Futebol, Arbitragem e Repentes de Ditadura (artigo de Aníbal Styliano, 38)

Espaço Universidade 26-11-2017 17:06
1. Futebol e Arbitragem, que tempos estes!

O futebol atravessa um momento conturbado onde, de forma galopante, o crescimento do fator negócio atinge dimensões poderosas que pulverizam tudo o que não for lucro.

Os protagonistas, os guardadores do talento (aqueles que dentro das quatro linhas inventam e criam a magia do jogo) são desvalorizados por um futebol não jogado mas falado, com “obscenidades” táticas e linguísticas, dos novos “artistas” e novas “equipas” que não conseguindo dominar a bola rematam palavras e frases enviusadas, de sentido único porque incapazes de alternativa à trivela.

Fazedores de opinião, pois os golos carecem de outra sabedoria, procuram impor novilíngua para se tentarem afirmar como casta pseudo infalível.

Os desaparecidos “Donos da Bola” regressaram para integrar equipa reforçada, com novos investidores: os Donos de Tudo.

Excluídos, procuram, como vírus acordado depois de hibernação prolongada, uma aparição surpreendente e, quem sabe, dominadora.

Para isso, usam a habitual estratégia dos que preferem não pensar: destruir tudo para edificar de novo de maneira mais favorável.

Presidentes de clubes, treinadores e jogadores, porque atuam em equipa, são adversários mais complexos.

Árbitros porque mais isolados, surgem como universo mais apetecível para alastrar estratégia conveniente.

O caos que favorece todo o tipo de alienação é a primeira fase a instalar.

É imprescindível salvaguardar a dificuldade do trabalho dos árbitros, bem como reconhecer o desempenho de funções complicadas, em condições sempre adversas.
O árbitro é o elemento do jogo de futebol que mais tempo dedica à sua formação e ainda o que faz uma análise criteriosa das suas prestações com a colaboração de especialistas.

Quem conhece as exigências que se colocam ao juiz de um jogo de futebol, pode identificar uma ou outra falha (como a todos os elementos de um jogo), mas não deve sistematicamente, de ânimo leve, reforçar teorias da conspiração… se as houver, há mecanismos e instituições para as erradicar.

Sem árbitros não há jogos.

Eles organizam a espontânea instabilidade que a bola cria, numa partida imprevisível, com sentido e com critérios. São imprescindíveis.

Lamento que, nas primeiras fases do percurso de um árbitro, sejam tantas as dificuldades, tantas as carências que acabem por ditar o seu afastamento… há, inclusivamente, diversos riscos de segurança.

Contrariando vozes de colunistas afamados, conheci muitos jovens que confessavam gostar de ser árbitros, alguns com muito talento, mas fruto das realidades e da ancestral falta de apoio, abandonaram onde poderiam ter atingido níveis de excelência.

Tal e qual como nos jovens jogadores, quando o “scouting” se reporta a um universo reduzido, as probabilidades de detetar talento é muito mais reduzida.
Talvez resida aí um primeiro e importante problema por resolver.

Como em qualquer pirâmide que se quer estável, a arbitragem precisa de se afirmar à sociedade com uma imagem de serena competência, de inquestionável dignidade.

Sem claques ou grupos de adeptos não organizados, têm de ser reconhecidos por todos como imprescindíveis e de confiança.

O erro é uma inevitabilidade da humanidade mas é também pela aprendizagem que o erro permite o reforço das competências e limita as margens de falhar.

As instituições que os representam não podem revelar incapacidades, egocentrismos, precipitações, parcialidades, estranhas cumplicidades ou afirmações disformes. É necessário valorizar uma imagem que se deve destacar pela razão e pela competência.

Antes de falar, pensar o que dizer e o que poderá causar à arbitragem.
Aí se colocam as eleições/escolhas dos seus representantes de classe.

Comportamento adequado, sem “aproximações ou desvios” a clubes ou correntes de opiniões, imparcialidade, reflexão séria e ponderada, antes de anúncios precipitados que se revelam, posteriormente, desastres comunicacionais.
Os árbitros nunca podem estar contra ninguém.

Têm o direito e o dever de pedir, nas devidas instâncias, eventuais responsabilidades a quem os caluniar ou pressionar indevidamente.

Processos claros, transparentes, sem ocultações mas antes com divulgação imediata de problemas surgidos (até a nível de tecnologias) é uma forma de se destacarem na paisagem pela sensatez, pelo rigor e nunca como “falsas virgens ofendidas” ou corporativismos caducos, completamente fora de prazo.

