SÁBADO, 01-10-2016, ANO 17, N.º 6090
SPORTING
Fundação:1906 | Presidente SAD:Bruno de Carvalho
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Estádio: Estádio José Alvalade
SAD leonina aprova por unanimidade contas do exercício até 30 de junho
A SAD do Sporting aprovou, esta sexta-feira, em assembleia-geral o Relatório e Contas relativo ao exercício que terminou em 30 de junho de 2016 com 627.702 votos a favor, sem votos contra e abstenções, segundo foi revelado em comunicado.
Bas Dost canta a nova versão de «Thunderstruck» (vídeo)
Sporting Tal como os adeptos leoninos têm vindo a cantar durante os jogos, o avançado holandês, que tem estado em destaque pelos seus golos, decidiu cantar a nova versão de «Thunderstruck», que é um conhecido
Bas Dost
30-09-2016 - 17:09
Jorge Jesus desfaz-se em elogios a Bas Dost
Sporting Bas Dost tem respondido da melhor forma à confiança depositada em si por Jorge Jesus, tendo já apontado cinco golos em cinco jogos de leão ao peito, e o treinador leonino não poupa elogios ao avançado
«Guimarães? Dentro do Castelo não é fácil fazer um assalto» - Jorge Jesus
Sporting Jorge Jesus admitiu que a deslocação a Guimarães no sábado não será fácil, mas garante que os leões estão conscientes para as dificuldades que poderão encontrar. «Quando o Sporting se desloca a Gui
«Gelson vai acrescentar magia à Seleção» - Jorge Jesus
Sporting O tema mais abordado na conferência de imprensa de Jorge Jesus de antevisão à partida com o V. Guimarães foi a chamada de Gelson Martins à Seleção Nacional. O treinador leonino desfez-se em elogios ao
«Gostaria de regressar a Alvalade» - Rojo
Sporting Transferido para o Manchester United no verão de 2014, Marcos Rojo continua a acompanhar, sempre que possível, todas as novidades relacionadas com o Sporting. «Sempre que posso acompanho as novidad
Marcos Rojo (Foto AP)
30-09-2016 - 14:51
«Cabo Verde nunca foi opção», diz pai de Gelson
Sporting Carlos Alberto Martins esclareceu que a seleção de Cabo Verde, país que há 21 anos viu nascer o extremo do Sporting, nunca foi opção para o jogador agora chamado por Fernando Santos para representar a
«Markovic pode estar psicologicamente afetado» - Drulovic
Sporting Drulovic, antigo treinador de Lazar Markovic nas seleções jovens da Sérvia, acredita que o compatriota vai justificar a aposta do Sporting no seu concurso junto do Liverpool. «O Markovic sempre foi
Leões emitem comunicado sobre Gelson Martins
Sporting Em comunicado, o Sporting destacou o relacionamento de «elevada consideração e respeito» entre o clube e Gelson Martins, enalteceu a «conduta exemplar» do jogador e esclareceu que o `timing´ de eventu
Leões repudiam «castigo ridículo» de Jorge Jesus
Sporting Em comunicado divulgado nas redes sociais, intitulado «O castigo de Jorge Jesus ou o castigo de Portugal?», o Sporting manifesta repúdio com o castigo aplicado pela UEFA a Jorge Jesus, na sequência da
Gelson agradado com proposta de renovação
Sporting Gelson Martins aufere 120 mil euros brutos por temporada no Sporting e prepara-se para multiplicar por mais de cinco vezes esse valor para os €700 mil. Noticia A BOLA esta sexta-feira que os valore
Como Messi ou Ronaldo, o desertor da tragédia...
