Um caso muito sério (artigo de Aníbal Styliano, 59)

Espaço Universidade 15-05-2018 13:59
Por Aníbal Styliano

“Olá Google, por favor organiza o futebol português com eficácia e competência.”
Apesar de já se poderem fazer marcações com uma aplicação semelhante, neste caso não há capacidade possível para tão enorme desafio.

As falhas sucessivas de quem se julga sábio, as sistemáticas assimetrias e decisões motivadas por eventuais filiações/proximidades, a incapacidade em ouvir e em solicitar apoios, dificulta os acertos dos projetos, por melhor e mais fantástica/mediática que seja a imagem. Esta ajuda mas o conteúdo é o fundamental, desde que rigoroso, preciso, adequado e com capacidade de antecipação e de prevenção - o que costumamos designar por ginástica mental veloz.

Só com trabalho de grupo, sabendo ouvir, se consegue chegar mais longe com maior segurança e eficiência, permitindo estabilizar rumos de sucesso.

Mateus, atualmente jogador do Boavista FC, deveria ser reconhecido essencialmente pela sua capacidade e qualidade como jogador de futebol (em 2006, jogou pela seleção de Angola nos 3 jogos que essa seleção disputou no Mundial da Alemanha) e nunca como identificação de um caso, criado por outros.

11.01.2006: FPF e LPFP recusaram inscrição do jogador Mateus no Gil Vicente. Tinha representado o Felgueiras, como jogador profissional mas tinha mudado para condição de jogador amador quando transferido para o Lixa.

Sucederam-se processos, participações, inquéritos, recursos, queixas por o Gil Vicente ter recorrido a tribunais civis. Depois, diversas votações na Comissão Disciplinar da Liga, com demissões pelo meio e ameaças da FIFA à FPF por não conseguir disciplinar a LPFP.

Confusão generalizada, revelando a nossa ancestral desorganização efetiva.

Convém acrescentar que se a FPF tivesse transposto, para os seus regulamentos, as alterações das regras da FIFA relativas à situação dos jogadores amadores, o “Caso Mateus” nem teria acontecido.

Nesse ano, foi decidida pela tutela do futebol português a descida administrativa do clube de Barcelos para a Liga II.

Passados 10 anos (25.05. 2016), o Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa anulou o acórdão do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, reabrindo as portas para o regresso do Gil Vicente à Liga I.

O caso arrastou-se em diversos tribunais, inclusive em instâncias internacionais para debater eventuais indemnizações.

10.05.2018 – Cimeira da Liga, em Coimbra. A decisão adiada em reuniões anteriores foi, finalmente assumida: Gil Vicente não vai integrar a Liga I na próxima época mas somente em 2019/2020. Rejeitada a possibilidade de o clube participar já na próxima edição da Liga I com eventual alargamento para 20 clubes.

Diversas alternativas se colocaram: subida do Gil Vicente na próxima época com aumento de clubes de 18 para 20 ou somente na época de 2019/20 (com regresso aos 18 clubes após a época de integração do Gil).

Venceu a opção de adiamento de acesso e, por essa razão, na época de 2018/19 vão descer 3 equipas da Liga I (em vez de 2) subindo, em 2019/20 além das duas da Liga II também o Gil Vicente.

Incompreensível a decisão de “fingir que se compete”, pois os jogos do Gil Vicente (que esta época desceu ao CNS), não contarão para a classificação: então não é competição, mas treinos semanais diversificados!

Essa decisão prestigia o futebol nacional? Essa decisão aproxima ou afasta as competições profissionais das não profissionais? Essa decisão não será mais um passo para competições fechadas?

Chegou ainda a ser sugerida uma Liga com 19 clubes (descansando sempre uma equipa), bem como ficou a pairar a intenção de reduzir a Liga I para 16 clubes!

O Gil Vicente, em desacordo com a decisão da Cimeira de Presidentes, soube manter a tranquilidade bem como a confiança na justiça, mas considerou “incompreensível” a decisão aprovada e defendida pelo G15. Recorde-se que na próxima época o Gil Vicente vai competir no Campeonato Nacional de Seniores (sabendo que no final subirá automaticamente à Liga I) o que não é uma medida potenciadora de credibilidade, de combate à suspeição, de transparência, pese embora a dignidade que o clube vai defender. 

O futebol português e o clube em particular mereciam maior atenção, mais profissionalismo e o cuidado indispensável.

Jogar sem pontuar, decidido pelos responsáveis, aporta um conjunto de originalidades demasiado excêntricas!

Fazer justiça passados 14 anos é, no mínimo, revelador da (des)organização do nosso futebol e respetivas lideranças: pelo menos, o Gil Vicente ganha uma batalha árdua num campeonato muito intenso e cansativo.

Espero que as indemnizações sejam justas.

Mas alguns poderão questionar que os casos não são todos antigos! As realidades de 2006 não são as mesmas de 2018. Contudo (e sem mencionar mais tristes “exemplos”) algo de inadmissível continua a acontecer, agora.

Neste final de época, provavelmente surgirão “casos” lamentáveis, que foram divulgados no devido tempo, perfeitamente evitáveis e que farão correr muita tinta, muita confusão jurídica e regulamentar.

Há conflitos e “competições” entre instituições onde deveria haver cooperação intensa e competente; há movimentos para novos grupos lutarem por poderes que só fazem sentido como estratégia global e nunca parcelar; há consequências que o tempo desvendará e que novamente traduzirão a pouca dimensão de protagonistas e vaidades de quem tem prejudicado o futebol para benefícios grupais; alimentar guerras, com hipocrisias e comportamentos voláteis, conforme o momento e o espaço, tem sido um dos maiores entraves ao desenvolvimento sustentado do nosso futebol.

Preocupa-nos a vitória permanente da impunidade.

Vejamos um pequeno exemplo, dos muitos possíveis e intermináveis:

Foi atribuída uma pena de dois jogos de suspensão a um jogador do SLB. Essa pena foi aplicada pelo Conselho de Disciplina da FPF. De um dia para outro, o mesmo órgão federativo, presidido pelo Dr. José Manuel Meirim, despenalizou essa sanção. Seja na primeira decisão, seja na segunda, num espaço de poucas horas, houve erro grave mas não a necessária responsabilização pública.

Afinal, os casos estranhos e não esclarecidos não param nunca.

Não seria mais eficaz aplicar fundamentadas demissões?

O futebol nacional precisa de quem o saiba defender como prioridade e não como utilidade pessoal.


Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol

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