SÁBADO, 03-12-2016, ANO 17, N.º 6153

Bota de ouro esm

pos. jogador clube golos factor pontos
1º Luis Suárez FC Barcelona 40 2 80
2º Gonzalo Higuaín SSC Napoli 36 2 72
3º Cristiano Ronaldo Real Madrid 35 2 70
4º Jonas SL Benfica 32 2 64
5º Robert Lewandowski FC Bayern München 30 2 60
6º Zlatan Ibrahimovic Paris Saint-Germain 38 1,5 57
7º Islam Slimani Sporting CP 27 2 54
8º Lionel Messi FC Barcelona 26 2 52
9º Aubameyang Borussia Dortmund 25 2 50
Harry Kane Tottenham Hotspur 25 2 50
11º Sergio Agüero Manchester City 24 2 48
Karim Benzema Real Madrid 24 2 48
Neymar FC Barcelona 24 2 48
Jamie Vardy Leicester City 24 2 48
15º Antoine Griezmann Atlético Madrid 22 2 44
16º Nemanja Nikolic Legia Warszawa 28 1,5 42
17º Vincent Janssen AZ Alkmaar 27 1,5 40,5
Eran Zahavi Maccabi Tel Aviv 27 1,5 40,5
19º Aritz Adúriz Athletic Club Bilbao 20 2 40
Thomas Müller FC Bayern München 20 2 40
21º Mario Gomez Besiktas JK 26 1,5 39
Luuk de Jong PSV Eindhoven 26 1,5 39
23º Gareth Bale Real Madrid 19 2 38
Rubén Castro Real Betis Balompié 19 2 38
Paulo Dybala Juventus 19 2 38
Mitroglou SL Benfica 19 2 38
27º Ilija Nestorovski Inter Zapresic 25 1,5 37,5
28º Carlos Bacca AC Milan 18 2 36
Borja SD Eibar 18 2 36
Romelu Lukaku Everton FC 18 2 36
31º Léo Bonatini GD Estoril-Praia 17 2 34
Javier Hernández Bayer Leverkusen 17 2 34
Lucas Deportivo La Coruña 17 2 34
Riyad Mahrez Leicester City 17 2 34
35º Alex Teixeira Shakhtar Donetsk 22 1,5 33
36º Youssef El Arabi Granada CF 16 2 32
Kévin Gameiro Sevilla FC 16 2 32
Olivier Giroud Arsenal FC 16 2 32
Mauro Icardi Inter Milano 16 2 32
Rafael Martins Moreirense FC 16 2 32
41º Alexandre Lacazette Olympique Lyon 21 1,5 31,5
Arkadiusz Milik AFC Ajax 21 1,5 31,5
Jonatan Soriano Red Bull Salzburg 21 1,5 31,5
44º Leigh Griffiths Celtic FC 31 1 31
45º Jermain Defoe Sunderland AFC 15 2 30
Samuel Eto’o Antalyaspor 20 1,5 30
Odion Ighalo Watford FC 15 2 30
David Lafata AC Sparta Praha 20 1,5 30
Anthony Modeste FC Köln 15 2 30
Fedor Smolov FC Krasnodar 20 1,5 30
51º Paris Saint-Germain Edinson Cavani 19 1,5 28,5
Fernando Cavenaghi APOEL Nicosia 19 1,5 28,5
Munas Dabbur Grasshopper GC 19 1,5 28,5
Alexander Gorgon FK Austria Wien 19 1,5 28,5
Dirk Kuyt Feyenoord 19 1,5 28,5
Hugo Rodallega Akhisar Belediyespor 19 1,5 28,5
57º Iago Aspas Juncal Celta de Vigo 14 2 28
Salomon Kalou Hertha BSC Berlin 14 2 28
Bruno Daniel Moreira Paços de Ferreira 14 2 28
Leonardo Pavoletti Genoa CFC 14 2 28
Claudio Pizarro SV Werder Bremen 14 2 28
Tomas Radzinevicius FK Marijampole 28 1 28
Mohamed Salah AS Roma 14 2 28
Hamdi Salihi KF Skënderbeu 28 1 28
Sandro Wagner SV Darmstadt 98 14 2 28
ESM - QUEM SOMOS?

  A ESM (European Sports Magazines) é uma associação das mais importantes publicações desportivas da Europa: A Bola (Portugal), Marca (Espanha), World Soccer (Inglaterra), Voetbal International (Holanda), Sport Magazine (Bélgica), Kicker (Alemanha), Frankfürter Allgemeine (Alemanha), Titan Sports (China), Telesport (Holanda), Fanatik (Turquia), Sport Express (Rússia) e TIPS bladet (Dinamarca), Sportal Korea (Coreia do Sul), So Foot (França), Goal News (Grécia) e Nemzeti Sport (Hungria).

  Fundada a 1 de Junho de 1998, a ESM tem, sobretudo, em consideração a seriedade no futebol, os seus membros são inteiramente independentes, aproveitam as possibilidades e as vantagens da cooperação internacional, o que lhes permite participar na organização, por exemplo, da eleição do «FIFA World Player».
