O medo, os servidores e os indícios de uma tragédia (artigo de Aníbal Styliano, 47)

Espaço Universidade 05-02-2018 20:16
Por Aníbal Styliano
O futebol não deixa de nos enviar mensagens e apelos para fazermos todos os esforços que evitem a sua “morte anunciada”.
Pelo menos do futebol jogo, desporto, arte, que alcançou a dimensão de língua e sentimento universal – Esperanto.
A história da Humanidade é sempre um exemplo de aprendizagem e uma prevenção contra servilismos às ordens de Donos de Ocasião.
Alberto Pimenta num dos seus livros, sempre fantásticos e intemporais, denuncia com a sua provocação poética, como se alimentam os ogres do poder.
Injustiças, alheamentos, indiferenças e egoísmos, não constituem defesas mas unicamente fragilidades e receios…
Fragilidades porque ser frontal e coerente implica coragem e persistência num esforço contínuo e intenso.
Receios porque as dependências esperam sempre benefícios, pagamentos, bónus, “as 30 moedas”, que vão consumir o caráter e o prazer/privilégio de uma vida, por ausência de liberdade.
Mas não faltam candidatos para servir, para caluniar, para destruir sementes de desenvolvimento, de tolerância, de inclusão fraterna.
O futebol, a nível mundial, como “indústria de sucesso planetário” (usar “indústria” ligada a futebol, para além de oposição serena mas contínua, recorda Chaplin em “Tempos Modernos”) está a avançar no inverso dos fundamentos da inteligência artificial.
Em vez de benefícios, a ponta do iceberg já não esconde a imagem “vampírica” da enorme parte submersa.
Corrupção, viciação de jogos, movimentação de avultados capitais com rumos indecifráveis, “batota”, conflitualidade, acima de tudo para servir um negócio de ocasião muito vantajoso nos lucros.
Não se cumprem regulamentos, deslocam-se jovens talentos para outros continentes (saltando leis), potenciam-se fluxos monetários que se movimentam em paraísos, essencialmente às ordens de quem mais lucra com os direitos das transmissões televisivas e ainda com as polémicas anestesiantes do VAR.
Neste momento, sugiro verem um filme/vídeo de família: Space Jam, com o basquetebolista Michael Jordan a “contracenar” com desenhos animados …. Certamente ficarão satisfeitos e com vontade de não se deixarem enganar.
Ao longo dos últimos anos, paulatinamente, a hidra vai aumentado o número de cabeças: contratando antigas estrelas a quem provavelmente convencem de forma persuasiva, pois as mudanças são radicais: destrutivas para o futebol que promoveram e onde contribuíram para aumentar a paixão pelo jogo, mas agora ainda muito lucrativas em termos pessoais.
Reparemos no poema do alemão Bertolt Brecht (1898-1956), que perseguido pelos nazis nos deixou, entre muitas obras, um pequeno poema bem “enorme”:
“INTERTEXTO
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.”

A compra da liberdade está sempre ao virar de cada esquina.
Por burrice ou simples medo de encarar a realidade, há sempre quem ache “o poder” redentor, como principal sentido para a existência. E têm direito a essa liberdade de pensar!
Alguns revelam tiques de quem se julga com especial e divina missão.
Voltemos ao campo do jogo que adoro designar por mágico.
Nos anos idos, os vencedores dos Campeonatos e das Taças de futebol de cada país estavam selecionados, naturalmente e por direito próprio, para participarem nas provas internacionais: na UEFA, Taça dos Clubes Campeões Europeus e Taça dos Vencedores das Taças, entre outros torneios.
Os melhores marcadores, de entre todos os campeonatos, disputavam a Bota de Ouro (troféu para quem marcasse mais golos em cada época). Havia ainda mais exemplos mas estes já são suficientes.
Com o crescimento da “indústria do futebol” passamos a ter a “Champions League” onde participam clubes de vários países, em função de um coeficiente de valorização de cada Campeonato/Liga, assim com na Liga Europa, onde se integram clubes que não são vencedores de algum campeonato ou taça, porém com representações alargadas e significativas para as Ligas mais “ricas”.
Em termos de Bota de Ouro, os golos não valem todos o mesmo: conforme a importância económica das Ligas, há ponderações, coeficientes e assim um golo em Inglaterra ou Espanha vale mais do que um golo em Portugal, na Suíça, na Roménia, ou na Escócia…

Primeiro vieram as transmissões televisivas, depois a publicidade e o marketing, e não nos importamos com isso.
Depois os investidores, a cumplicidade política, os negócios da China e já ninguém se importa (o importante é descobrir um caminho ou viela que permita lucrar “qualquer coisita”) com o futebol, encantamento de gerações, arte e “inteligência em movimento”, desporto onde os impossíveis se sucedem e envolvem sentimentos, emoções, paixões…
Com “essas prendas” associou-se a violência e toda uma cultura que desvaloriza pessoas, o jogo, e o utiliza de forma contrária ao seu ADN e ninguém se importa, ficando somente a avidez do consumo viciante de atitudes e episódios lamentáveis.
Agora vão-nos levando para um absurdo sem sol, sem astros como Pelé e muitos outros, mas com muitas “estrelas cadentes”.

Surgiu agora mais uma criação inovadora e que marcará o futebol do futuro, segundo os seus criadores: a Liga das Nações.
Tudo muito bem delineado, muito bem apresentado, com cerimónia oficial luxuosa, com imenso “glamour”, aí está o futuro próximo.
Plateias selecionadas, muito profissionalismo e uma imagem “perfeita”, colorida e bela.
Mas, para refletir fica a “arrumação” das seleções por poder económico:
- primeiro os ricos/poderosos até um limite onde caibam sempre mais quatro países para manter imagem de fluidez, de abertura e de inclusão, idêntica em todos os grupos;
- depois os que aspiram a tornar-se mais ricos, os da ambição mais ou menos desmedida;
- a seguir, os remediados que procuram evoluir com alguns recursos e, quem sabe, espreitando um vento favorável ou bilhete de lotaria;
- por fim, os mais pobres, os que mais precisam de investimento para evoluir mas a que ninguém liga (uma grande Liga nunca liga a pequenas ligas).
E assim, formalmente, se organiza a democracia destes tempos onde “gurus” que nunca sentiram na face o vento do futebol, são contratados para gerir um negócio que dá milhões, como se fosse mais um produto de exportação.
“Pode o belo sonho futebolístico chinês tornar-se no nosso pior pesadelo?” (título do artigo de Álvaro Magalhães, O Jogo/28.01.2018).
O futebol é sempre muito mais.
Acredito que vai vencer mais este jogo muito difícil (com vícios fortes), graças à valiosa herança civilizacional que acabará por acordar mais gente, mais adeptos, evitando novas “barbáries” que nunca se devem repetir, por mais disfarçadas que se apresentem.
Que a inteligência artificial e a evolução social ajudem a preservar e a reforçar os valores da Humanidade.
Assim se contribuiu também para limitar condições de prepotência e vícios desviantes de poder pelo poder. Egoísmos infantis em idade adulta é patologia muito grave!
Viva o futebol e a emoção do jogo mágico e imprevisível.

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol
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