TERÇA-FEIRA, 28-07-2015, ANO 16, N.º 5659
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Tudo começou entre leões e elefantes, com doenças estranhas, a caçar escorpiões...
Estrela de Diamante Das doenças estranhas ao dia em que o expulsaram do Giro por o apanharem agarrado a um carro; da corrida em que a bicicleta do Quénia não lhe chegou à Austrália aos desmaios pela manhã; do destino descoberto entre órfãos pobres à equipa com um português, o Hugo Sabido; da mágoa de não ter visto a mãe a ver-lhe o sonho à polémica que a mulher abriu – este é o outro lado de Chris Froome a caminho da eternidade... Clive Froome era jogador de hóquei em campo, acabara de chegar à seleção inglesa sub-19, mas, de súbito, sentiu, aventureiro, uma tentação: organizar safaris no Quénia – e sem perder tempo emigrou para Nairobi. Num dos seus bairros mais modernos, conheceu Jane, inglesa como ele, filha de comerciantes de café. Apaixonaram-se um pelo outro, nasceram-lhes dois filhos: o Jonathan e o Jeremy – e a 20 de maio de 1985 mais um: o Christophe. Jonathan e Jeremy depressa se encantaram pelo râguebi, Chris não – e, de pernas escanzeladas, cresceu numa outra sedução: - Andar de bicicleta, horas sem fim, pelo vale do Rift, subindo e descendo montanhas, tocando os 2000 metros de altitude... SÓ NÃO PODIA VOLTAR À NOITE, ANDAVA À CAÇA DE ESCORPIÕES... A mãe impunha-lhe uma condição apenas: voltar a casa, antes de anoitecer: - E quando não andava de bicicleta pelos caminhos de terra, acima, abaixo, ou a acampar pelas savanas com Jonathan e Jeremy, perseguia escorpiões e serpentes ou andava à caça de coelhos para, assim, arranjar comida para Rocky e Shandy. Rocky e Shandy era as duas cobras pitons que tinha na fazenda dos pais, em Kinjah, aldeia à sombra de Kikuyu, a principal cidade do Monte Quénia. Também tinha, no quintal, uma chita - e com ela por vezes tentava jogar futebol. A casa onde os Froome viviam era tão modesta, tão pequena que não tinham espaço para guardar as bicicletas: - Por isso, durante a noite, ficavam suspensa no teto. Chris e os irmãos eram os únicos rapazes brancos por aquela região com campos a perder de vista – aprendeu de um instante para o outro a falar swahili, o dialeto da tribo, mas na escola as notas nunca tocaram o brilho, a mãe, achando que talvez isso fosse do tempo que perdia nas suas solitárias cavalgadas pelos trilhos das montanhas, dizia-lhe que a bicicleta não era o seu futuro, ele respondia-lhe que era. QUANDO AS VACAS LHE COMERAM A CASA E ELE NÃO QUIS ENTRAR NO CARRO DA MÃE... Vendo-o de sonho cada vez mais ardente, aos 12 anos, quando Jane voltou para Nairobi procurou David Kinjah – um antigo ciclista queniano que criara o Simbaz Safari, um projeto para dar ciclismo a rapazes de bairros pobres da cidade, a maioria órfãos: - No início, Chris mal conseguia alcançar os pedais da velha bicicleta de corrida que um dos seus professores lhe oferecera. Não posso dizer que me tivesse passado pela cabeça que estava ali comigo alguém que iria vencer a Volta à França, mas percebi logo que o rapaz era especial. Pedalávamos regularmente até à fazenda dos meus pais, a 50 quilómetros dali, acampávamos no prado, uma vez as vacas comeram metade da nossa barraca de colmo, tivemos de ficar ao relento. Devido à idade de Chris, eu nem sempre queria que ele fizesse o caminho todo, mas ele fazia... Algum tempo depois, Kinjah decidiu fazer passeio de 100 quilómetros a Kajiado. Perguntou a Jane Froome se não queria acompanhá-los de carro – que, assim, Chris faria metade do caminho e depois parava, mas... - Quando, já noite, mandei Chris para o carro da mãe, ele recusou-se. Apesar de exausto e lento, eu e Jane não conseguimos que ele parasse, a resposta dele era sempre a mesma: que se eu fizesse os 100 quilómetros, ele também fazia. Já era assim: ambicioso, ambicioso até de mais... ...