Não o deixaram vir para o Sporting, continuou em guerra (e sim, tinha razão…)
Grande História (Capítulo 2) Se Garrincha tivesse vindo para o Sporting, o seu destino poderia ter sido diferente. Nunca se saberá – e o que aqui se conta, tendo ainda como pano de fundo o concerto que Elza Soares deu no Coliseu, é como, mesmo sem Pelé a seu lado, ele ganhou o Campeonato do Mundo do Chile para cumprir a promessa que fez à cantora que, no fim do jogo, entrou eufórica pelo balneário onde já havia campeões nus e o champanhe continuava a jorrar das garrafas que saltavam de mão em mão e a Elza jurou: - Não, não reparei em ninguém pelado, porque eu só queria o Garrincha… O resto? O resto é o que não imagina. A Elza com a casa apedrejada – ou pior. Com a filha a salvar-se por milagre de um tiro, com ela atacada num morro a «pedra e pau». Tudo isso tinha a ver com o Botafogo? Tinha. E o que Garrincha tinha a ver cada vez mais com o Botafogo também é o que nem imagina: faltava a treinos – e teve até ordem para passar a noite antes do jogo com o Flamengo no quarto de Elza. Saiu de lá quase direto para o campo – e esse jogo está na história como o jogo em que Garrincha foi Garrincha pela última vez… Garrincha foi ao Chile disputar a Copa de 1962 – e Elza Soares também foi ao Chile. Não, não foi por causa de Garrincha – foi por ser quem era, estrela cada vez mais faiscante: Edmundo Klinger, famoso empresário uruguaio, criou em Asiva, perto da estância balnear de Valparíso, um festival musical paralelo ao Mundial, chamou-lhe mesmo a Copa da Música, com vários cantores a representarem vários países. Para representar o Brasil, foi Elza que ele escolheu. Chegou antes do jogo com a Espanha, Pelé já se lesionara e já se sabia que não poderia voltar a jogar a Copa. Di Stéfano, que também se lesionara mas ainda não se sabia se jogaria ou não contra o Brasil, afirmou provocador: - Mesmo com 11 Garrinchas, o Brasil vai perder o Mundial. E vai começar a perdê-lo connosco. Quando, ao almoço, na concentração, lho contaram, Garrincha reagiu com mostarda no nariz (e mel no coração): - Gente boa, acabei de pedir Elza em namoro e vou jogar para ela, vou ganhar a Copa para ela! E para dar ao Di Stéfano o troco que ele precisa, né?! SAIU AFÓNICA DO ESTÁDIO, DEIXOU LOUIS ARMSTRONG DE BOCA ABERTA... Klinger arranjou-lhe bilhetes para a partida, Elza Soares gritou tanto – que saiu do estádio quase afónica. À noite teria de cantar no programa onde também estava Louis Armstrong – e ao ouvi-la cantar rouca como ele, mas mais do que rouca como ele numa mistura de Ella Fitzgerald e Nancy Wilson, num swing como nunca ouvira, antes de subir ao palco para fechar o concerto, Armstrong esperou-a na coxia, abraçou-a, exclamou-lhe: - my daughter… Elza agradeceu-lhe e conta-se que, comovida, murmurou para um dos seus músicos: - Só não entendi por que o cara disse doctor… e ele explicou-lhe: - Não foi doctor que o Armstrong disse, foi daughter, como se tu fosses filha da música dele… COMO O DIRETOR DO ESCRETE AFASTOU ELZA DE LÁ... Os organizadores do Festival de Asiva promoveram Elza a «Madrinha da Seleção Brasileira» - e preparam sessão em que ela se fotografasse com todos os seus jogadores, usando faixa que dizia: - Madrinha mas Paulo Amaral, o diretor da equipa, não deixou, pediu, muito cortês desculpa: - … vocês sabem, as mulheres podem interferir no trabalho, quanto mais Elza… Apesar disso, Elza não deixou de falar, num breve enleio, com Garrincha – e ele repetiu-lhe: - Eu vou ganhar esta Copa para você, só para você… A PRIMEIRA VEZ EM QUE FOI EXPULSO E AS PERIPÉCIAS À VOLTA DISSO... No quartos de final, contra a Inglaterra, Garrincha marcou dois golos – e, nas meias-finais, nas meias-finais contra o Chile de Fernando Riera, o Fernando Riera que haveria de vir de lá para o Benfica substituir Béla Gutmann, mais dois marcou – e foi nesse desafio que sucedeu o que Ruy Castro revelou, poético: «Garrincha ser expulso de campo por agredir um adversário parecia tão absurdo quanto são Francisco de Assis disputar um concurso de tiro aos pombos ou Branca de Neve ser apedrejada por discriminar anões. Mas foi o que aconteceu no jogo Brasil-Chile. O agredido foi o violentíssimo zagueiro chileno Eladio Rojas. Rojas sabia que era candidato a mais um baile de Garrincha. Para conseguir para-lo, teria de afiar seu habitual repertório de pontapés, dedos nos olhos e cotoveladas. Pois Rojas fez tudo isso aos olhos complacentes e apertados do árbitro peruano Arturo Yamazaki, descendente de japoneses. Mas não adiantou. Garrincha aniquilou Rojas e o resto da defesa chilena. Fez o primeiro gol com um chute de pé esquerdo; o segundo, com outra cabeçada; deu o terceiro a Vavá e foi, mais do que todos, o responsável pela vitória brasileira por 4-2. Já era o maior homem da Copa. Aos 39 minutos do segundo tempo, com o placar definido, Garrincha levou outro pontapé de Rojas. Caiu, levantou-se e, mais por desfrute que vingança, acertou-lhe um tostão - um peteleco de joelho - na bunda. Rojas atirou-se ao chão como se a cordilheira dos Andes lhe tivesse desabado em cima. O bandeirinha, a um metro do lance, chamou o árbitro Yamazaki e denunciou Garrincha. Yamazaki o expulsou. Elza viu quando Garrincha, de cabeça