O grande paradigma (artigo de Manuel Sérgio, 229)

Espaço Universidade 12-02-2018 13:20
Por Manuel Sérgio
A revista Sábado, de 8 de Fevereiro de 2018, apresenta aos leitores uma reportagem, num ginásio, na zona industrial de Ashton, nos arredores de Manchester. “À entrada, uma roulotte, velhos cavalos de ginástica e uma espada, espetada numa pedra, à espera do Rei Artur. Parece um acampamento nómada”, mas é ali, no Elite Lab, que Mick Clegg, “um treinador especializado em desenvolvimento de força e de velocidade” trabalha, visando o surgimento de novos CR7, ou seja, de novos Cristianos Ronaldos. O interior do ginásio de Mick Clegg “está apetrechado com algumas das máquinas que ajudaram o madeirense a conquistar cinco Bolas de Ouro. Numa dessas máquinas um atleta tenta tocar em todas as luzes vermelhas, que piscam furiosamente num quadro preto, enquanto outro procura memorizar visualmente quatro bolas que se movimentam, misturadas com outras seis, num painel virtual”. Mick Clegg explica o trabalho das máquinas: “O futebolista tem de estar atento à bola, ao movimento dos colegas, à investida dos defesas, aos sons do público. Isso exige muito do cérebro. Estas máquinas ajudam-no a desenvolver a rapidez cerebral”. Os quatro filhos de Mick Clegg, com os métodos do pai, surpreenderam toda a gente que os via, tanto nas aulas de educação física, como na prática desportiva. Chegaram mesmo a “internacionais”, em várias modalidades, o que levou o Manchester United a premiar o arrojo e a competência de Mick Clegg, convidando-o a ingressar, como professor, na sua academia. “O seu programa de desenvolvimento de força era inovador: incluía exercícios de boxe, um chamariz para o médio e capitão Roy Keane, famoso pelo estilo combativo, que apareceu para conhecer o treinador de quem se falava”. Mas não foi só o Roy Keane, outros jogadores dele se aproximaram, curiosos de conhecerem os seus métodos e “em 2000 fui chamado para a equipa principal” sublinhou o Clegg.

David Beckam, Rio Ferdinand, Ruud van Nistelrooy, Paul Scholes, Ryan Giggs ficaram gratos ao professor Clegg… até que o Cristiano Ronaldo o visitou. E, como quem detém um segredo ou recata uma confidência, disse, por fim, a MIick Clegg: “Quero ser mais rápido e mais resistente do que Ryan Giggs”. E, com a sageza aliciante de um especialista, Clegg relatou, em pormenor, o treino específico do CR7 e os resultados espantosos a que o português chegou, atingindo mesmo os níveis físicos do Ryan Giggs, E, a coroar um treino intenso e tecnicamente rigoroso, recorda o professor Clegg: “Tinha uma autoconfiança notável. Enquanto a maioria dos jovens deixava de fazer uma finta quando Roy Keane lhes lançava um berro, ou o público os evolução totalmente controlada. Aliás, ele chegou a confessar-me que o United era uma passagem”. Ronaldo foi para o Real Madrid, em 2009. Dois anos depois, o maestro do ginásio de Old Trafford também abandonou o clube, desiludido pela falta de abertura para com os seus novos métodos. Desde então vive obcecado com a ideia de encontrar um novo Cristiano Ronaldo”. E, ardente de um sonho, com olhos de iluminado, ainda confessa que recebe visitas secretas de jogadores do Manchester City e do Manchester United, “que sentem que os clubes não lhes disponibilizam o treino de que precisam”. E Mick Clegg declara: “Encontrar o novo Cristiano Ronaldo requer uma conjugação de fatores – bênção genética, jogar num clube grande e muita dedicação ao treino”. E pacientemente antevê o Futuro: “Se eu comecei a trabalhar com o Cristiano, quando ele tinha 18 anos e ele se tornou um portento físico, imaginem como podem ficar os miúdos que aqui chegam com 6 anos”.

