Good morning Vietnam (primeira parte) (artigo José Augusto Santos, 8)

Espaço Universidade 28-12-2017 17:48
Por José Augusto Santos
A Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP) tem relações institucionais, pedagógicas e científicas, com universidades de 41 países. No esforço de tornar mais abrangente o âmbito da sua internacionalização, a FADEUP pretende investir na Ásia, continente ainda pouco tocado pela nossa saga globalizante. Por isso, uma comitiva da minha faculdade chefiada pelo diretor da FADEUP – Doutor António Fonseca e que integrou a Presidente do Conselho Pedagógico – Doutora Olga Vasconcelos e eu próprio, deslocou-se à República Socialista do Vietnam.

A nossa deslocação ao distante país do sul asiático teve um duplo objetivo: (i) pronunciar uma série de conferências, e (ii) avançar no caminho do estabelecimento de protocolos que permitam a vinda de estudantes (fundamentalmente de mestrado e doutoramento) para a nossa faculdade. As três instituições de ensino superior conotadas com o ensino do desporto e educação física com quem tivemos contacto foram a Universidade de Desporto Bac Ninh (Hanói), a Universidade de Desporto de Da Nang e a Universidade de Desporto Ho Chi Minh (Saigão). Todas demonstraram vivo interesse em estabelecer relações institucionais sérias com a nossa faculdade o que está em linha com o prestígio internacional que granjeamos. É gratificante ouvir de responsáveis de universidades de desporto com vários milhares de alunos o reconhecimento da importância científica e pedagógica da FADEUP e o interesse em nos ter como parceiros privilegiados. Estar em 11º no ranking europeu e nos primeiros 40-50 no ranking mundial é motivo de responsabilização, sem dúvida, mas também de orgulho.

Fomos, quase de certeza, os primeiros europeus a chegar àquelas paragens, e foi o padre jesuíta português Francisco de Pina quem iniciou a romanização da língua escrita vietnamita que após a sua morte foi continuada por um jesuíta de origem francesa. Foi exatamente na cidade de Da Nang, que agora visitamos, onde Pina se estabeleceu e promoveu a sua ação quer literária quer missionária. Também no Vietnam, no delta do Mekong (sul de Saigão), que teve lugar uma das epopeias mais vincadas na história Pátria Portuguesa – o naufrágio do navio que levava Camões de Macau para Goa e a saga heroica do grande vate lusitano que nadou de braço erguido salvando os Lusíadas, obra seminal da cultura portuguesa.

Portanto, o Vietnam não é paragem desconhecida na nossa diáspora. Recentemente, um português de quem sou amigo, de seu nome Henrique Calisto, aterrou nesta terra e através da sua competência profissional elevou de alguns graus a proficiência futebolística dos futebolistas vietnamitas. Calisto deixou um rasto de profunda admiração no Vietnam.
Cheguei ao Vietname mergulhado nas memórias e estereótipos determinados pela força da idealização da guerra carreada pela filmografia que me entusiasmou desde jovem. Os mitos cinematográficos têm tanta força como outros mitos mais ou menos profundos. Por isso, e na linha de pensamento de Graham Green, esperava, ao sair do avião em Hanói, ouvir o estrondo dos rebentamentos das armas pesadas ou os estridentes estampidos das metralhadoras dos helicópteros de combate que mexeram fortemente comigo em dois filmes de referência – O Caçador e Apocalipse Now. Mas, logro absoluto, só encontrei paz e tolerância e um trânsito caótico que só não descamba em guerra urbana porque os vietnamitas cultivam, como ninguém, a paz e tolerância.

Embora, os meus mitos estivessem ausentes do Vietnam atual, o mais catalisador mito vietnamita continua fortemente vívido – Ho Chi Min. Normalmente, os grandes mitos políticos carregam uma dimensão de irracionalidade que os tornam fautores de sujeições acríticas, venerações dogmáticas, projeções ideológicas falsificadas. O mito de Ho Chi Min conjuga a veneração dogmática e a força exemplar. A sociedade vietnamita, politicamente socialista, supostamente laica e teoricamente desprovida das âncoras dogmáticas das religiões, manifesta uma arreigada sujeição à força mítica do seu herói da “libertação”. O culto de Ho Chi Min assume as caraterísticas de uma religião de estado. O problema cultural fundamental das sociedades ditas socialistas é favorecerem a emergência do culto da personalidade que tem as características dogmáticas de todas as religiões.