baixa, caminhou debaixo de vaias para fora do gramado. Aymoré Moreira correu ao encontro de Garrincha, seguido por uma chusma de fotógrafos. Elza viu também quando Garrincha olhou na direção das cadeiras, onde achava que ela deveria estar, e fez-lhe um largo aceno. De repente, ele pareceu baquear e levou a mão à cabeça - uma pedra, atirada da arquibancada, acertara-o bem no cocuruto. Elza se desesperou: desceu correndo as escadas, querendo passar para dentro do campo de qualquer maneira. Um carabineiro foi contê-la. Elza o insultou e tentou abrir a grade. Dois outros carabineiros avançaram sobre ela com os cachorros. Edmundo Klinger apareceu e a levou embora dali…» O QUE SE FEZ PARA QUE GARRINCHA JOGASSE A FINAL DO MUNDIAL QUE FOI ELE... Sim, Garrincha foi expulso, não deixou de jogar a final – apesar de os jornais chilenos o tratarem como ele não era de verdade: brigão e arruaceiro. E por que não deixou de jogar a final assim o revelou Ruy Castro: «Para absolver Garrincha, céus e terras se movimentaram logo após a partida. Luís Murgel, representante da CBD (mas, como brasileiro, sem direito a voto), baseou sua defesa na ficha de Garrincha como um jogador que nunca fora expulso de campo. O jornalista Canor Simões Coelho telefonou de Santiago para seu amigo em Brasília, o primeiro-ministro Tancredo Neves, sugerindo-lhe que passasse um telegrama à comissão, "em nome do povo brasileiro", pedindo o perdão para Garrincha. O presidente do Peru, Manuel Prado y Ugarteche, por intermédio de seu embaixador no Chile, pediu a Yamazaki que não fizesse carga contra Garrincha na súmula. E, no caso de o bandeirinha ser chamado a depor, Mozart di Giorgio achou conveniente que ele, digamos assim, desaparecesse de Santiago. Não devia ser difícil. O bandeirinha era o uruguaio Esteban Marino, árbitro da Federação Paulista de Futebol nos anos 50. E havia um brasileiro apitando na Copa, João Etzel, o único juiz de futebol no Brasil que era chamado de ladrão por todos os times. Etzel teria feito rápido contato com Esteban Marino e recebido sinal verde. Falcão e Di Giorgio foram ao hotel de Marino aquela mesma noite e ofereceram-lhe uma passagem Santiago-Montevidéu - via Paris. Coincidência ou não, Marino embarcou na manhã seguinte. Mas talvez não tivesse sido necessária toda aquela movimentação. A FIFA não era o Santo Ofício, e sua comissão disciplinar julgava politicamente os casos. Sem Garrincha, o Brasil poderia perder para a Checoslováquia - e, em 1962, a quem interessava que um país socialista (logo, amador) fosse campeão do mundo? Mesmo assim a comissão disciplinar respirou aliviada quando, talvez por influência do embaixador peruano, Yamazaki escreveu na súmula que "não vira a infração" de Garrincha. E que seu auxiliar Esteban Marino "tivera de viajar", mas deixara-lhe um bilhete descrevendo a suposta agressão como um "revide típico de lance de jogo". O grande advogado de Garrincha na comissão foi o miliardário antilhano Mord Maduro, que já levara o Botafogo várias vezes à América Central. Com seus 150 quilos e voz feminina, Maduro demonstrou brilhantemente que, com aquela súmula e o depoimento do bandeirinha, o caso estava descaracterizado. Outros seguiram o seu voto e Garrincha foi absolvido por 5X2, recebendo apenas uma advertência simbólica.» LIVRE DO CASTIGO, NEM A FEBRE O TRAVOU... Garrincha ficou, pois, livre de castigo – mas mas poderia não ter jogado a final da Copa contra a Checoslováquia por outra razão: no dia do jogo acordou engripado. Os 39 graus de febre foram arrefecidos a poder de aspirinas – e o Brasil, ganhando por 3-1, tornou-se bicampeão do mundo, a Copa, fechou, simbólica num olé, com Garrincha de pé posto sobre a bola, esperando, parado, que algum checo fosse tentar tirar-lha, mas nenhum se atreveu – e essa foi a Copa em que um jornalista do El Mercúrio escreveu: - De que Planeta vens tu, Garrincha? NO DUCHE COM GARRINCHA, HOUVE QUEM SE INCOMODASSE OU NÃO... Quando o árbitro apitou para o fim, Elza Soares desmaiou na tribuna – depressa recuperou da emoção e correndo se precipitou para o balneário do Brasil, cantando: "Você pensa que cachaça incha/ Garrincha incha muito mais/ Quando ele põe o pé na bola/ Passa mais de dez pra trás." O ambiente era o que se imagina: por entre champanhe, uísque e cerveja, gente feliz com lágrimas aos gritos de "É bicampeão!" – e ao vê-la de vestido de cetim verde-amarelo aconteceu o que está revelado em Estrela Solitária: … Provocou um imediato silêncio. E, segundos depois, pôs todo mundo em polvorosa. Era uma mulher num ambiente de homens nus - algo impensável para 1962. O primeiro a saltar do chuveiro, em busca de uma toalha ou bandeira, foi Didi: "Tirem essa mulher daqui!" Alguns jogadores cobriram as partes. Outros procuraram se esconder. Menos Zagalo: "Esconder pra quê? O problema é dela!" Elza, indiferente à comoção que causara, atirou-se a Garrincha debaixo do chuveiro e carimbou-o de beijos. Seu vestido de cetim, ao molhar-se, colou-se mais ainda ao seu corpo. Ele lhe prometera a Copa e cumprira. A Copa era dela. O resto que fosse para o diabo. Se Elza não saísse logo para continuar a comemoração com a torcida, Garrincha, sem querer - mas querendo -, teria ficado inconveniente.»...
