O Jardim da Celeste... e o Futebol (artigo de Aníbal Styliano, 40)

Espaço Universidade 20-12-2017 17:07
Por Aníbal Styliano
Nas memórias de infâncias, recordam-se crianças a cantar “Eu fui ao Jardim da Celeste…" que integrava parte das Músicas da Carochinha…
Entretanto o mundo avança, as brincadeiras modificam-se, evoluem e novas atividades e valores conquistam mais adeptos.

Casos como “Raríssimas”, desorganização de um Estado que teima em manter-se centralista, míope, anquilosado, sistematicamente com tragédias evitáveis ou mais controláveis, perpetuação de impunidades e de privilégios para lóbis, onde o poder lhes cai no regaço, por milagre de rosas ou de espinhos, são alguns aspetos dos dias de hoje.
Critica-se quem denuncia abusos para desviar atenções e manter a alienação e a fome de notícias, cada qual a mais escabrosa, a mais terrível e ofensiva à moral dita pública, onde os fundamentos nunca estão presentes.

O futebol é um exemplo paradigmático da nossa sociedade, onde as lágrimas e emoções são televisivas e a violência é em direto, escondendo realidades que deveriam provocar alterações e uma constante movimentação contra a corrupção e a indiferença.

Miséria há muita.

Ignorância serve-se a frio e a todos os momentos.

Injustiças são o pão de cada dia.

Organização, competência, verdade… Provavelmente só nas Músicas da Carochinha…

Ajustando progressos, temos um mundo virtual sem rugas nem fome, e um mundo real com miséria física e mental.

Uma novilíngua é constantemente aperfeiçoada para justificar, com resiliência, a vontade dos membros que dirigem a espiral kafkiana e que estão sempre prontos para esconder, mistificar, com estatísticas perfeitas, coloridas (mesmo que se perca o fio à meada). Contraditório, nunca!

São várias as faces desta portugalidade.

Algumas horrendas e perfeitamente anacrónicas, só mantidas à custa de privações tão fortes que tentam esconder o impossível real e dramático sempre com inúmeras e “criativas” decisões.

Défices, dívida pública, cativações, colocações de portugueses ilustres nos cargos máximos desta pequena galáxia terrena (ao serviço de DD- Donos Desconhecidos), permitem o jogo infantil do “faz de conta”… só as consequências é que se tornam um pouco mais complexas.
Sim, há serviços a que nem todos têm direito a um acesso com qualidade… Há sempre uns poucos que gastam tanto e não sobra nada…
A capacidade de planear está dependente ou da intenção de se apropriar de algo ou, como deveria ser, da intenção em servir o melhor possível a comunidade a que pertencemos.

Para não me alongar em imagens sem Photoshop do país que temos, novamente com o exemplo do futebol, vou tentar clarificar melhor a capacidade de previsão dos nossos decisores, ELEITOS!?
O Gil Vicente Futebol Clube, há mais de uma dezena de anos sofreu uma sanção desportiva, por uma questão de aludida incorreção, na inscrição de um atleta.

A sanção foi a despromoção de divisão.

Já tivemos inúmeros casos destes ou parecidos (alguns mantendo juristas em lugares de destaque mesmo quando a justiça, passados anos, tenha desqualificado como ilegalidades, ações que deveriam no mínimo impor exclusão de funções, indemnizações elevadas e responsabilização adequada).

Infelizmente, são várias as situações e não temos a convição de que tenham parado…

Voltando ao Gil Vicente (que penso terá ganho a questão também em instâncias internacionais), foi-lhe atribuído o direito a ingressar na principal Liga do Futebol Profissional Nacional.

Ainda recentemente se passou algo idêntico com o Boavista FC, finalmente repondo a justiça mas com um prejuízo avultadíssimo e irrecuperável, inclusive ao bom nome da instituição.

Como não jurista decidi analisar esta situação em termos de capacidade de gestão e de planeamento das instituições que têm a função de proceder à reintegração do clube na Liga I.

Como o clube só poderá ser reintegrado em 2019-2020 (a nós leigos custa-nos entender estes prazos para se cumprir a justiça e logo em instituições que, muitas vezes, tentam ser mais papistas do que o Papa dando ideia de um afã de justicialismo exemplar, logo uma contradição concetual), ficamos a saber por notícia de jornal que um parecer do TAD alude a que “por força de decisão judicial”(questão de prazos após a sentença) o clube só deverá ser integrado nessa Liga na “época desportiva seguinte à que se encontra em curso aquando do trânsito em julgado da sentença judicial”…(in JN/15.12.2017, pág. 26). Assim cumpre-se também o Regulamento das Competições da LPFP.

Regulamento que pode ser alterado nos locais e momentos certos.

Mas o que verdadeiramente me espanta, é que as instituições que tutelam o futebol possam colocar a questão nestes termos:
- O clube entra em 2019-2020 e, na próxima época, seja no CNS, se descer de divisão este ano, ou se subir este ano à Liga I, porém os seus jogos nessa época de transição (2018-2019) não contam para efeitos de classificação!

Muito difícil de compreender como conciliar verdade e ética desportiva com tal sugestão… A não ser numa eventual estratégia de confronto e de luta pelo poder entre instituições, o que seria ainda mais ridículo.

A dificuldade de planear muitas vezes faz com que aparentes decisões excelentes resultem em desastres de consequências imprevisíveis.
Não bastam boas vontades.

É urgente refletir que qualquer alteração num projeto, num plano, num regulamento, só pode ser equacionada num exaustivo quadro de implicações decorrentes dessa medida, pois pode colocar em causa a coerência estrutural

Como não tem sido seguido esse cuidado e, periodicamente, sucedem-se casos, coloco as seguintes questões:

- Se os jogos do Gil Vicente não contarem para efeitos classificativos não poderão surgir suspeições graves de viciação de resultados, de diversas influências nos jogos para com adversários, desmotivação competitiva generalizada, má imagem da competição, inclusive castigos e ou lesões, ou até uma oportunidade unicamente fantástica para promoção e venda de jogadores para diversos mercados?

- Será que se vai criar grande margem de suspeitas sobre violação dos princípios basilares das competições?

Não acredito que vá acontecer, tanto mais que, na minha opinião, seria uma cabal evidência do total aprisionamento do futebol-jogo pelos interesses exclusivos do negócio.

Ouvi dizer que a nível de seleções já foi tentado esse sistema, contudo é totalmente diferente: nos casos em que os países organizadores estão dispensados de competir para apuramento, esses jogos são contabilizados como “particulares” e, por isso mesmo, idênticos aos que todos os países fazem para se preparem melhor para a fase final, sem efeitos nem riscos de subversão de competição.

Do futebol para o Serviço Nacional de Saúde, ou para a Educação, Segurança Social, ou outras áreas, o planeamento será sempre determinante, mas é preciso muita competência, muita investigação, muita sabedoria…

Canções da Carochinha não bastam para o Jardim da Celeste ficar saudável e harmonioso.

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol
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