Grande História Se no futebol há Ronaldo ou Messi, no basebol começava a haver José Fernández. Aos 15 anos tentou fugir de Cuba, apanharam-no a 10 milhas de Miami – e atiraram-no para uma prisão a abarrotar de criminosos. Mal de lá saiu, procurou desertar outra vez – e antes de tocar terra em Cancún teve de se atirar ao mar revolto e infestado de tubarões para salvar uma mulher, ao resgatá-lo percebeu que era, afinal, a mãe que caíra na balsa e escapara aos tiros da guarda costeira cubana. Quando parecia estar a viver no paraíso, morreu… José Fernández nasceu a 31 de julho de 1992 em Santa Clara – cidade marcante na revolução cubana por ter sido por lá que batalhão liderado por Che Guevara ganhou a batalha que abriu o caminho do fim de Fulgêncio Batista, o ditador que em 1958 governava a ilha. Aos cinco anos, encantou-se pelo basebol: – Nas traseiras da minha casa descobri um ramo de árvore que podia ser o bastão que eu não tinha – e foi assim que tudo começou: com o ramo ressequido da árvore e pedras em vez de bolas, que também não tinha eu, nem tinham os meus amigos. Era tão impressionante o jeito que mostrava que um vizinho o levou para o clube de Santa Clara - era o tio de Aledmys Díaz, que com tal como ele, haveria de espalhar fulgor pela MLB. De lá saltou para a EIDE, a Escuela de Iniciación Deportiva Escolar, a escola para onde vai, em regime de internato, quem mostra talento no desporto. ENTEADO DE MÉDICO, A VENDER TOMATES, ALHOS, CEBOLAS... O pai abandonara a mãe logo após o seu nascimento – e, ainda com o filho de colo, Maritza acabou por ir viver com Ramón Jiménez. Era médico, mas ser médico em Cuba não significava vida fácil – e, por isso, José Fernández contou: - Cheguei a vender tomates, alhos e cebolas no intervalo da escola. O dinheiro que arranjava assim dava-o todo à minha mãe para que ela pudesse ter comida à mesa para nós e às vezes não tinha, não foi muitas vezes, algumas foi. Jiménez recebeu um convite da Venezuela para um congresso de medicina – e querendo levar Maritza e José com ele, o governo de Fidel Castro proibiu a saída de Santa Clara aos três: - Até esse momento não tinha nenhuma razão para querer deixar Cuba, nunca sequer pensara nisso. Mas, a recusa de viagem mudou tudo, deu-me ideia de que, afinal, estava a viver numa prisão, a decisão que tomaram tivera uma razão apenas: o medo que eu desertasse e levasse Jose comigo, Jose já era, então, uma esperança do basebol na ilha. A partir desse instante, Ramon Jimenez não parou mais de imaginar planos para escapar para Miami. 14 vezes o tentou, 13 falhou – e, em 2005, conseguiu, enfim, colocar pé na Florida, ir viver para Tampa. DA PRISÃO À SALVAÇÃO DA MÃE... Maritza e José tinham ficado por Santa Clara – e Ramón não enquanto eles não se lhes juntassem nos Estados Unidos. As duas primeiras tentativas de fuga da ilha falharam, numa delas, depois de sete dias perdidos em alto mar a 10 milhas apenas de Miami, a polícia cubana apanhou os balseros e mandou-os de imediato para a prisão, José passou quase um ano entre grades, partilhando cela com assassinos: - … criminosos dos mais endurecidos que se possa imaginar! Por estar preso, não pude sequer ir à escola, estive um ano sem lá ir. Mas tudo o que passei nesse ano ajudou-me a ser o jogador que sou… Mal de saiu do cárcere, envolveu-se em nova tentativa de fuga a Cuba. Estava-se já em 2007. Jose Fernández tinha, então, 16 anos – e na fuga que deu em sucesso saiu herói da luta contra as águas do mar, de um mar encapelado e infestado de tubarões: - Tínhamos acabado de escapar às balas da guarda costeira cubana, era noite cerrada, as ondas estavam furiosas. Como sabiam que eu era ótimo nadador, puseram-me de olho na água e, ao aperceber-me de que alguém caíra da balsa onde estávamos todos amontoados, saltei ao mar para ir buscar a mulher que gritava. Só ao chegar à sua beira é que percebi que era a minha mãe. Lutámos os dois muito contra a força bruta das águas, mas acabámos por fugir à morte, assim… 1000 DÓLARES, O QUE CUSTOU DESERTAR... Horas depois, o bote com José e Maritza tocou terra do México, à beira de Cancún. A dezena de desertores, que tinham pago, cada um, 1000 dólares, viveram escondidos num casebre do contrabandista que os levara durante mais de uma semana, só depois os levaram, numa rocambolesca viagem de autocarro, para o Texas. Josá e Martiza juntaram-se, assim, a Ramón em Tampa – e em Tampa vivia então outro ilustre desertor cubano: Orlando Chinea, que fora treinador dos melhores lançadores da ilha, andara, também, em aventura pelo basebol no Japão. Ao ouvir falar de um prodígio que acabara de chegar de Cuba, correu a vê-lo – e logo se encantou com ele: - Percebi que poderia estar ali não apenas o melhor lançador cubano de todos os tempos, mas o melhor lançador da história do basebol. Não só pela sua força física, mas sobretudo pela sua força mental… JÁ NÃO TINHA FOME, A FOME DE CUBA... Chinea passou a treiná-lo todos os dias – depois das aulas na Braulio Alonzo High School: - Nesses primeiros tempos, o inglês era o meu grande problema. No liceu, nas primeiras vezes, não sabia sequer onde colocar o meu nome nos exames que tinha de fazer, os colegas nem falar comigo queriam – mas quando me viram jogar basebol tudo mudou, já todos queriam falar comigo, passaram até a falar-me em espanhol. E não foi só: as raparigas desataram a aparecer cada vez mais à minha beira. Graças, sobretudo, aos seus lançamentos os Alonzo Ravens conquistaram dois títulos da Florida na Classe 6 A e Landy Faedo, o treinador da equipa do liceu, revelou-o: - A velocidade dos seus lançamentos aumentou de 80 para 90 milhas – e a razão era uma só. Em Tampa tinha comida, comida que não tinha em Cuba. Chegou ao peso certo, os seus pés deixaram de ir para todas as partes sempre que tinha de lançar a bola. O SIGNIFICADO DO 99 GRAVADO NO ESPELHO DO QUARTO... Por essa altura, já José Fernández gravara o número 99 no espelho do quarto da sua casa em Tampa – a razão revelou-a Rámon Jiménez, o padrasto: - Não, não era o seu número da sorte, não era o seu número favorito. Era a velocidade a que ele queria lançar a bola de basebol, a 99 milhas por hora. Por isso, ao levantar-se para ir para o liceu, olhava o espelho e o que via era isso: 99, o 99 que lhe lembrava o destino, ao lavar os dentes, ao pentear-se. José foi sempre assim, quando entra na luta por alguma coisa, nunca mais baixa a guarda. José Fernández chegou a 1,90 metros e de 98 quilos – e os Miami Marlins levaram-no, sem surpresa, do Draft 2011, dando-lhe de prémio de assinatura 2 milhões de dólares. Bastaram-lhe 27 jogos nas Ligas Menores para que a 7 de abril de 2013, os Marlins o lançassem na Grande Liga – e de pronto começou a bater recordes… Nessa época foi o rookie do ano, escolheram-no para o All-Star Game da MLB e na votação para o Cy Young Award o terceiro melhor pitcher da Major League foi ele. Abriu 2014 ainda em maior fulgor, mas lesão num ombro obrigou-o a 13 meses de paragem, tiveram, inclusivamente, de lhe refazer um ligamento numa complicada operação cirúrgica. Voltou – e voltou a bater vários recordes. A CAMINHO DOS 200 MILHÕES, A MORTE... Se não tinha ainda os lançamentos a 99 milhas por hora na ponta dos dedos, já os tinha, quase todos, a mais de 95 - qualquer coisa como 150 km/h. Começara a falar-se da hipótese de estar a negociar a renovação do seu contrato a troco de 200 milhões de dólares – e às 3 da madrugada do dia 25 de setembro de 2016, a guarda costeira dos Estados Unidos descobriu uma lancha de alta velocidade catamarã enfeixada num recanto rochoso de Miami Beach – e dois corpos a boiarem, mortos, nas águas, outro, cadáver também, preso ao casco. Um deles era o de Jose Fernández. A razão do acidente? A lancha ter-se despistado a alta velocidade devido ao embate numa rocha coberta pela água do mar… Cinco dias antes, José anunciara, eufórico, que Carla Mendoza, a namorada, estava grávida – e fora para as águas de Miami, as águas de Miami de onde tirara a mãe da morte certa, pescar. Era o seu hobby. Nas horas seguintes, por toda a América falou-se dele como se fosse o Messi ou o Cristiano Ronaldo dos lançadores de basebol – e, de lágrimas nos olhos, Orlando Chinea, afirmou: - Era um lançador de sangue frio como não havia outro, fantástico por ter o corpo que tinha e a cabeça que tinha. No primeiro dia em que o conheci, disse-me que quem é capaz de fugir de Cuba aos 15 anos num barco a abarrotar de gente, que quem não tem medo de ir ao mar salvar a mãe de morrer afogada ou na boca de um tubarão, não pode ter medo de nada dentro de um campo de basquetebol. E José não tinha. Não tinha medo de nada, não sofria qualquer tipo de pressão, não tinha qualquer pensamento negativo. Tinha futuro apenas, mas o mar que o trouxe, foi o mar que o levou… ...
