As dietas “especiais” - as dietas de sangue (artigo José Augusto Santos, 11)

Espaço Universidade 16-05-2018 15:00
Por José Augusto Santos

As dietas determinadas em função do tipo de sangue já têm popularidade há mais de uma década. É fácil mobilizar as pessoas para os segredos da saúde e nutrição e por isso aparecem, com frequência, soluções miraculosas para a doença e excesso de peso. Até agora, de mais de 1000 artigos publicados sobre o assunto, somente 4 corresponderam a estudos experimentais ou observacionais, e só um respeitou os critérios de validação científica. Muitos artigos são relatos anedóticos que afirmam as vantagens desse tipo de dieta. Fundamentação científica robusta não existe. Nenhum estudo procurou evidenciar os efeitos na saúde da dieta específica em função do tipo de sangue comparativamente a uma dieta normal e com os sujeitos agrupados em função do seu tipo sanguíneo. No único estudo que evidenciou a redução do colesterol acoplado às LDL em função da dieta de sangue, os próprios autores evidenciam que outros fatores podem intervir nesse processo, já que está sobejamente provada a relação entre alguns genes e o metabolismo lipídico. Por isso, de momento, a teoria que defende um tipo de dieta em função do tipo sanguíneo não tem suporte científico e muitos estudos, incluindo múltiplos fatores que podem interferir no metabolismo humano, devem ser levados a efeito antes de assumirmos essa proclamação nutricional que entra mais no campo da crendice que no domínio da ciência. O senhor que inventou as dietas condicionadas ao tipo de sangue, D’Adamo de seu nome, já vendeu mais de 7 milhões de cópias do seu livro traduzido em mais de 60 idiomas. Para o senhor D’Adamo a dieta de sangue tem-lhe feito muito bem à saúde, pelo menos financeira.


Numa das suas proclamações sem qualquer fundamento científico, os divulgadores da dieta de sangue afirmam que para os resultados serem bons alguns alimentos devem ser evitados – leite, cebola, tomate, laranja, batata e carne vermelha. Ou seja, alguns dos alimentos mais importantes da dieta humana omnívora são excluídos porque os divulgadores deste tipo de dieta, sem qualquer fundamentação científica, afirmam que podem interferir no metabolismo específico para cada tipo de dieta. Vejamos uma das asserções marcantes e diferenciadoras: enquanto os portadores de sangue tipo O, por causa da sua elevada produção de suco gástrico, necessitam de comer proteínas animais diariamente, os portadores de sangue tipo A devem evitar este tipo de alimentos. Bases científicas? Nenhuma, simples fé. Não há nenhum dado científico que permita relacionar as necessidades nutricionais de um indivíduo com o seu tipo de sangue.


O sangue humano pode ser classificado de acordo com a presença de certos antigénios na superfície dos eritrócitos. Estes antigénios são controlados por loci genéticos específicos. São cerca de trinta os loci genéticos que determinam os tipos sanguíneos; desses, interessam analisar o sistema ABO (cujos antigénios mais importantes são o A, B e H) localizado no cromossoma 9 e o sistema MNS (os mais importantes antigénios são o M, N, S, s e U) no cromossoma 4 (International Society of Blood Transfusion. Table of blood group systems. Version current 2012).


Estudos epidemiológicos evidenciam algumas relações entre o sistema ABO e uma série de características fisiológicas e patológicas. Alguns estudos suportam um certo número de associações entre o tipo sanguíneo ABO e certas doenças, incluindo o cancro pancreático, tromboembolismo venoso, enfarte do miocárdio na presença de aterosclerose coronária (Yamamoto et al., 2102; Transfus Med Ver, 26:103-118). Parece que existe a possibilidade de o grupo sanguíneo ABO induzir uma certa suscetibilidade individual para um certo número de doenças. Se a ciência comprova esta relação já não justifica o estabelecimento de dietas em função do tipo sanguíneo. Por isso, o livro de D’Adamo Eat Right 4 Your Type, publicado em 1996, no qual proclama que uma dieta baseada no grupo sanguíneo é um meio eficaz para melhorar a saúde, o bem-estar e a energia evitando a doença, deve ser considerado como uma tentativa frustrada de conectar alguns dados científicos com a acientificidade de dietas miraculosas. 


Num estudo de revisão feito por Cusak et al. (2013; Am J Clin Nutr, 98:99-104), após consulta de três importantes bases de dados (Cochrane Library, MEDLINE e Embase) foram selecionados 1415 artigos relacionados com as dietas de sangue. Após terem passado pelo crivo dos critérios de inclusão/exclusão, somente 1 artigo respeitava todos os critérios de inclusão e exclusão atestando a correção dos procedimentos experimentais segundo os ditames da investigação científica corroborada por pares. Esse estudo (Birley et al., 1997; Clin Gent, 51:291-295) verificou os efeitos de uma dieta de reduzido conteúdo em gordura na concentração de colesterol acoplado às lipoproteínas de baixa densidade (LDL-c), em participantes agrupados segundo o tipo sanguíneo MNS, já que nenhum dos estudos evidenciou a associação entre a dieta dos sujeitos do grupo sanguíneo ABO e qualquer resultado relativo à saúde. No grupo MNS alguns dados apontam para diferenças estatisticamente significativas entre o grupo experimental e o grupo controlo em relação aos efeitos da intervenção nutricional (redução de 25% da ingestão de gordura e suplementação de 25 g de farelo de trigo por dia) na redução da taxa plasmática de LDL-c. Contudo, a disparidade de resultados não permite conclusões inquestionáveis. Assim, enquanto parte do grupo intervencionado (genótipo MN) aumentou ligeiramente a sua taxa de LDL-c o grupo não-intervencionado com o mesmo genótipo viu a sua taxa de LDL-c claramente reduzida. Isto significa a dificuldade em relacionar o tipo sanguíneo com os efeitos da dieta.


Um artigo recente de Wang et al., (2018; J Nutr, 148(8):518-525) estudou os efeitos dos 4 tipos de dieta preconizados por D’Adamo em alguns biomarcadores relacionados com doenças cardiometabólicas em indivíduos com excesso de peso. Os resultados obtidos esclarecem que o genótipo ABO não modificava qualquer associação entre as várias dietas baseadas no tipo de sangue e os biomarcadores estudados.


Todos os resultados científicos apontam para a invalidação da teoria que sustenta as dietas de sangue, apesar de o livro Eat Right 4 Your Type ter vendido mais de 7 milhões de cópias e ter sido traduzido em mais de 60 idiomas.


No que concerne à alimentação e nutrição humana a regra fundamental é o bom senso e o respeito pelas práticas ancestrais sintetizadas nas dietas saudáveis, e.g. mediterrânea e várias asiáticas, que respeitam a fisiologia humana e as condições ecológicas de cada lugar do mundo.


A pandemia de obesidade que grassa no mundo, resultado de dietas energeticamente muito ricas e nutricionalmente muito pobres, não pode ser corrigida por proclamações dietéticas fantasiosas que mais não visam que a exploração da crendice e falta de informação alheia.


José Augusto Santos é Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto



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