O pensamento dialético na vitória do FC Porto (artigo de Manuel Sérgio, 241)

Espaço Universidade 11-05-2018 16:07
Por Manuel Sérgio

O 28º. Nacional de Futebol, que o F.C. Porto conquistou (muito justamente, acrescente-se), nesta época desportiva de 1917/1918, merece algum tempo de reflexão e de análise. Mas de uma reflexão que não se confunda com imitação do infantilismo a mais e maturidade a menos, que rodeiam estas vitórias das mais populares competições futebolísticas. Como já o escrevi, noutras vezes: os perdedores na vida precisam de identificar-se com os ganhadores no desporto, para que, aos seus próprios olhos, não se sintam inúteis ou incapazes. Com o inesperado êxito do Tondela, na Luz, a vitória no Nacional de Futebol foi oferecida, “de bandeja”, à equipa de Pinto da Costa e de Sérgio Conceição. E a consciência do que o F.C.Porto é e do que vale voltou de novo à tona, como naqueles anos distantes em que fiz amizade com o Presidente Pinto da Costa e com o Mestre José Maria Pedroto e com o Dr. Artur Jorge e os Professores João Mota, Hernâni Gonçalves e José Neto (e ainda com os dirigentes Fernando Vasconcelos, Teles Roxo e Reinaldo Teles). Bons tempos esses, que deixaram em mim marcas duradouras de um convívio humano a que cabe o designativo de modelar.  Embora “azul” na cor, o meu clube preferido não é o F.C.Porto. Nasci em Lisboa, no bairro da Ajuda que, aqui e além, se confunde com o de Santa Maria de Belém. Sou um fiel súbdito do Palácio da Ajuda, da Calçada da Ajuda, da Igreja da Boa-Hora, dos Pastéis de Belém, da Torre de Belém, do Palácio de Belém, do Mosteiro dos Jerónimos, do Estádio das Salésias e do Estádio do Restelo, lamentando não possuir os esplendores de uma riqueza vocabular, capaz de retratar este pedaço de Lisboa, que tem a superior compleição das arquiteturas especiosas e do espírito audacioso e recalcitrante do Portugal dos séculos XV e XVI. Sou, fui, serei Belenenses, colmeia onde se forjou também a crisálida do meu inconformismo…


Mas, sempre com os sentidos intencionalmente dispostos a conviver e admirar, facilmente me deixei enfeitiçar, pela cidade do Porto e pelos  homens que refundaram o F.C.Porto, liderados por Jorge Nuno Pinto da Costa e José Maria de Carvalho Pedroto. E, com a ousadia romântica, a inquieta mocidade de Pinto da Costa e a curiosidade científica de José Pedroto (uma voz que se levantou a exautorar, em consonância com o David Monge da Silva, no INEF de Lisboa, o atraso, ao nível do conhecimento, em que se situava o nosso treino desportivo) não era difícil vaticinar um F.C.Porto diferente, para melhor (muito melhor) com as vitórias que distinguem os campeões. Portugal era um país macrocéfalo. O poder (no futebol também) residia em Lisboa. Aliás, Portugal, nas palavras do Padre Manuel Antunes, “possui uma tradição, já bastante arraigada, de jacobinismo centralizador. Na administração e na educação, na economia e nas finanças, na justiça e no jogo político. Esse jacobinismo atingiu o apogeu, com o regime do Estado Novo” (Repensar Portugal, Multinova, Lisboa, 1979, p. 78). Houve que travar, por isso, duras e patéticas batalhas, em prol da descentralização do poder. Se um dia ocorrer a um escritor informado ilustrar o trajeto de dirigente desportivo de Jorge Nuno Pinto da Costa  com o traçado do roteiro das dificuldades desabridas e duras que teve de superar, será possível sentir que o futebol português, mais equilibrado e menos assimétrico, nasceu então na cidade do Porto. O F.C.Porto foi, nesses anos onde se desconhecia o direito à diferença, a necessária antítese da tese caquética que julgava que a Democracia se resume a um Estado Democrático e ignorava portanto que a Democracia, mais do que um Estado Democrático, é uma sociedade democrática. Mas foi no F.C.Porto de Pedroto e de Pinto da Costa e no ISEF de Mirandela da Costa, de Monge da Silva, de Jesualdo Ferreira e de Carlos Queirós, que o futebol português se preparou para uma idade adulta. Vítor Frade também merece, aqui, uma citação especial. Os demais, referenciados neste texto, parecem-me, no entanto, os pioneiros.