Estrela de Diamante Nesses treinos com David Kinjah pelas altas montanhas do Quénia havia alturas em que Chris Froome e o companheiros tinham de fugir de leões e elefantes – e uma vez foi por pouco que escapou à more, atacado por um hipopótomo, num treino, à beira de um rio. Por essa altura também já se sabia que sofria de esquistossomose, uma doença crónica causada por parasitas que se apanham através da água que mata milhares de pessoas por ano em África – e de asma. DO COLÉGIO INTERNO NA ÁFRICA DO SUL ÀS CICATRIZES DO DESAFIO... Clive e Jane divorciaram-se – e aos 14 anos, o pai levou-o com ele para a África do Sul, pô-lo a viver em regime de internato na St.Andrew’s School. Experimentou o râguebi, o críquete e o squash, mas não fugiu ao seu destino, o ciclismo. Nas férias, voltava ao Quénia – e não deixava de voltar aos treinos no Simbaz Safari aos desafios com Kinjah: - Mal chegou da primeira vez, desafiou-me para uma corrida Kinjah-Froome, dizia que estava, enfim, capaz de me bater. Eu não acreditava. Já tinha uma boa bicicleta de corrida, sapatos e traje de ciclismo, capacete – e disse-lhe que para equilibrarmos o duelo e ia com uma mountain bike. Era um dia ensolarado e muito quente, por isso o Chris acabou por tirar o capacete, pendurou-o no seu guiador – e quando estávamos a descer a montanha a 60 quilómetros à hora, o capacete dele soltou-se, caiu à minha frente, voei pelo alcatrão a arder alguns metros e, agora, sempre que olho para as cicatrizes nos joelhos e nos braços, penso: esta é do Chris Froome, esta é do Chris Froome e esta ainda é do Chris Froome. Mas também posso dizer: o Chris Froome nunca me derrotou... Mas, o meu orgulho é outro, claro: sei que Chris Froome deve tudo o que tem a si mesmo, à sua paixão, à sua alma, às suas pernas, mas também sei que se não fossem as montanhas que subimos e descemos infinitas vezes ele não teria sido o que é... LEVANTAVA-SE ÀS CINCO DA MANHÃ, DESMAIAVA, CHAMAVAM-LHE MOISÉS... Em Joanesburgo foi-se tornando melhor aluno, entrou para o curso de economia da University of Johannesburg. Tinha de levantar-se todos os dias às cinco da manhã para pedalar e algumas vezes, umas durante, outras depois das provas, desmaiava – e os médicos diziam-lhe que era da dieta que levava e de querer ir sempre para lá dos seus limites. Deixara de ter David Kinjah como seu mentor, passou a ter Robbie Nilsen –o dono de uma pequena academia de ciclismo que um dia lhe telefonara prometendo ensinar-lhe a melhor forma de sobreviver às «nervosas provas sul-africanas». Aceitou-lhe os conselhos, mas não se resumiu a eles: escarafunchou livros de metodologia de treino, de psicologia e de nutrição – criou para si próprio dieta que lhe engrossou a massa muscular, tornou-se trepador. E como, no final de cada treino, gostava de vestir uma saia queniana, como se fosse um guerreiro masai, tinha longos os cabelos loiros, usava pulseiras coloridas das tribos do Quénia – os companheiros passaram a chamar-lhe... Moisés. ...
Estrela de Diamante Como queniano foi Chris Froome aos Jogos da Commonwealth em 2006, na Austrália – mas por complicações várias teve de correr com uma bicicleta emprestada por uma loja de Melbourne, fechou a prova em linha de 166 quilómetros em 25º. Também entrou nos Mundiais Sub-23 e o destino pregou-lhe uma partida: logo após a partida, um juiz atravessou-lhe no caminho, caiu, perdeu algum tempo a recompor-se, terminou o contrarrelógio com os braços e as pernas em sangue no 36º lugar, dizendo ao cruzar a meta: - Não seria um pequeno tombo que me faria desistir de um Campeonato do Mundo... DEIXOU DE SER QUENIANO, FOI PARA A EQUIPA DE HUGO SABIDO... Estava no segundo ano do curso de Economia – e no segundo semestre de 2007 abandonou-o para se dedicar ao ciclismo em full time, seduzido por um contratado pela equipa profissional da Konica Minolta. Meses depois, cansado do desleixo com que a federação queniana o tratava, mais do que os tormentos por que passava em busca de vistos – usou o sangue inglês dos pais para pedir a nacionalidade britânica... Encantado com o modo como venceu a Volta ao Japão, em 2008 o diretor desportivo da Barloworld de Hugo Sabido desafiou-o para os seus quadros. Foi pela Barloworld que se estreou no Tour, no Tour de 2008. No dia em que soube que fora escolhido para a equipa, a mãe morreu-lhe de um cancro: - Não pôde ver o que tanto gostaria de ter visto, ela que foi a principal responsável por tudo isto... Mas, nesse dia, prometi a mim mesmo que não ia correr só o Tour por ela, iria ganhar o Tour por ela... SAPATOS APERTADOS DO PRIMEIRO TOUR, A RElÍQUIA NO QUÉNIA Destroçado por dentro, essa edição terminou-a na 84ª posição, foi 11º entre os jovens – e tendo-se desfeito a equipa no ano seguinte, a Sky foi buscá-lo. Depois voltou ao Quénia – para oferecer luvas, capacetes, sapatos para David Kinjah usar no seu solidário Safari Simbaz: - Um dos sapatos eu guardei como relíquia para mim: foram os primeiros que Chris usou no Tour, eram pequenos de mais para ele, torturaram-lhe os pés durante dias... (contou Kinjah) No Giro do ano anterior fora desclassificado por ter sido visto a fazer parte de uma etapa agarrado a uma moto, no de 2009 acabou em 36º lugar, já sétimo na classificação da Juventude – e meses depois descobriu-se que apanhara de mais uma doença tropical parasitária: a bilhárzia que lhe destruía os glóbulos vermelhos. Poderia, pois, ser o fim do sonho, de todos os seus sonhos – não foi e não o foi pelo modo como ele lutou contra ela, sem que a Sky o desamparasse... ...