Grande História (Capítulo 1) Não, não era por acaso que ela estava assim, domingo, no Coliseu dos Recreios: imóvel sobre uma poltrona, de vestido negro a prolongar-se para a escada, a cabeleira roxa – e os sons a soltarem-se de a boca no toque que às vezes parecia divino. Elza Soares, a atração maior do MexeFes – estava assim, imóvel sobre a poltrona, porque problema na cervical que a obrigara a várias operações não a deixa cantar como antes cantara, frenética, em palco. Mantém, porém, aos 80 anos o mesmo encanto – o encanto que largou quando em Carne se ouviu: - … a carne mais barata do mercado é a carne negra… ou em outra canções de Mulher do Fim do Mundo, o disco que é uma sinfonia de gritos contra a miséria, o racismo, a violência (& outras coisas mais), mas que é também viagem por corpos e prazeres por entre fogo e lava a escorrer – e é também o disco que faz com que Elza Soares não seja só samba, também é funk, também é rock («mestiço e inventivo») –e sendo tudo isso é uma mulher que «não tem tempo nem pertence a um tempo, está acima dele» como alguém já notou. E, o que aqui se faz – é mostrar como essa mulher, que é um ícone de resistência (e excentricidade…) chegou onde chegou (e ainda agora, com Mulher de Fim do Mundo, ganhou Grammy para o Melhor Álbum de MPB, fintando dramas e tragédias, negaças e destinos, tendo, anos a fio, a vida cruzada na vida de Garrincha, uma vida ainda mais dramática que a sua (mas no caso sobretudo por culpa própria), a vida que também se conta por aqui (e vai de arrepio em arrepio até à sua morte, à morte de um anjo, o Anjo das Pernas Tortas, que, a pouco e pouco, se foi tornando demónio, um demónio dentro de si…) O Manuel dos Santos (aliás, o Garrincha) tinha nos seus antepassados, índios e escravos – e quando nasceu, a parteira logo lhe descobriu, espantadas, pernas tortas, como nunca antes vira: - A perna esquerda era arqueada para fora e a direita para dentro, paralelas, como se uma rajada de vento de desenho animado as tivesse vergado para o mesmo lado. Manuel não herdara essas pernas de Amaro, o pai, mas da mãe, Maria Carolina, embora as dela não fossem tão tortas quanto as dele… Isso escreveu Ruy Castro em Estrela Solitária, a sua biografia, talvez a mais apaixonante biografia de um desportista que alguém fez. O PAI ERROU NO DIA DO NASCIMENTO E NO NOME SÓ PÔS MANUEL... Amaro demorou mais de um mês a arranjar tempo para lhe ir fazer o registo de nascimento e ao chegar ao cartório, atrapalhou-se na data: - … nasceu a 18 de outubro… Não, não fora a 18 de outubro, fora a 28 de outubro, 28 de outubro de 1933 – e também foi Ruy Castro quem o revelou: «O escrivão, coronel Cornélio, sempre oito ou nove canas acima da humanidade, também não era muito minucioso quanto a nomes. Quando perguntou como o menino se chamava e Amaro disse Manuel, lavrou simplesmente Manuel. Não era um procedimento incomum nos cartórios brasileiros. E nem queria dizer que o menino não tivesse sobrenome. Ficava entendido que, sendo filho de Amaro Francisco dos Santos e Maria Carolina dos Santos, Manuel se chamava Manuel dos Santos. Ninguém era obrigado a saber que o Francisco fazia parte do nome da família. Muitos anos depois, quando Manuel já era Garrincha e trabalhava na fábrica, o chefe de sua seção, seu Boboco, acrescentou-lhe o Francisco numa ficha, para evitar confusões com os outros manuéis dos santos da América Fabril. Mas, em todos os documentos oficiais que tiraria no futuro, Garrincha seria apenas Manuel dos Santos.» GARRINCHA POR CAUSA DO PASSARINHO QUE NÃO SE ACOMODA A CATIVEIRO... Pau Grande é localidade à sombra da Serra dos Órgãos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro – cuja cachoeira vai desaguar à Baía de Guanabara – e ele cresceu a perder-se por lá e pelas suas matas, sempre descalço. Pequeno como uma garrincha, passarinho que canta bonito e não se acomoda em cativeiro, uma das irmãs, percebendo-lhe as semelhanças, por Garrincha passou a tratá-lo – e Garrincha ficou para sempre. Os pássaros eram, como as peladinhas, a sua maior paixão – uma paixão às vezes cruel pois o que ele adorava era caçá-los através das figas que fazia. Talvez fosse exagero, mas os amigos afiançavam que só ele era capaz de atirar a pedra da fisga a 400 à hora e que ninguém tinha mira tão certa como ele: - … por isso era terror para a passarada, matava tudo o moleque: garrinchas, rolinhas, sanhaços, caga-sebos, gaturamos, juritis e trinca-ferros. A PRIMEIRA BOLA COMPRADA NO «ARMARINHO» DO PORTUGUÊS... A primeira bola que chutou era de trapos, aliás nem era bem de trapos - era uma esburacada meia velha de um tio, recheada de papel de embrulho e costurada no cano. Depois, também teve outra – que ele fez da bexiga de um cabrito, soprando para dentro dela e dando-lhe um nó na tripa. Pouco durou. Aos sete anos uma das irmãs mais velhas ofereceu-lhe uma bolinha vermelha de borracha que comprara no «armarinho» de António Barbeiro, o português que tinha loja de venda em Pau Grande – e foi com ela que se lhe percebeu, espantoso, o seu destino, com ela passava hora a fio a driblar árvores, a chutá-la contra muros e paredes. Tinha um problema apenas: - Na bola havia uma biqueira, que lhe causava dores na testa quando ele a cabeceava, talvez por isso a jogar de cabeça nunca fosse o que era a jogar com os pés… O CÃO MORDEU-LHE DEPOIS DA PELADINHA, O PAI MATOU-O... Quando não andava a brincar assim com a bola de borracha ou em por Pau Grande em peladas – andava, pelado, a nadar pelo rio, saltando de penhascos para a água (ou pelo mato à caça de passarada), sem nunca se ter