Grande História Pernas decepadas, consequências iguais de acidentes diferentes. Impressionante foi, porém, como ambos, ambos italianos, deram a volta à vida – depois de a acharem perdida, num fogacho. É o que lhe contamos aqui na PARTE 2 das incríveis histórias de quem fez História no Rio 2016 (e não só…) – e nalguns casos sem sequer precisar de ganhar medalhas. Onde também se fala de como foi dramático o nascimento do filho de um ator que foi estrela em Star Wars – e do Engenhão levou medalha de ouro, emocionando o gémeo que no útero da mãe lhe sugara o sangue, o transformou em bebé-milagre… O Parque Olímpico do Rio 2016 desenhou-se por entre favela que nascera do abandono de um ícone do automobilismo: o autódromo de Jacarepaguá. Não, não foi com a Fórmula 1 que ele se fechou, foi com as corridas da Fórmula Indy – e foi lá, em Jacarepaguá, numa corrida da Fórmula Indy em 1996 que Alex Zanardi fez a primeira pole position da sua carreira. O modo como, em 1991, estava a agitar a Fórmula 3000 levara a que a Jordan o fosse buscar para os três últimos grandes prémios da época na Fórmula 1. De lá saltou para a Minardi e a Lotus – e em 1993 saiu do GP do Brasil em sexto lugar. Dois anos depois, desafiaram-no para os Estados Unidos – e logo se começou a notar o seu fulgor com várias vitórias na CART Championship. PENSAVA QUE SE IA MATAR, NÂO SE MATOU... Pela Ganassi ganhou o campeonato de 1997 e 1998, a Williams chamou-o de novo à Fórmula 1 – mas, achando que o seu paraíso estava na Indy, em 2001 voltou à CART Championship. Não, não estava – o que estava era o inferno a abrir-se-lhe, traiçoeiro e cruel no GP de Lausitz, na Alemanha. Lutava por mais uma vitória, a 13 voltas do fim teve de fazer um pit stop, na saída, perdeu o controlo do carro, do embate do muro resvalou para o centro da pista, foi atingido pelo canadiano Alex Tagliani a mais de 300 à hora: - Antes do acidente, perguntava-me o que faria se algo assim acontecesse, se tivesse de ficar, como fiquei, sem as duas pernas. A resposta que me dava era que ia matar-me. Mas, quando aconteceu, isso não me veio à cabeça. Estava muito feliz de estar vivo. Sabia que o pior tinha passado. Fui reanimado sete vezes, fiquei sem sangue. De acordo com a ciência, eu não tinha nenhuma chance de sobreviver – e sobrevivi. A NOVA VIDA NA MARATONA DE NOVA IORQUE… Não, não se limitou a sobreviver – continuou a viver a desafiar o destino, vários destinos: - Um ano depois, voltei a Lausitz para fazer as 13 voltas que faltavam para completar a corrida – e fil-las. De seguida, lancei-me a provas do Campeonato Europeu de Turismo e do WTCC, num carro adaptado através de desenho que eu próprio propus. Como piloto BMW, no WTCC, o Campeonato Mundial de Turismo, obteve, entre 2005 e 2009, quatro vitórias e 10 lugares de pódio – e nesse entretanto já se dividira por outra aventura: - Em 2007 descobri o prazer do paraciclismo – ao experimentar um daquele triciclos que não se pedalam com os pés, movimentam-se com as mãos e a minha ideia foi logo ir assim fazer a Maratona de Nova Iorque. Bastaram-lhe quatro meses de treinos – para sair de Nova Iorque em quarto lugar. Três anos depois, o campeão da Maratona já foi ele. Atreveu-se aos Jogos Paralímpicos – e em Londres ganhou a medalha de ouro no contrarrelógio e na prova de estrada – e a medalha de prata na prova por equipas. DA POLE POSITION EM JACAREPAGUÁ À MEDALHA QUE REPETIU A HISTÓRIA… No circuito da praia do Pontal, Alex Zanardi lançou-se à sua primeira competição no Rio 2016: o contrarrelógio. Ganhou-o, arrasador: - OK, o paraciclismo não foi no Parque Olímpico, mas não foi longe do Parque Olímpico, foi à sua beira – e, ao saber que o Parque Olímpico iria ser construído no circuito onde corríamos na Fórmula Indy, onde eu conquistei a minha primeira pole