Na conjugação de fatores, que o professor Mick Clegg refere, à tríade “benção genética, jogar num clube grande e muita dedicação ao treino”, permito-me acrescentar: “o conhecimento do paradigma onde o treino e o jogo se fundamentam”. Ora, este paradigma só pode ser o de uma ciência hermenêutico-humana. No jornal A Bola, de 10 de Fevereiro de 2018, o dia do Espanha-Portugal, jogo onde se disputou o primeiro lugar do Europeu de Futsal – neste número do jornal A Bola, solicitou-se a antigos jogadores internacionais desta modalidade o que encontravam de relevante, na seleção portuguesa, finalista e portanto possível vencedora do Europeu de Futsal. Para Majó, Zé Maria, Zezito, Gonçalo Alves, Pedro Costa, Cardinal, a resposta foi unânime: o espírito de grupo, a coesão a raça, o querer, uma alegria contagiante durante o jogo e o orgulho de poderem representar o seu País. Ricardinho, o melhor jogador do mundo de futsal, não escondeu o que lhe saía da alma e referiu, acima de tudo, o ”caráter”, isto é, a vontade imensa da vitória… pelos onze milhões de portugueses e porque, durante a fase final do Europeu, Portugal foi a melhor equipa. Pedro Cary, respeitando embora o futsal da nossa vizinha Espanha, que já venceu esta competição por sete vezes, afirmou, convicto, que a vontade da equipa nacional portuguesa iria transcender todos os obstáculos. O treinador Jorge Braz relembrou Orlando Duarte que, frequentemente, repete que “do Passado vivem os museus” e, embora o poderio da seleção espanhola, Portugal “queria” vencer, fosse qual fosse o adversário. Será de recordar, neste momento que, desde 1990, a UEFA começou a organizar o Europeu de Futsal. E apenas quatro países se sagraram campeões: a Espanha (por sete vezes), a Itália (duas vezes), a Rússia e Portugal (por uma vez).

Com todo o respeito pela competência de Mick Clegg, como especialista que é no “desenvolvimento da força e da velocidade”, é a complexidade humana que deve preparar-se, para que os campeões consigam desempenhos que permaneçam estampados em eternidade. E, na complexidade, a biologia é fundamental, o espírito é essencial. Quando chegaram a Lisboa, os novos campeões europeus de futsal foram recebidos, no Palácio de Belém, pelo Presidente da República, Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, acompanhado pelo Dr. Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, pelo Doutor Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação e do Desporto e pelo secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Dr. João Paulo Rebelo. E, nos discursos proferidos, desde o Ricardinho, o capitão do time vencedor, e do Dr. Fernando Gomes, presidente da FPF (sempre calmo e aprumado e de uma impecável delicadeza), passando pelo Dr. Ferro Rodrigues, com a sua confessa admiração por tudo o que merece ser admirado e pelo Doutor Tiago Brandão Rodrigues (o desportista, o cientista, o pedagogo que questiona e se questiona) até ao Presidente da República (culto e generoso e, por isso, de pensamento animante e contagiante) – em todos, o paradigma, o grande paradigma dos mais espetaculares desempenhos, no desporto, é o “fenómeno humano”, no movimento intencional da transcendência. E portanto onde a inteligibilidade e a explicação de um jogo de futebol ou de futsal se encontra menos na natureza do que na cultura. Aceito, com naturalidade, que os fenómenos culturais apresentem mais fragilidades científicas, mas unicamente à sombra das ciências naturais, ditas exatas, jamais poderemos compreender um campeão, em toda a sua complexidade. A alta competição desportiva é mais um drama que outra coisa qualquer, o que lhe confere significação e sentido é a sua relação com determinados valores. Não há neutralidade axiológica, num jogo de futebol. A motricidade humana só pode entender-se como “conduta humana”. E onde o que se faz é mais determinado por valores do que por um fisiologismo que ainda não descobriu que o fisiológico é uma das partes (embora fundamental) de um todo…
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