aleijado, sem nunca ter voltado a casa das suas aventuras com um arranhão, até que sucedeu o que Ruy Castro também contou: «O único acidente de sua infância foi acontecer justamente no quintal de sua casa. E esta era a casa para a qual tinham se mudado, na rua dos Caçadores, quando Amaro se tornara guarda da fábrica de tecidos. Ao voltar para almoçar depois de uma pelada, Garrincha foi mordido por Leão, um dos cachorros de seu pai. Ninguém sabia o que dera em Leão. Até então não passava de um vira-lata especializado em dormir e coçar-se. Mas, naquele dia, ele se atirou ao menino e quase lhe abocanhou o pescoço. Enquanto tentavam tirá-lo de cima de Garrincha, o animal conseguiu acertar-lhe umas dentadas no braço. Amaro não conversou: pegou sua garrucha na gaveta, carregou-a e fuzilou Leão. No mesmo dia, a conselho de seu Walter, farmacêutico, Amaro trouxe Garrincha ao Rio para ser examinado e tomar uma injeção anti-rábica. Seu Walter recomendou também que cortassem a cabeça do cachorro para exame. Rosa veio junto no trem, trazendo a cabeça de Leão embrulhada num exemplar de A Noite. No posto médico da rua das Marrecas, constatou-se que nem Garrincha nem o cachorro tinham nada, mas seguro morreu de velho.» NA ESCOLA DA FÁBRICA, MAS POR POUCO TEMPO... Para a escola Garrincha só foi quando já tinha oito anos: - Era a Escola Santana, da própria fábrica, e as professoras de Garrincha no primeiro ano foram dona Olindina e dona Maria das Dores. Eram duas santas: tinham por dogma aprovar a classe inteira. Por mais que Garrincha matasse aula para caçar, pescar ou jogar pelada, elas o passaram para o segundo ano. Neste, em 1942, a coisa foi diferente. A nova professora era dona Santinha, em cujos rigores várias turmas de meninos pau-grandenses já tinham esbarrado e outras iriam continuar esbarrando. Com ela, só era aprovado quem respondesse à chamada e estudasse. Garrincha sofreu os rigores de dona Santinha, mas ficou lhe devendo o pouco que aprendeu a ler - o suficiente para ler gibis ou os letreiros dos filmes, se não passassem muito depressa. O mesmo quanto aos garranchos com que, pelo resto da vida, iria assinar seu nome. Mas seu domínio do bê-á-bá não foi suficiente para promovê-lo ao terceiro ano primário. Levou bomba e decidiu parar por ali – para desgosto de Amaro que, entre muxoxos, tinha uma frase para definir o futuro de seu filho: "Tabacudo não vai pra frente." O CAVALO FICAVA À FOME, AS SOVAS A CINTO E PAU NÃO O EMENDAVAM... Desistindo da escola, o pai deu-lhe uma missão: ir, todos os dias, ao pasto, cortar capim para alimentar o cavalo que ele tinha. Garrincha saía de casa para a cumprir, mas, na maior parte das vezes, o cavalo ficava à fome no resguardo: - A punição eram sovas de cinto ou de vara, todas sem efeito. De corpo moído, Garrincha foi oferecer-se a uma doceira de Pau Grande – para lhe vender as cocadas à porta da fábrica: - Ao fim do expediente, o número de cocadas ausentes não batia com o dinheiro em caixa - Garrincha as comia por conta de sua participação nas vendas e ficava sempre devendo… PARA JOGAR EQUIPA DA FÁBRICA, VARREDOR DA FÁBRICA... Razão porque, achando que ele não levava jeito para negócios, dona Glorinha o despachou. Garrincha tinha, porém, cada vez mais refinado o jeito para outra coisa – e aos 14 anos já não havia em Pau Grande quem não tivesse ouvido falar da magia que tinha nos pés. Na América Têxtil, a fábrica onde o pai trabalhava, havia uma equipa de futebol – e foi para Garrincha ir jogar para lá que lhe ofereceram emprego como varredor da secção de algodão – e logo se viu: vivia faltando às obrigações, várias vezes o apanharam dormindo entre as gigantes caixas de algodão. Apesar disso, não o despediram, Ruy Castro conta porquê: «Porque um dos chefes de seção, seu Boboco, também conhecido como seu Franquelino - na verdade, Franklyn Leocornyl -, era o presidente do S. C. Pau Grande, de cujo time juvenil Garrincha, em 1947, já era uma promessa. Ele o protegia com sublime descaro. Seu Boboco fora um grande jogador do Pau Grande e, como torcedor, estava habituado a ir ao Rio assistir aos cobras: Zizinho, do Flamengo, Heleno, do Botafogo, Ademir, então do Fluminense. Mas Garrincha era outra coisa. Como chefe na fábrica, seu Boboco faria vista grossa a qualquer deslize do garoto, desde que este jogasse no seu time. Mas os chefes de seu Boboco precisavam exercer a sua autoridade e, em 1948, quando já trabalhava na fiação, Garrincha foi demitido. A fábrica não podia comportar um empregado que desse tão péssimo exemplo - e Garrincha era candidato ao título de pior operário que já passara pela América Fabril. Amaro quase morreu de vergonha e, como se lavasse as mãos quanto ao futuro de seu filho, mandou-o arrumar a trouxa e botou-o também para fora de casa...» EXPULSO DE CASA, DORMIA NO CORETO DA IGREJA, COMIDA LEVA-LHE UMA MENINA... De dia se não caçava ou não pescava, aventureiro, jogava pelada, impressionante - e, expulso de casa, Garrincha arranjou, sorrateiro, forma de dormir no coreto da igreja – e só não passou fome porque menina que o conhecera na escola ia, clandestinamente, levar-lhe todas as noites sanduíche que fazia com o que sobrava do jantar. Era Nair, com Nair haveria de casar-se. Ao fim de duas semanas, Boboco convenceu o patrão a readmiti-lo na fábrica, com argumento incontrolável: - … sem ser empregado o moleque não pode ser jogador do nosso time e sem Garrincha o time é nada… O patrão concordou e chamou-o de novo para a América Têxtil. Vendo-o voltar, o pai reabriu-lhe a porta de casa. E Garrincha voltou ao seu destino... ...