position, pensei: «Sempre fui tão rápido lá, que passei a amar aquele lugar – e por isso tenho de lá voltar. É verdade que, tendo estado sempre perto, não conseguiu vencer em Jacarepaguá como automobilista – e então pensei: vai procurar que aconteça o que aconteceu em Londres. Nos Jogos de 2008, o paraciclismo foi em Brands Hatch, onde eu também não ganhara como automobilista, mas levara de lá as minhas primeiras medalhas paralímpicas. Para alguém tão romântico como eu foi muito especial que a história se repetisse – e por isso senti no pódio emoção que nunca sentira antes, depois de uma vitória. SEM SABER SE VAI CONTINUAR A FAZER MILAGRES… No dia seguinte, no dia em que fazia 15 anos que Zanardi passara pelo drama de Lausitz, venceu de forma ainda mais arrasadora a prova de estrada – e foi, sobretudo, por ele que a Itália também venceu a prova de estafetas. Com as três medalhas de ouro no Rio, Zanardi tornou-se o atleta paralímpico mais medalhado da história em apenas dois Jogos: - Sim, em Tóquio-2020, terei 53 anos. Parece já de mais, não é?! Mas não sei, sinceramente, se poderei continuar a fazer milagres. O que é certo é que eu não imaginava que, aos 49, pudesse sequer estar no Rio – e não me limitei a estar no Rio, conseguiu estar a um bom nível competitivo. Posso sentir que já não sou o atleta que era no ano passado, mas foi suficiente para ganhar. Por isso digo: não sei o que acontecerá daqui por quatro anos. Uma coisa eu sei: tenho um monte de projetos na cabeça e não vou deixar-me ficar entediado se não puder ser atleta mais tempo - porque tenho muitas outras coisas para fazer. Mas se estiver bem, se continuar bem, por que não Tóquio? Eu não faço isso pela ambição de ganhar medalhas de ouro, só quero ter o trazer de continuar a andar de triciclo como ando e é por por isso que eu ganho as medalhas de ouro que já ganhei. ...
Grande História Se há espaço onde a realidade pode ultrapassar a ficção é nos Jogos Paralímpicos – nas incríveis histórias de vida de quem por lá passa a desafiar o destino e a vencê-lo por mais atroz que ele tenha sido. O que aqui se conta são algumas dessas histórias, histórias eventualmente chocantes – sobretudo aquelas que passam por americanas que fugiram do inferno que eram os orfanatos soviéticos para onde se atiraram vítimas de Chernobyl, havia fome, havia abusos (e sim, sexuais também…) Trischa Zorn nasceu a 1 de junho de 1964 em Orange, na Califórnia – e logo se percebeu que sofria de aniridia, rara doença congénita que deixa os olhos sem a íris. Cresceu, claro, sem ver – e aos 10 anos os pais inscreveram-na no clube de natação da cidade. Foi assim que se lhe abriu caminho à eternidade. Ainda antes de entrar para a Universidade do Nebraska saiu dos Jogos Paralímpicos de 1980, disputados em Arnhem, na Holanda com sete medalhas de ouro. Acabou o curso com distinção, ficou na universidade como professora – e em Atenas-2004 fechou a carreira com 51 medalhas paralímpicas, 41 de ouro, 9 de prata e 5 de bronze. Não há quem tenha mais – e o homem que mais perto está da façanha de Trischa é Daniel Dias, que no Rio-2016 chegou às 24 medalhas e de lá levou mais nove (4 de ouro, 3 de prata e 2 de bronze), pondo o mundo a tratá-lo como o Michael Phelps dos Paralímpicos. AO SABER COMO NASCEU O PAI DESMAIOU... A história de Daniel Dias começou a 24 de maio de 1988, na cidade de Campinas, Rosana, a mãe, que dava, então, os primeiros passos como professora, contou-a assim: - Naquela época não se fazia o exame de ultrassom no pré-natal na cidade onde morávamos – e vendo que a bolsa se rompeu o médico achou melhor procurarmos uma maternidade com mais recursos. Então fomos para Campinas e às 3.30 horas Daniel nasceu prematuro. Quando a enfermeira disse que era um menino e não tinha nem pés, nem mãos, meu marido