Institucionalização, evolução histórica e calendarização da WNBA (artigo de Eduardo Monteiro, 27)

Espaço Universidade 11-05-2018 16:13
Por Eduardo Monteiro

O fracasso registado pelo desporto feminino dos Estados Unidos da América (USA) nos Jogos Olímpicos de Roma-1960, teve um impacto negativo  na comunicação social e, por sua vez, na opinião pública norte americana. No sentido de se dar resposta a essa onda de contestação e na procura de uma solução imediata que corrigisse essa frustante situação, as entidades responsáveis entenderam que era necessário apoiar, com acções concretas o desenvolvimento do desporto feminino nos USA. Deste modo, foi consensual, que a  grande medida a implementar seria o de ficar consagrado que no sistema educativo universitário norte americano a atribuição de bolsas de estudo às estudantes/atletas deveria ter um tratamento  idêntico ao que vigorava  em relação aos rapazes. Esta decisão fez com que houvesse um aumento considerável de praticantes nas diferentes modalidades desportivas no  High School (ensino secundário) e, em consequência, o aparecimento de milhares estudantes/atletas na grande maioria das universidades norte americanas.


Assim, do universo de praticantes femininas que beneficiaram  das bolsas de estudo e como factor resultante do trabalho de aperfeiçoamento técnico-desportivo realizado nos desportos praticados  nas diversas universidades foram, naturalmente, surgindo excelentes praticantes. O basquetebol feminino aproveitou a onda do progresso, tendo os seus  campeonatos regionais e nacionais universitários atingido outros patamares, ganhando popularidade, conquistando espaço na comunicação social, passando a ser transmitidos com regularidade na televisão. O basquetebol feminino teve uma enorme expansão e evolução e, alguns anos depois, surgiram várias medidas para a criação de uma liga profissional constituída pelas melhores jogadoras de basquetebol  que já tinham concluído os estudos universitários. Após algumas tentativas não muito bem sucedidas, a NBA resolveu dar apoio incondicional a esta intenção, aprovando oficialmente a criação da Women´s National Basketball Association (WNBA), uma versão feminina  à semelhança da NBA, em 24 de Abril de 1996.


Entretanto, aproveitando da melhor maneira a divulgação e popularidade do basquetebol feminino, a nível nacional e internacional, com a conquista de medalhas de ouro pela selecção feminina norte americana nos Jogos Olímpicos de Los Angeles-1984, Seul-1988 e  Atlanta-1996, a WNBA deu início, em 21 de Junho de 1997, à sua primeira época desportiva com a transmissão em directo, para todo o país, do jogo entre as equipas de New York Liberty e Los Angeles Sparks. Na competição participaram oito equipas divididas por duas conferências: Conferência do Este – Charlotte Sting, Cleveland Rockers, Houston Comets e New York Liberty; Conferência do Oeste – Los Angeles Sparks, Phoenix Mercury, Sacramento Monarchs e Utah Starzz.


Na época seguinte (1998), foram aceites mais duas equipas, Detroit e Washington e, na posterior (1999), surgiram outras duas,  Orlando e Minnesota, perfazendo um total de doze formações profissionais de basquetebol feminino. A época desportiva de 1999 começou com um acordo colectivo entre jogadoras e liga, sendo o primeiro na história do desporto feminino profissional a ser concretizado. Nessa altura, a WNBA também anunciou a entrada de mais quatro equipas; Indiana Fever, Seattle Storm, Miami Sol e Portland Fire na competição profissional de 2000, passando a liga a ser composta  por dezasseis formações. A ideia predominante, em termos futuros, era a de crescimento através da expansão da WNBA a outras zonas do país.


No final da época de 2002, com o objectivo de se encontrar os mecanismos financeiros para a sobrevivência da competição feminina profissional (as equipas eram quase todas propriedade da NBA), tornou-se necessário proceder a diversas alterações. Assim, na procura da sua sustentabilidade financeira, diversas formações conseguiram novas parcerias noutros mercados, através da sua recolocação noutras cidades tendo até algumas delas, ao inêxito da procura, sido obrigadas a optar pela dissolução. A WNBA, durante estes 21 anos da sua existência, enfrentou imensas dificuldades para a manutenção da competição feminina profissional. Para termos uma ideia mais realista das contrariedades surgidas vejamos o que aconteceu com diversas equipas (6 foram dissolvidas e 3 recolocadas).


Equipas dissolvidas:

- Charlotte Sting (associada aos Charlotte Hornets) (duração: 1997 a 2006);

- Cleveland Rockers (associada  Cleveland Cavaliers) (duração: 1997 a 2003);

- Miami Sol (associada aos Miami Heats) (duração: 2000 a 2002);

- Portland Fire (associada aos Portland Trail Blazers) (duração: 2000 a 2002);

- Houston Comets (associada aos Houston Rockets) (duração: 1997 a 2008);

- Sacramento Monarchs (assoc. Sacramento Kings) (duração:1997 a 2009);


Equipas recolocadas:

- Orlando Miracle (duração: 2000 a 2002), actual Connecticut Sun;

- Detroit Shock (1998 a 2009), Tulsa (2010 a 2015), actual Dallas Wings;

- Utah Starzz (1997 a 2002), S. Antonio (2003 a 2017), actual Las Vegas Aces;

Actualmente, a WNBA é constituída por 12 equipas distribuídas por duas conferências. A  fase regular da época desportiva decorre de Maio a Setembro e os playoffs durante o mês de Setembro, ou seja, nos meses em que a NBA (homens) tem pouca actividade competitiva, para se evitar a sobreposição das duas competições profissionais. Face à curta duração da prova da WNBA (4 meses), algumas das suas jogadoras também participam nos campeonatos nacionais de outros países, com maior realce para os do continente europeu.