A correr no Tempo Na primeira vez em que o Real e o Sporting jogaram para as competições europeias houve bruxas a descerem, sorrateiras, ao Bernabéu - para brincarem com o destino a bailarem de um lado para o outro na barra da baliza de Buyo. Sim, é isso que aqui se conta – muito mais se contando. E nesse muito mais que se conta há Jorge Valdano a ver no Figo o que o Figo já era (e haveria de ser mais ainda…) - Tem o corpo de um atleta, a cabeça de um funcionário e os pés de um bailarino... podendo descobrir-se também no que deu esse Figo que se descobriu em Madrid depois de Figo ter estado quase a ser agredido por adeptos do Sporting em Alvalade. Não, não é só – também se fala do que aconteceu na segunda mão dessa primeira eliminatória da Taça UEFA de 1994/95: da bola a beijar o poste; dos dois penalties por marcar (um deles feito por Quique Flores, esse mesmo…); do Lemajic a queixar-se de que o golo fatal fora obra do vento e a dizer o que parecia que era preciso fazer-se: - … mandar benzer Alvalade! e do Sousa Cintra (que semanas antes fora ameàçado de facada no Cairo...) a pregar contra os deuses do futebol (e se calhar não só…): - … o Sporting eliminado é a maior injustiça que eu já vi no futebol. E sim, talvez tenha sido injustiça assim – é o que se calhar achará, também, quando chegar à última linha desta viagem pela história, por uma história tão cheia de estórias, que levou a que, por exemplo, Carlos Xavier tenha dito que por causa do que Carlos Queirós fez ao Real os jogadores do Sporting conheciam melhor o Real do que as suas mulheres… O primeiro jogo da Taça dos Campeões Europeus fez-se em Portugal – no Estádio Nacional, a 4 de setembro de 1955. O Sporting e o Partizan de Belgrado empataram 3-3 - o primeiro golo da história da principal competição europeia coube a João Martins. Quase 40 anos se passaram – e, nesse período, nem por uma vez o Real Madrid se cruzou no caminho do Sporting, fosse para a Taça dos Campeões Europeus, fosse para qualquer outra competição da UEFA. O sorteio desfez-se enfim desse seu capricho – e, para a primeira eliminatória da Taça UEFA de 1994/95, ditou: Real-Madrid-Sporting. Presidente do Sporting era, então, Sousa Cintra – e logo se lhe soltou o comentário: - O Real Madrid era o pior adversário que nos poderia surgir nesta altura. Queria o Real, mas na final… ANTES DO SORTEIO, A FACA APONTADA A CINTRA NO CAIRO... Em vésperas de sorteio, Sousa Cintra vivera aventura rocambolesca para contratar Emmanuel Amunike – o nigeriano que acabara de ser eleito melhor Jogador de África, batendo George Weah e Rashini Yekini. Estava no Zamalek, vinha de dois golos que deram à Nigéria a Taça Africana das Nações – e, depois de ter vendido Paulo Sousa à Juventus por 600 mil contos (200 mil recebeu ele só pela assinatura de contrato, ficando a ganhar 140 mil por ano em salários…), Cintra correu ao Cairo para contratar Amunike. Conseguira que lhe arranjassem um visto de entrada em cima da hora, à sua espera tinha Abdel-Ghany, o egípcio que jogara no Beira-Mar. Abdel-Ghany levou-o, então, para a sede do Zamalek – onde o esperava a direção do clube, toda ela sentada, numa mesa redonda. Uma parte queria vendê-lo ao Sporting, outra queria vendê-lo ao Duisburgo. Conta-se que, durante a reunião, houve quem, em defesa dos seus desejos puxasse até de uma… faca – e o que logo se soube foi que Cintra conseguira sair de lá com acordo fechado e assinado. No hotel Amunike tidou fotografia com a camisola do Sporting – e horas depois, no aeroporto, apareceu-lhe gente do Duisburgo a tentar desviá-lo para um voo com destino à Alemanha. Voltaram a ver-se cenas surreais, o próprio Amunike o contou: - Depois de na reunião para a transferência um dos dirigentes do Zamalek ter apontado uma faca ao senhor Cintra, porque parece que já tinha um pré-acordo com os alemães, no aeroporto até me tentaram raptar! Não imaginam a confusão. As pessoas do Sporting perceberam o que estava a acontecer e só me lembro de ver alemães a puxar-me por um braço e portugueses por outro… Sim, Amunike foi para Lisboa que veio – e o que Sousa Cintra conseguira, conseguira-o através de promessa de pagamento de 900 mil dólares ao Zamalek. A FIFA acabaria, porém, por subir a verba para um milhão – e por causa do impasse que se vivia na luta entre o Sporting e o Duisburgo, uma certeza havia: Amunike não poderia jogar contra o Real Madrid… A FÉ NO SPORTING E O TREINADOR QUE FEZ 3 GOLOS AO SPORTING... Carlos Queirós substituíra Bobby Robson como treinador, José Alberto Costa era o seu adjunto e ao saber do que sucedera em Genebra não deixou de puxar o fio à esperança: - O Real Madrid não era visto como o adversário ideal, é óbvio – mas sabemos que é possível seguir em frente, também nós somos ambiciosos. Só temos de acreditar e assumir as nossas qualidades e responsabilidades. Se assim for, teremos grandes hipóteses. É uma eliminatória de grande significado para os dois clubes, mas especialmente para o Sporting, pois se eliminarmos este poderoso Real Madrid, poderemos lançar-nos definitivamente para uma