Sem dependências, com liberdade, os árbitros devem ser um dos vértices da estruturação do futebol que podemos ter, contribuindo para o elevar, incluindo internacionalmente… Mas também podem causar o inverso.

Identificar pequenos problemas, como por exemplo: penalizar com cartão jogador que sai para ser substituído com calma exagerada quando se pode contabilizar o tempo e acrescentar ao tempo de compensação – ou até substituições sem paragem do jogo –, castigar de igual forma quem tira a camisola para festejar um golo e quem tem entrada muito dura… são apenas algumas situações muito simples (apresentadas publicamente por amigos meus e que deveriam seguir para a International Football Association Board - IFAB).

Prever e prevenir são capacidades que se exigem que os árbitros dominem com mestria.

Portugal, com mudanças sucessivas, possui alguns excelentes árbitros, possui jovens jogadores e muitos treinadores talentosos, mas faltam condições para estabilizarmos nos mais elevados patamares internacionais (a Seleção Nacional é um bom exemplo a ser seguido noutros domínios):

- Competência para organizar e gerir eficientemente as estruturas do nosso futebol, de forma sistemática, adequada, mobilizadora e inclusiva, em permanentes diálogos para intervenções consensuais e globais… Pensar futebol, sempre.

Em Inglaterra, criou-se recentemente uma comissão com 3 elementos (ex-árbitro, ex-jogador, ex-treinador) para observarem vídeos dos jogos, onde se identifica quem simulou faltas para que na jornada seguinte esse jogador seja penalizado e impedido de jogar próximo desafio. Este é um bom exemplo porquanto procura interferir em aspetos essenciais da verdade do jogo e já com resultados efetivos.

Em relação ao VAR e à sua aplicação nos 7 países (outros se seguirão) que o adotaram teria sido preferível definir critérios muito mais precisos, mais tempo de experiência, colocar somente ex-árbitros como VAR após formação mais alargada, uniformizar condições técnicas para todos os jogos e só depois de testar devidamente se poderia generalizar ou abandonar.

Destaque-se que o Presidente da UEFA, recentemente, voltou a manifestar a sua oposição à utilização neste Mundial da Rússia que se avizinha, caso a IFAB decida favoravelmente a presença do VAR.

O sistema nasceu imperfeito e mesmo com vantagens significativas, continua a revelar defeitos inadmissíveis por falhas de intervenção humana: a maioria de resultados acertados nunca pode justificar erros, mesmo que em menor número…

2. Sementes de ditadura.

Ao analisar as funções e dificuldades dos árbitros fomos surpreendidos por uma notícia impensável: os árbitros ameaçaram parar se não houver silêncio nas críticas que lhes fazem.

Perplexos, jugávamos ter acordado noutro tempo longínquo, de ditadura feroz, persecutória e com lápis azul.

Por momentos, ficamos atónitos, refletindo com incredulidade sobre que acabáramos de ler.

A memória viajou para épocas já resolvidas mas também para páginas do livro 1984, de George Orwell, bem como para outras paragens, de graves controvérsias, como Coreia do Norte…

Como afirmou Rob Riemem (O Eterno Retorno do Fascismo) há elementos visíveis de tentativas de regresso a passado trágico que sinceramente, só pensávamos como discussão académica… Afinal é preocupante.

Segundo notícias de jornais, houve uma reunião na APAF, com a presença do Presidente do Conselho de Arbitragem da FPF e com diversos árbitros.

Foi divulgado, como ameaça (?) que se num prazo de 20 dias surgirem críticas, insinuações “sobre a honorabilidade” dos árbitros, será aplicado um boicote aos jogos da Liga.

Lemos, relemos e ficamos espantados!

Por momentos, pensamos ser uma provocação jornalística, uma abusiva interpretação dos factos para chamar a atenção de qualquer campanha publicitária, ou ainda uma ironia com base no modelo de Kim Jong-Un.
Essa comunicação foi mais longe e procurou categorizar o universo de presumíveis autores não permitidos, bem como impor abstenções de linguagem constantes de uma lista/index de interdição vocabular… ignorância de quem desconheceu ou desvalorizou os efeitos perversos da censura, da ditadura e das torturas.

Lamentável presunção, santa ignorância.