Consciencializar os valores da Democracia foi a primeira das questões que se levantou aos portugueses e ao futebol português. Consciencializar estes valores, dando a voz, em primeiro lugar, às figuras indóceis mas incapazes de trair a Revolução de Abril. Cândido de Oliveira, que resistiu inteiriço, no ingrato ofício de escrever, às imposições salazaristas, já não pertencia ao mundo dos vivos. E o Benfica de José Augusto, Eusébio, Águas (Torres) Coluna e Simões já era uma saudade, no seio convulso do novo regime. É principalmente no ISEF de Lisboa e no F.C.Porto de Pedroto e Pinto da Costa que, no meio sobreexcitado do futebol português (sobreexcitado ontem, hoje e sempre) que avultam pessoas que pretendem tomar posição ativa na transformação do futebol português. Alheado dos partidos políticos, mas não da vida política; desejoso de exautorar o que lhe parecia velho e frágil, no futebol português – José Maria Pedroto faz, em Portugal, antes de qualquer outro “agente do futebol”, um trabalho que prepara, teórica mas principalmente na prática (é a prática que, real e objetivamente, transforma) o Porto-campeão-europeu de Artur Jorge. O Dr. Artur Jorge, pela sua cultura, pela sua aristocrática nobreza de sensibilidade e de mentalidade, prolonga e enriquece o legado de Pedroto. Parece-me indiscutível o que venho de escrever, como indiscutível me parece também que em Pedroto já residiam alguns conceitos adequados a um futebol que eu assim sintetizo: não há futebol, há pessoas que praticam futebol. “Residiam conceitos”, disse eu, ou seja, não eram meras opiniões, não eram generalidades, mas verdadeiras “singularidades que reagem sobre os fluxos de pensamento” (GIlles Deleuze, Pourparlers, Ed. Minuit, Paris, 1990, p. 48). Não tenho receio em afirmar que os “conceitos” por que José Maria Pedroto se expressava, reivindicando um “futebol novo”, fazem dele um pioneiro do que melhor se descobre no futebol atual.


Antes ainda do trabalho sistemático, levado a cabo pelo F.C.Porto e pelo ISEF de Lisboa, não deverão esquecer-se dois nomes, pioneiros também, de um futebol-ciência e de um futebol-consciência: Cândido de Oliveira e Fernando Vaz. Não conheci nunca, no futebol português, um treinador de futebol, com a cultura literária de Fernando Vaz. Foi o discípulo dileto de Cândido de Oliveira e frequentava as obras  dos grandes romancistas portugueses, com uma assiduidade bem pouco vulgar. Mário Wilson deverá lembrar-se também, como um humanista que foi no exercício da sua profissão. Mas surge, no esplendor da sua valia intelectual e humana, alguns anos depois. Recordo, hoje, uma reunião, no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, do José Maria Pedroto, do Fernando Vaz e do Dr. Lourenço Pinto, atual presidente da Associação de Futebol do Porto e meu ilustre Amigo. Recordo a reunião e a voz do Pedroto, com o acento vigoroso da amizade, logo que me viu: “Olhem quem aí vem…”.Peço desculpa, pelo meu saudosismo (tão português) que está a desviar-me do pensamento inicial desta crónica. Quero eu vincar, nela, que as vitórias do F.C.Porto despontam sempre como antítese às teses do grande rival de Lisboa: o Sport Lisboa e Benfica. E uma antítese prática e teórica. Estou a lembrar-me, neste momento, de Louis Althusser que dizia que toda a produção, verdadeiramente teórica, contém, representa, expressa uma tomada de partido. Também, em Pinto da Costa, não há teoria pura. Para ele, a teoria é uma prática, em defesa “militante” do Clube que ele apaixonadamente ama. Parabéns ao Futebol Clube do Porto! E não só pela conquista de mais um Nacional de Futebol!


Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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21:45  -  21-07-2015
Do Jogo ao Desporto em Bourdieu e... não só (artigo de Manuel Sérgio, 96)
23:57  -  16-07-2015
Carta a Eugénio Lisboa (artigo de Manuel Sérgio, 95)
00:32  -  10-07-2015
António Simões: - o irmão branco do Eusébio (artigo de Manuel Sérgio, 94)
17:31  -  04-07-2015
Jorge Jesus ou a homeostasia organizacional (artigo de Manuel Sérgio, 93)
23:50  -  15-06-2015
No Benfica: estrutura ou carisma? (artigo de Manuel Sérgio, 90)
22:37  -  10-06-2015
Feyerabend e Ricardo Serrado no estudo de Lionel Messi (artigo de Manuel Sérgio, 89)
22:50  -  26-05-2015
Mais importante do que ter sucesso é ter valor! (artigo de Manuel Sérgio, 86)
00:30  -  23-05-2015
José Mourinho ou as razões da sua diferença (artigo de Manuel Sérgio, 85)
16:42  -  18-05-2015
É preciso, imperioso e urgente a continuação de J.J., no Benfica (artigo de Manuel Sérgio, 84)
18:16  -  10-05-2015
Roberto Carneiro: retrato de um ministro que eu conheci (artigo de Manuel Sérgio, 83)
16:30  -  01-05-2015
O empréstimo de jogadores é compatível com a ética? (artigo de Manuel Sérgio, 82)
16:54  -  20-04-2015
José Mourinho: por que será?... (artigo de Manuel Sérgio, 81)
17:17  -  14-04-2015
O Progresso Desportivo: - o que é isso? (artigo de Manuel Sérgio, 80)
19:15  -  07-04-2015
Mourinho escreve prefácio de livro de Manuel Sérgio, «O Futebol e Eu»
23:31  -  06-04-2015
O jornal “ A Bola” - desporto e humanismo (artigo de Manuel Sérgio, 79)
22:47  -  01-04-2015
Jorge Carlos Fonseca: o Presidente da República que é poeta (artigo de Manuel Sérgio, 78)
21:47  -  25-03-2015
Qual o fundamento radical na arbitragem? (artigo de Manuel Sérgio, 77)
16:34  -  21-03-2015
A Gestão do Desporto, segundo Gustavo Pires (artigo de Manuel Sérgio, 76)
16:40  -  13-03-2015
O Futebol é Anamnese... mesmo com Luís Figo? (artigo de Manuel Sérgio, 75)
17:47  -  07-03-2015
Ao Povo-Irmão de Cabo Verde (artigo de Manuel Sérgio, 74)
21:14  -  19-02-2015
“Cândido de Oliveira” - um livro inesquecível de Homero Serpa (artigo de Manuel Sérgio, 73)
21:10  -  12-02-2015
Só com os mesmos valores o diálogo é possível (artigo de Manuel Sérgio, 72)
17:04  -  08-02-2015
O modelo racionalista do jornal A Bola (artigo de Manuel Sérgio, 71)
16:32  -  01-02-2015
“A Bola”: uma práxis que é preciso manter (artigo de Manuel Sérgio, 70)
19:14  -  28-01-2015
Manuel Alegre: - um semeador de poesia (artigo de Manuel Sérgio, 69)
18:29  -  22-01-2015
Libertar o Direito e o Desporto ou um ensaio do Prof. Paulo Cunha (artigo de Manuel Sérgio, 68)
16:24  -  18-01-2015
A desparasitação do futebol ou a dupla Pinto da Costa-Pedroto (artigo de Manuel Sérgio, 67)
18:18  -  15-01-2015
O Desporto tem violência: - não é violento! (artigo de Manuel Sérgio, artigo 66)
17:57  -  10-01-2015
A “Arte da Guerra” no treinador Rui Vitória (artigo de Manuel Sérgio, 65)
00:17  -  07-01-2015
José Maria Pedroto: o conhecimento... (artigo de Manuel Sérgio, 64)
23:31  -  31-12-2014
Feliz Ano Novo ao Desporto Português (artigo de Manuel Sérgio, 63)
17:32  -  24-12-2014
A grande revolução de Jesus na Vida e... no Desporto! (artigo de Manuel Sérgio, 62)
17:53  -  20-12-2014
História e Filosofia das Ciências, no Desporto e... no Benfica! (artigo de Manuel Sérgio, 61)
22:56  -  17-12-2014
Uma resposta breve a Miguel Cardoso Pereira (artigo de Manuel Sérgio, 60)
18:57  -  11-12-2014
Desporto e Desenvolvimento ou um livro de Gustavo Pires (artigo de Manuel Sérgio, 59)
18:36  -  04-12-2014
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18:19  -  27-11-2014
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16:18  -  16-11-2014
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