grande carreira europeia. A treinador do Real acabara de chegar do Tenerife, Jorge Valdano – e a Rogério Azevedo, enviado especial de A Bola a Madrid, revelou a boa memória que do Sporting tinha: - Há exatamente 20 anos cheguei a Espanha para jogar no Alavés, equipa pequena do País Basco. No dia seguinte, tive de jogar um amistoso contra o… Sporting. Vencemos por 3-0 e eu marquei os três golos. Pensavam que eu seria o salvador da pátria, mas, no resto da temporada, em mais de 25 jogos, apenas marquei mais três golos… A HEPATITE QUE ACABOU COM O JOGADOR QUE VALDANO FORA... O resto era o que se sabia: da II divisão no Alavés saltou, em 1979, para a I no Saragoça – e cinco anos depois o Real Madrid foi lá buscá-lo. Ganhou dois campeonatos e duas Taças UEFA, em 1986 esteve com Maradona na conquista do Mundial do México – e oito meses depois, atacado por uma hepatite B teve de deixar o futebol, tinha 31 anos. Tornou-se jornalista e escritor: - Como jornalista, o meu discurso era romântico. Exaltava o futebol de ataque, os golos, a beleza, a emoção. Certo dia percebi que, tendo uma vida agradável e sem problemas, começava a necessitar de novos objetivos e o estímulo surgiu quando, um dia, ironicamente, me disseram que como jornalista o meu discurso podia ser romântico, mas que, se apostasse na carreira de treinador, teria de deixar a poesia de lado – e quis ganhar a aposta de poder ser um treinador romântico e ganhar… Em 1992 o Tenerife desafiou-o para seu treinador - e em três anos no Tenerife roubou por duas vezes o título ao Real Madrid na última jornada, apurou o clube para a Taça UEFA, esses três anos puseram a Espanha a tratá-lo por «mago», era assim que continuavam a tratá-lo em vésperas de jogo com o Sporting: - Acho que é uma imagem excessiva, essa de me acharam um mago. Tenho um pouco de psicólogo mas não atuo de forma científica. O importante é ter uma relação apaixonada pelo futebol, é o que eu tenho, é o que eu quero que os meus jogadores tenham, sempre… CANTONA? ELES QUERIAM O PRADO E NÃO SÓ... Para Madrid, Valdano levou Redondo, Laudrup, Quique Flores, Amavisca e Sandro: - Todos eles têm um ponto em comum: são futebolistas de grande fantasia e enorme técnica individual… e ao assinar contrato com o Real, deixou claro que não contava com Zamorano, que queria Ruben Sosa. Rámon Mendonza, o seu presidente, sugeriu-lhe Corentin Martins e Davor Suker, Valdano insistiu em Sosa. O Inter considerou-o inegociável, apontou-se a agulha a Eric Cantona: - o Manchester United pediu por ele o museu do Prado com Calvo Serraler dentro… e o nº 9 de Jorge Valdano acabou por ser mesmo quem ele não queria que fosse, o Ivan Zamorano. CARLOS XAVIER E A PROMESSA DE GOLOS... De pronto o afiançou: satisfeito com o sorteio ficou Carlos Xavier – e logo houve quem achasse desconcertante o modo como o encarou: - Sim, estou contente com o Real, muito contente. É uma equipa poderosa, mas perfeitamente ao nosso alcance. Acreditem: é errado atribuir-se favoritismo ao Real. Não é preciso muita coisa para conseguir contrariá-los. Temos de ser eficazes nas ações de contra-ataque. Assim, faremos pelo menos um ou dois golos em Madrid… Por essa altura ainda não se sabia quem seria o guarda-redes do Real, se Buyo se Canizares: - Estou convencido de que serei eu o titular, o Buyo acreditará, certamente, que será ele. O que Valdano decidir, estará bem decidido… O que já se sabia era a reação de Canizares ao modo como Carlos Xavier pusera o sonho verde em órbita: - Ele afirmou que o Sporting pode marcar dois golos em Madrid, mas garanto: não será com essa facilidade toda que ele diz. O Sporting tem jogadores para marcar em Madrid, mas o Real também tem jogadores para marcarem em Lisboa e, sinceramente, acho que o Xavier está a ser demasiado otimista… REDONDO E O BANHO DE SANGUE EM BILBAU... Outra coisa dissera Carlos Xavier: - … não se esqueçam de que o Real não vai poder contar com o Fernando Redondo e isso é vantajoso para o Sporting… A razão por que Redondo não podia jogar – era estar de muletas e o que lhe acontecera para estar de muletas contara-se assim na revista do Real Madrid: «Procura-se um porquê, um motivo, uma razão para que um ato de violência tenha mandado Fernando Redondo durante dois meses para o estaleiro. O mais surrealista é, talvez, que um encontro amigável tenha terminado numa autêntica batalha campal, numa emboscada aplaudida por um público que pedia sangue. A violência foi, como sempre, o sinal mais claro da ausência de razão, de uma razão. A falta de autocontrolo de Ricardo Mendiguren fê-lo entrar na história negra dos que, através de um golpe traiçoeiro, lograram parar um talento do futebol. O caráter amigável do jogo deixará esse ato impune. Porém, nas memórias futebolísticas de qualquer adepto, Ricardo Mendiguren terá de carregar, eternamente, a cruz do antidesportivismo.» O APARATOSO APARELHO E OS 180 MINUTOS TERRÍVEIS... Fora no Atlético de Bilbau-Real, disputado 15 dias antes, que o «golpe traiçoeiro» acontecera – e em vésperas de defrontar o Sporting, Rogério Azevedo, em