionador bósnio, Miroslav Blazevic, em declarações à imprensa local, sintetizou ontem sem rodeios: «Vamos atacar Portugal como lobos esfomeados.»
Comandante de partidaPor falta de tempo, o efectivo estacionado em Butmir, localidade situada junto ao aeroporto onde se escavou um túnel de 800 metros que contribuiu para amenizar o cerco sérvio de mais de 1000 dias a Sarajevo, entre Abril de 1992 e Fevereiro de 1996, não concretizou o sonho - o sonho de ver a equipa de todos nós na base da Eufor. Certo é que os militares deram ontem à noite as boas-vindas ao clube Portugal e hoje é provável que uma delegação visite o hotel da concentração.
«É um prazer receber a nossa Selecção, uma alegria. Além da força que vamos dar no estádio, podem contar connosco para tudo», eis a forma dedicada como o coronel António Oliveira, «sportinguista assumido e sofrido», em contagem decrescente para regressar a casa na próxima sexta-feira depois de ter comandado «230 homens de sete nacionalidades na IPU [Unidade de Polícia Integrada]», manifestou «incondicional apoio à causa».
Ao lado, um camarada das forças da Turquia, país importantíssimo na ponte entre Ocidente e Oriente, ouviu com atenção aquilo que não percebeu e à primeira oportunidade aproveitou para combinar com o coronel Oliveira a logística do transporte do contingente português rumo a Zenica. Aqui as folgas são só no papel, apesar de os fins-de-semana significarem em regra um saltinho à capital Sarajevo, a escasso quarto de hora, e as noites, muito frias nesta altura, obrigarem a um convívio marcado pela boa disposição.
À distância de um cliqueA base Eufor-Butmir, de onde partem uma série de missões, sobretudo de reconhecimento, é uma pequena cidade com um perímetro superior a cinco quilómetros. Aqui há barbeiro, costureira, dois ginásios, dois restaurantes, um italiano e outro mais abrangente, e computadores portáteis para cada militar voltar a casa à distância de um clique. No caso do major Soares da Costa, com experiências em paragens tão diferentes e complicadas como Angola e Iraque, profundo conhecedor da realidade geopolítica de um país (in)governado por quatro presidentes e largas dezenas de ministros, as saudades são a multiplicar por cinco: a mulher e quatro filhos, três raparigas e um rapaz.
«Sei que ficam bem e isso ajuda-me no cumprimento da minha missão», disse, sem esconder que sofre pelo Benfica nas horas livres, sim, porque a Sport TV e a RTP Internacional são vistas neste cantinho lusitano da Bósnia, conforme frisou o tenente-coronel Luís Azevedo, «portista em maré de azar».
O cabo Moutinho, atento às movimentações no clube do coração, agora que Carlos Carvalhal é o novo timoneiro, já tinha estado na Bósnia em 1998 e decidiu regressar, após destacamentos no Kosovo, Timor e Iraque. «Somos uma família e é isso que espero de Portugal», desejou, o mesmo sentimento do sargento Figueiredo, «agradecido às novas tecnologias para ver e rever os dois filhos».
No avião que transportou A BOLA, com escala em Munique, viajou também o capitão Melo, oriundo do Porto, que trocou os primeiros dedos de conversa com os capitães Poiares e Alberto, os cicerones na chegada à Bósnia. Que Portugal tenha chegado com entusiasmo tão forte e a mesma consciência do dever.
Leia toda a reportagem na edição impressa de A BOLA
09:24 - 17-11-2009