Conferência do Este:

- Atlanta Dream (fundação 2008) Atlanta, Georgia (Arena 8.600 pessoas);

- Chicago Sky (fundação 2006) Chicago, Illinois ( 10.387 espectadores);

- Connecticut Sun (fundação 1999) Uncasville, Connecticut (9.323);

- Indiana Fever (fundação 2000) Indianapolis, Indiana (18.165);

- New York Liberty (fundação 1997) White Plains, New York (5.000);

- Washington Mystics (fundação 1998) Washington, D.C. (20.356).


Conferência do Oeste:

- Dallas Wings (fundação 1998) Arlington, Texas (7.000 espectadores);

- Las Vegas Aces (fundação 1997) Paradise, Nevada (12.000);

- Los Angeles Sparks (fundação 1997) Los Angeles, California (18.997);

- Minnesota Lynx (fundação 1999) Minneapolis, Minnesota (19.356);

- Phoenix Mercury (fundação 1997) Phoenix, Arizona (18.055);

- Seattle Storm (fundação 2000) Seattle, Washington (15.354).


A equipa dos Houston Comets, treinada por Van Chancellor e liderada pelas jogadoras Sheryl Swoopes, Tina Thompson e pela melhor jogadora (MVP- 4 épocas seguidas) Cynthia Cooper, apelidadas de “Big Three”, venceu os primeiros quatro campeonatos da WNBA (1997, 1998, 1999 e 2000) com um ranking de 98-24 na época regular e 16-3 nos playoffs. Com a retirada de Cooper da competição a dinastia dos Houston Comets chegou ao fim. Nos dois anos seguintes (2001 e 2002) a principal rival das Comets, a equipa dos Los Angeles Sparks, conquistou os títulos da WNBA através do domínio no jogo interior da então melhor jogadora americana, Lisa Leslie. O treinador da equipa era Michael Cooper (ex-jogador dos Los Angeles Lakers), que também tinha sido campeão da NBA. A partir daqui, não houve mais nenhuma formação da WNBA a vencer a prova em duas épocas consecutivas. Assim, vejamos a relação das oito equipas com títulos conquistados:


Houston Comets (4 títulos) (1997, 1998, 1999, 2000); Minnesota Lynx (4 títulos) (2011, 2013, 2015, 2017); Los Angeles Sparks (3 títulos) (2001, 2002, 2016); Detroit Shock (3 títulos) (2003, 2006, 2008); Phoenix Mercury (3 títulos) (2007, 2009, 2014); Seattle Storm (2 títulos) (2004, 2010); Indiana Fever (1 título) (2012) e Sacramento Monarchs (1 título) (2005).


Nas comemorações dos seus 10º aniversário (2006), 15º aniversário (2011) e 20º aniversário (2016) a WNBA deu a conhecer a listagem das  melhores jogadoras da história da liga profissional norte americana e, entre elas, figura a portuguesa Ticha Penicheiro, praticante notável ao longo de uma longa carreira como jogadora universitária (Old Dominion University), profissional na liga norte americana (Sacramento Monarchs, Los Angeles Sparks e Chicago Sky) e, ainda, algumas passagens por equipas europeias. Vejamos a lista das mais consagradas que acompanham a jogadora lusa, Leilani Mitchell, Seimone Augustus, Sue Bird, Swin Cash, Tamika Catchings, Cynthia Cooper, Yolanda Grifith, Becky Hammon, Lauren Jackson, Lisa Leslie, Maya Moore, Deanna Nolan, Candace Parker, Cappie Pondexter, Katie Smith, Dawn Staley, Sheryl Swoopes, Diana Taurasi, Tina Thompson, Teresa Weatherspoon e Lisa Whalen.


A preparação da época desportiva de 2018 da WNBA já deu os seus primeiros passos com a realização do Draft, em 12 de Abril, e a abertura dos campos de treino das equipas no dia 29 do mesmo mês. No período de 6 a 13 de Maio realizam-se os jogos de preparação (preseason games) para a competição oficial que terá o início da época regular a 18 de Maio. O habitual “WNBA All Star Game” está agendado para 28 de Julho na cidade de Minneapolis, no estado do Minnesota, no Target Center que tem   capacidade para 19.354 espectadores. O final da época regular aponta para 19 de Agosto e o início dos playoffs para dois dias depois, ou seja, dia 21. A data prevista para as finais da WNBA é 16 de Setembro.


Cá por casa, a prova principal do calendário das competições femininas de âmbito nacional (campeonato nacional da liga feminina), teve o seu derradeiro desfecho com a realização do playoff final entre as equipas do União Sportiva e da Quinta dos Lombos que a primeira venceu por 2-0, com os resultados de  64-61 e 69-67. Equilíbrio notório durante os encontros com incerteza permanente quanto ao vencedor até final do tempo regulamentar. Comportamento exemplar das jogadoras das duas formações muito bem dirigidas pelos seus experientes treinadores.


Contudo, achamos que três jogadoras estrangeiras por equipa não é benéfico para o desenvolvimento e evolução das jogadoras nacionais. A redução de umaestrangeira por equipa não só daria experiência a um maior número de praticantes portuguesas, como alteraria a concepção técnico-táctica do modelo de jogo centrado nas forasteiras. Também, entendemos que as eliminatórias dos playoffs devem ser, sempre,  realizadas à melhor de 5 jogos, no sistema de 2-2-1, com os primeiros dois jogos a serem realizados no recinto da equipa melhor classificada na fase regular.


Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais   

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