reportagem para A BOLA, encontrou Redondo à saída do centro médico da «Ciudad Deportiva» do Real com um aparatoso aparelho ortopédico no joelho, a arrastar-se de muletas para o seu automóvel. Depois de contar que um revolucionário tratamento de estímulos elétricos estava a ser utilizado para que a perna esquerda do Robocop não perdesse massa muscular, apanhou-lhe o vaticínio: - Vão ser 180 minutos terríveis. Qualquer das duas equipas tem capacidade para prosseguir em prova, só é pena que, para uma delas, tudo tenha de terminar tão cedo. Não, não quero destacar-lhe nenhum futebolista do Sporting, o Sporting tem muitos bons jogadores e seria ingrato estar a falar de uns, esquecendo outros… À entrada do coche que o esperava, Redondo largou, porém, ainda: - … Adorava reencontrar-me com Balakov e tentar desforrar-me da derrota que a Argentina sofreu com a Bulgária no Mundial. Mas, infelizmente, não vou poder jogar… BALAKOV AMUADO? SE CALHAR SIM (MAS LESIONADO TAMBÉM...) Balakov também não pôde jogar em Madrid – e, por essa altura, tinha o nome na berlinda (e não pelos melhores motivos…) No regresso do Mundial, do brilharete da Bulgária, no Mundial, não o escondera: - … quero ir embora! Mas pior: admitira que uma coisa era jogar numa seleção recheada de craques, outra era ter o papel que tinha numa equipa mais modesta, o que deixara Carlos Queirós com a mostarda no nariz – e Cintra a remoer-se: - O Balakov que veio do Mundial não é o mesmo Balakov que foi para o Mundial… Também se sussurrava que a sua azia se devia a ciúmes: - … ciúmes por ver Figo a tornar-se cada vez mais estrela e pelo carinho com que Amunike era tratado pelo treinador e pelo presidente. (Sim, no final da época sim, já não era Sousa Cintra o presidente, era Santana Lopes – o Sporting deixou-o sair, Balakov foi para o Estugarda.) Não, não foi por castigo (ou assim…) que Balakov não jogou em Madrid, foi por estar ainda a recuperar de lesão – e no seu lugar jogou Carlos Xavier – o Carlos Xavier que ainda em Lisboa lançara em brado: - O Santiago Bernabéu é um daqueles palcos que qualquer jogador gosta de pisar. Se assusta? Não, que ideia! Nenhum campo nos assusta. Em Chamartín o apoio do público entusiasma… até o adversário. E é por isso que eu digo que jogar num estádio assim nunca nos daria susto, dá prazer… O NOVO LOOK DO BERNABÉU E O NACIONALISMO DE PEDRITO DE PORTUGAL... O Real Madrid-Sporting foi o primeiro jogo europeu do Santiago Bernabéu com diferente «look» - esse novo «look» fez-se, além de outras coisas mais, de 9000 metros quadrados de uma relva diferente, a anterior fora-se degradando: - por causa das geadas e da falta de sol… e de bancos novo, totalmente transparentes. 55 mil espetadores deixaram 70 milhões de pesetas nas bilheteiras, Portugal não pôde ver o jogo porque a TVE propusera à RTP «negócio impossível» - e no balneário do Sporting apareceu uma estrela: Pedrito de Portugal, o matador de touros que tinha Espanha a seus pés – e, por essa altura, estava a recuperar de uma colhida que lhe poderia ter sido fatal. Deixou-se fotografar ao lado de Carlos Queirós e afirmou: - Vim ao estádio apoiar o Sporting, não tanto como sportinguista, mas mais como nacionalista. O REMATE FROUXO E A BOLA A FUGIR DE LEMAJIC (E DEPOIS FIGO A ETERNIZAR-SE...) Estava o jogo nos 12 minutos, Sá Pinto perdeu a bola para Martin Vasquéz, o espanhol chutou-a rasteira (e frouxa…), Lemajic deixou-a fugir das mãos – e Vítor Serpa escreveu na sua crónica em A Bola: «Quando o estádio explodiu de entusiasmo pelo golo de Martin Vasquéz temeu-se o pior. Aquele Sporting, depois de consentir um golo daquela maneira, dificilmente se poderia livrar de uma goleada. Poderia mesmo acontecer que a equipa se afundasse por completo nos seus medos e nos seus fantasmas. Em vez disso, o Sporting como que parecia estar à espera de sofrer um golo para acordar. Uma chapada de água fria a revigorar os jogadores e a transformá-los no jogo. Era como se o Sporting tivesse cumprido a sua obrigação de préstimo de vassalagem ao poderoso e histórico Real Madrid. A partir daí estavam pagos, era arregaçar as mangas e jogar de igual para igual. O Sporting subiu no terreno, descobriu-se que, afinal, havia gente a mais nas margens recuadas da equipa e que a defesa (grandes exibições de Nélson, Marco Aurélio, Valckx e Vujacic) bastava e sobejava para controlar o ataque do Madrid. Descobriu-se ainda que o meio-campo sportinguista era capaz de ombrear com o temível meio-campo do Real. Peixe podia perfeitamente controlar Laudrup. Oceano podia despontar para um futebol mais exuberante, mesmo não sendo tecnicamente brilhante; Sá Pinto poderia, finalmente, libertar-se de complexos; acima de tudo e de todos, Figo podia ganhar a carta de alforria e tornar-se na grande figura do jogo, num jogador de incomparável talento que chegou a transbordar classe em Chamartín, chamando a atenção de toda a gente para o seu fantástico talento, infelizmente algo desaproveitado pela menor capacidade concretizadora da equipa.»...

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