Sem dúvida que as pessoas devem, dentro do possível, tentar manter o controlo verbal, evitar o insulto soez, mesmo sendo o futebol um espaço mítico de emoção… Contudo, as paixões são sempre outra dimensão.

A reacção momentânea e virulenta, não sendo agradável, surge como espontânea em função do futebol ser também um altifalante simbólico da sociedade, logo um espaço de libertação total, ocasional, esporádica.

Desagradável para os visados mas sempre com possibilidade de recurso para as devidas instâncias quando sintam a honorabilidade ferida, como direito de todos os cidadãos.

Assim se funciona em democracia e em legalidade.

Criar espaços fora da “legitimidade social”, têm sido vontades de “pequenos ditadores”, ingénuos e impreparados, que se presumem como grupo “especial”.
A eventual criação de gabinete jurídico, tipo Big Brother, para analisar todas as declarações públicas que entendam penalizar as imagens dos árbitros, para responsabilizar “civil e criminalmente” quem colocar em causa o bom nome do agente da arbitragem traz à memória, a todos os cidadãos com certa idade, os dramáticos tribunais especiais…

E se começassem por instaurar regras e códigos de conduta com rigor e se penalizassem e investigassem quem desprestigia a classe dos árbitros, os dirigentes que tomam atitudes dúbias, os que se deixam envolver em práticas consideradas pouco recomendáveis (a acreditar nas notícias publicadas)?

Ou seja, e se o rigor começasse por dentro e com transparência não seria a melhor forma de acabar com insultos generalizados?

Não seria mais benéfico divulgar exemplos positivos?

Aos intervenientes no universo da arbitragem exige-se também capacidade para saber manter equidistâncias, liberdade e independência.

Uma arbitragem personalizada, assente na responsabilidade, na competência, no rigor, é imprescindível ao futebol ajudando-o a manter-se livre de influências de qualquer tutela abusiva… mas sempre integrando o universo da FPF/Liga e nunca como órgão à margem.

Os representantes da classe se imparciais, tranquilos, falando com serenidade e com a clareza de quem sabe o que diz, sem se deixarem envolver em afinidades ou eventuais ofertas, serão muito importantes para garantir um bom serviço ao futebol, que precisa de independência, de quem o pense no caminho do rigor, da verdade, mesmo sabendo que, como humanos, surgirão sempre falhas naturais, em todos os agentes desportivos, do jogador ao treinador, do dirigente ao árbitro…

Tenho vários amigos árbitros com os quais gosto de aprender, aos quais reconheço muita competência, trabalho exaustivo e dedicação.

Por esses e pelos muitos que não conheço e que se dedicam diariamente com total entrega, lamento que possamos ficar fora do quadro de árbitros do próximo mundial na Rússia… Alguém não terá feito seu trabalho devidamente!

Uma arbitragem sem donos nem “amigos da onça”, com dimensão humana, técnica e cultural para compreender a envolvência do jogo, com juízes bem preparados para gerir uma manifestação tão intensa como um jogo, fazem falta e são muito necessários.

Mas também se torna imprescindível uma imagem de seriedade, de uma vida sem “elevadores” (daqueles de que Goethe pode servir como analogia com o seu Fausto) pois será um passo decisivo para um futebol renovado, original e fantástico.

Recorda-se que tudo ganhou maior foco após a publicação de artigo sobre o “clima de ódio” que, inclusivamente, levou o Presidente da FPF à Assembleia da República.

Lamenta-se que em vez de terem surgido planos e indicações pragmáticas para melhoramento urgente, a situação se agrave diariamente, mesmo com competições paradas!

Pensar antes de agir é uma estratégia que pode ser muito útil para todos e que evita desperdícios desmoralizantes.

Que dirão os políticos, permanentemente visados (em muitos casos, infelizmente com razão), quando publicações e reportagens televisivas os ridicularizam, com base nas suas contradições, afirmações, desmentidos e imparáveis suspeições?
Imaginemos que também começam a criar códigos de silêncio e boicotes?

Deixem as “orquestras” funcionar, ajudem-nas a manter maestros e músicos competentes e criem condições para novas inspirações.

Grave, muito grave, foram as tragédias dos incêndios assassinos e as inúmeras impunidades que se vão diluindo sem que façamos boicotes importantes…
Finalmente, e sempre limitada por constantes pormenores técnicos, seria útil uma atenta vigilância e ação sobre tantos sinais exteriores de riqueza, sempre por investigar…

Como dizia o meu saudoso pai: Tenham vergonha na cara!

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol
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