Logicamente que ao assimilar Ho Chi Min à vitória sobre franceses e norte-americanos, seria impossível que a dimensão mitológica não surgisse completamente transformada em veneração dogmática e religiosa. Ho Chi Min está perto dos deuses homéricos que conviviam portas adentro com todos os cidadãos gregos. Da atitude comportamental da juventude vietnamita transpira um ambiente social distendido sem sinais de qualquer tipo de repressão. Penso que eventuais tensões que existam entre as gentes mais a norte e outras mais ao sul estão esbatidas pela força política dos vencedores da guerra que permanece, ainda, muito vívida no tecido social do país. No entanto, estou em crer que a consciência política da turba multa, como de todas as turbas multas do mundo, deve ser algo assim como uma religião de fundo com um santo a quem poucos rezam.

Derivando dos estereótipos e preconceitos que trazia, procurei os jovens reunidos em grupos militarizados deslocando-se em formatura, controlados no corpo e no espírito e imbuídos de uma história salvífica repleta de heróis e carrascos. Pelo menos, ao nível que pude apreciar, a juventude vietnamita apresenta as idiossincrasias vigentes em quase todos os países – irreverentes nos gestos e atitudes, eternamente dependentes do mobile, efusivamente alegres, bonita e muito menos avantajada ponderalmente que a portuguesa e a europeia. Logicamente que todos vestem segundo a fashion europeia que é a que determina as tendências para todo o mundo. Começam, agora, a aparecer uns arremedos de moda asiática, mas que têm pouca penetração no resto do mundo.

Um dos nossos acompanhantes e intérpretes em Hanói, um estudante na Universidade do Desporto, mergulhou no sono numa das viagens protocolares. Desculpou-se pela falha informando que tinha estado toda a noite a estudar para a disciplina de Marxismo-Leninismo. Quando o espicacei perguntando-lhe se sabia que o Lenine ia para a cama com duas raparigas ao mesmo tempo, retorquiu-me com a clareza laminar: “Em Lenine não me interessa a sua vida pessoal, mas sim a sua mensagem política”. Com esta resposta mostrou uma forte consistência concetual e ideológica que aponta para a forte doutrinação desde os primeiros bancos da escola. A ideologia marxista é o pano de fundo de toda a formação escolar e universitária da juventude vietnamita. A segurança que evidenciou corresponde a uma clara localização política. Este jovem, talvez nunca na vida, seja permeável às ideologias liberais. Está profundamente formatado no respeito pelos ditames doutrinários que justificaram aquela que eles assumem como a luta da libertação e a supra dimensão ideológica – marxismo-leninismo – que a consubstanciou.
Não sei se a veneração a Ho Chi Min é gratidão ou adoração religiosa, talvez um pouco das duas.

O mito do pai da nação vietnamita permanece muito forte na sociedade, pelo menos na sociedade mais ao norte, embora as manifestações de reverência “religiosa” se estendam a todo o país. O mausoléu de Ho Chi Min, no centro de Hanói, replica o de Lenine no centro de Moscovo. Os russos hodiernos tendem a abandonar a adoração do mito fundador da república dos sovietes pois reconhecem que os sovietes trouxeram por arrasto o goulag. Hoje, a sombra dos grandes condutores – Lenine e Estaline – deixou de criar um nevoeiro de medo para se tornar numa esbatida memória de glórias passadas que tem a saga heroica da segunda guerra mundial como referência fundamental. O mausoléu do Lenine pode ser visto como um cenotáfio de um homem ideal que não existiu. Ali jaz o corpo de um ditador com todas as suas forças e fraquezas.

O mausoléu de Ho Chi Min embora similar na estrutura é, estou em crer, simbolicamente diferente do de Lenine pois consagra o grande condutor da guerra de libertação. O mito fundacional da nação incorporado em Ho Chi Min permanece indelével resistindo às poeiras do tempo.
Contudo, ao caminhar de Hanói para Da Nang, senti um sub-reptício esbater da idolatria a Ho Chi Min, não nas manifestações institucionais, mas na mente do povo, e uma certa perpetuação do mito americano que veio defender o país dos pseudo ou reais horrores do comunismo. Hoje, o comunismo não se vê; o capitalismo entrou em força no país e as grandes empresas globais tomaram conta da economia do país. Pode haver algum controlo do estado, mas o crescimento que se verifica não se compagina com planos quinquenais ou lógicas centralizadas de controlo absoluto.

Da Nang, no tempo da guerra do Vietname, era a estância de férias dos soldados americanos. Recuperavam a “tola” nas areias quentes e nas águas cálidas das imensas praias que se estendem por dezenas de quilómetros e regressavam à frente de combate recuperados para apanhar com um balázio na cabeça ou estourar com uma granada ou mina antipessoal. Na guerra do Vietnam morreram cerca de 58.000 americanos, mas mais de 2 milhões de vietnamitas. Balanço contabilístico doloroso que parece hoje esquecido pelos vietnamitas. Quer-me parecer que eles detestam mais os chineses que os americanos. Mas isso, são assuntos a abordar em outro artigo, bem como mais coisas desportivas, já que este vai longo.

José Augusto Santos é Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
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