desmaiou. Chorámos muito e pedimos forças a Deus. Quando pude me levantar e ir ao seu encontro, passei a mão em sua pele e Daniel sorriu. Jamais esqueceremos aquele momento emocionante. Aquele sentimento de incertezas sumiu e o sentimento de amor maior surgiu, Daniel é o nosso campeão desde quando nasceu – e para nós foi sempre uma criança normal, nunca o escondemos, nunca tratámos ele como coitadinho, pelo contrário. PELA VITÓRIA? NO CONCURSO DE PINTURA COM CAVALO VOANDO... Aos três anos passou a andar de próteses – e foi assim que entrou para a escola em Camanducaia, Minas Gerais: - Passei por preconceito no colégio, houve colegas que queriam me tocar para ver se eu era verdade. Se primeiro chegava chorando em casa, agradeço aos meus pais a sabedoria de me dizer que eu poderia mostrar para eles que não era porque eu ser deste jeito que não podia realizar o que eles faziam, brincar, jogar, escrever, pintar. Nesse período teve um concurso de pintura lá na escola, eu ganhei ele. Ganhei porque estava bonito mesmo, tinha até cavalo voando… Foi algo incrível para mim, o grande começo: depois dos preconceitos que passei - fui chamado de Saci, de aleijado - mostrei para mim que eu tinha que tirar o preconceito de dentro também. E foi esse momento que quebrou as barreiras neles e em mim criou a ideia de a cada dia me ir superando sempre, mais e mais. PROBLEMA NO FUTEBOL? AS PRÓTESES PARTIDAS... Encantado por desporto, Daniel até futebol jogava, no recreio do colégio: - Problema era um só: eu quebrava muitas próteses. A minha mãe ficava muito brava porque a gente morava em Camanducaia e tinha que viajar para São Paulo para arrumar as próteses. Eu ia pra escola e a minha mãe pedia: «Não joga bola hoje». Mas eu não aguentava, sentava, ficava olhando, e dizia: «Não vai dar». Tinha dia que eu voltava de São Paulo, ia jogar e quebrava a perna de novo, literalmente. O parafuso soltava e ficava uma parte da prótese na perna e a outra solta no chão. De tanto acontecer isso a gente foi lá e meu pai pediu uns 10 ou 15 parafusos para conseguir remendar e não precisar ficar viajando tanto… Hoje até brinco que quando comecei eu era o último a ser escolhido no futebol, mas logo depois já não era mais o último. Pode parecer algo pequeno, simbólico, mas não: é algo grandioso se a gente pensar no que eu cresci com isso - e quem já jogou bola sabe que ser o último ser escolhido não é fácil, não. SEM MÃOS, A TOCAR BATERIA NA IGREJA... Aos 12 anos, aprendeu a andar de bicicleta –por essa altura o sonho de Daniel Dias era ser baterista: - … baterista de uma banda de rock alternativo. Não tendo mãos, aprendi a tocar bateria com uma espécie de munhequeira desenvolvida pela minha mãe. Para a natação fui, depois: no fim de 2004, com 16 anos. Em dois meses e em oito aulas aprendi os quatros estilos – e logo me chamaram para a competição. Nesse tempo tocava na banda da igreja evangélica que nossa família frequentava – e quando chegou o momento em que tive que optar entre bateria e natação, escolhi o certo, com a ajuda de Deus. Na igreja conheceu Raquel, com ela se casou. Têm dois filhos – e o resto é o que se sabe: quatro medalhas de ouro, quatro de prata e uma de bronze em Pequim-2008; seis medalhas de ouro em Londres-2012; e quatro medalhas de ouro, três de prata e duas de bronze no Rio-2016: - Para isso, Daniel teve de treinar cinco horas por dia, em dois períodos. Na reta final para os Jogos do Rio teve até que ficar longe da família, preparando-se durante um mês em Espanha… Isso foi Paulo Dias, o pai que o disse – e também se ficou a saber, entretanto, que Daniel já vive com outro objetivo a agitar-se-lhe na cabeça: não, não é ganhar ainda mais medalhas em Tóquio – é fazer o curso de Engenharia Mecatrônica. ...

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