João de Deus sobre experiência na Índia: «Senti-me num filme de terror»

Futebol 27-01-2018 15:30
Por Elsa Bicho
Se há cinco meses dissessem a João de Deus que na Índia viveria experiência surreal, o treinador que passou pelo Gil Vicente, Sporting B e Nacional, entre outros, não acreditaria. De volta a Portugal, já sereno, crente de que novo desafio se lhe deparará, continua a achar que a experiência no NorthEast United não é para esquecer mas, certamente, para com ela aprender.

Por isso agora a partilha, a A BOLA.

João de Deus voou para Guwahati esperando ajudar o clube a evoluir. Mal chegou, na companhia de um adjunto, começaram as contrariedades. «O presidente quis fazer pré-época numa província e disse-lhe que queria ir dez dias antes para ver a logística necessária. Disse que não, fomos todos de véspera e depois não tínhamos campo. Trabalhámos num cuja relva ainda não tinha crescido. Quando regressámos treinámos em sintéticos e campos de cricket pois os do clube estavam cedidos ao Mundial-2017. A relação com os donos foi sempre difícil. Um não tinha disponibilidade e o outro, empresário na área dos perfumes, continua sem noção do que é organizar um clube. A situação começou a azedar quando os jogadores, sobretudo três deles, começaram a dizer que treinávamos muito tempo, que era muito trabalho e começaram a queixar-se a esse presidente. Para eles observação e análise dos adversários não faz sentido...», principia João de Deus, revivendo o deteriorar de relações.

«Houve um jogo em que perdemos 1-0 depois do guarda-redes, que era um dos tais três jogadores, parar a bola, entregá-la ao adversário que deu a colega para marcar. Não foi infelicidade. No final o presidente fez uma reunião com o plantel e staff para saber o motivo da derrota deixando os treinadores fora da conversa. Disse que não admitia. Que quem falava com a equipa era eu. No jogo a seguir voltámos a perder 1-0. De novo o mesmo guarda-redes saiu da área, fez falta descabida e foi expulso. Não foi infelicidade. Até porque no jogo a seguir, em que estava castigado, foi um dos outros dois jogadores a dar a bola ao adversário. Há vídeos disto. E tudo aconteceu com a conivência do dono. A rotura foi inevitável», contextualiza o técnico, descrevendo depois situação «inaceitável».

«Dia 2 de janeiro informaram-me que estava suspenso por conduta imprópria, acusando-me de racismo. Alegavam queixas de jogadores, acusações vãs e abstratas, sem nomes, sem provas. Senti-me num filme de terror. Como sempre guardo registo de todos os meus treinos, mensagens, emails, consegui rebater tudo. Valeu-me o dr. Nogueira da Rocha que foi ter comigo à Índia. Estivemos seis dias até rescindir. Eu, ele, o dono, o advogado do clube e um indivíduo que se dizia independente, que foi mediar as conversações mas que disse ser ex-polícia dos narcóticos do governo indiano. O desenlace aconteceu depois do Dr. Nogueira da Rocha dizer que tinham de provar as acusações no Tribunal Arbitral do Desporto (TAS), e que se não o fizessem lhes movíamos processo por difamação e danos morais», resume João de Deus, que chegou a Portugal dia 8 de janeiro com muito, mas com nada de bom para contar.
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