Fernando Pimenta (artigo de José Augusto Santos, 6)

Espaço Universidade 31-10-2017 17:47
Por José Augusto Santos
Há campeões que o são pela sua valia desportiva, mas há os especiais que, além de serem grandes desportistas são seres humanos excecionais que funcionam como contraponto à desumanidade que todos os dias nos entra pela porta dentro através dos mass media. Fernando Pimenta poderia vangloriar-se dos seus títulos individuais que são expressão de uma carreira ímpar que o afirmam como “o maior canoísta Português de todos os tempos”, mas não teve dúvidas em eleger o êxito como o Emanuel Silva, nos Jogos Olímpicos de Londres, como o zénite da sua valia competitiva.

Demonstrou, assim, uma elevada consciência da valia relativa dos seus feitos e uma humildade, que só os grandes têm, ao trazer à colação, neste momento singular em que se afirmou como campeão do mundo, o êxito com o seu amigo/rival. Sou daqueles que defende que a competição entre pares é a melhor forma de promover o desenvolvimento desportivo de um país. Quanto mais canoístas se apresentarem no terreno da liça para disputar com o Fernando Pimenta o cetro do melhor, mais ele se empenhará no esforço de não perder esse cetro. Quem ganha com essa emulação constante? Obviamente Portugal, que cresce na firmação internacional da sus expressão desportiva.

O Fernando é um lutador. Começou desde muito novo a lutar. Começou a lutar, antes de mais, contra as suas próprias insuficiências. Era uma criança hiperativa com manifestas incapacidades de coordenação motora. Quando chegou ao clube para se iniciar na canoagem, nos programas de iniciação que permitiam dezenas de crianças de Ponte de Lima e arredores ter contacto com a modalidade, a sua hipertonia motora dificultava-lhe o domínio dos gestos técnicos básicos que as outras crianças controlavam com facilidade. As suas apraxias e distonias provocavam quedas frequentes à água. Mas, ao contrário de outras crianças que viravam e ficavam a pasmar sobre a sua “aselhice” motora, o Fernando virava e de imediato se metia outra vez no kayak para de novo virar e de novo subir para o kayak. Evidenciou, desde cedo, que convivia mal com o inêxito e tudo fazia para o ultrapassar.

Dos muitos jovens que com ele se iniciaram na canoagem, ele seria, sem dúvida, um dos menos aptos para uma eventual permanência nos quadros de formação do clube. Contudo, Hélio Lucas, o seu treinador de sempre, viu nele a força interior que o distinguia dos demais jovens. Embora o corpo de treinadores tivesse excluído o Fernando Pimenta, o Professor Lucas apostou nele, antevendo a força indómita que caracteriza este campeão. Depois da fase de iniciação à canoagem, o Fernando regressa a casa a lamber as feridas da sua inaptidão canoística. Qual é o seu espanto quando vê entrar porta dentro o responsável do clube a convidá-lo para integrar o quadro de atletas jovens. “Eu? Porquê eu se fui dos piores?”, questionava o nosso campeão.

A aposta de Hélio Lucas deu certo. Deu-nos, para já, 70 medalhas em Jogos Olímpicos, Campeonatos do Mundo, Campeonatos da Europa e Taças do Mundo. Posso afirmar, sem receio de me enganar, que Fernando Pimenta é o atleta mais medalhado de toda a história desportiva portuguesa. E ainda só agora a procissão saiu do adro. Mas, quem é hoje em dia o Fernando Pimenta? É aquele ser humano que pede ao treinador: - “Professor, por favor marque o treino nos próximos 3 dias para as 7 da manhã, pois tenho de ir ajudar o meu avô na apanha da azeitona”. É o mesmo que abre as portas de casa ao amigo canoísta de uma ilhas Açorianas e ele aí permanece anos ficando a fazer parte da família. É o mesmo que vai de escola em escola mostrar vídeos de canoagem e fazer palestras sendo recebido em delírio pelos alunos e mantém a mesma humildade do primeiro dia. É o mesmo que recebe um campeão egípcio que não tem condições de treino no seu país e chega a Ponte de Lima para treinar com o Fernando debaixo da égide do Hélio Lucas. O nosso campeão dá guarida ao canoísta egípcio e, quando o limite da estadia se aproxima e o canoísta africano tem de se ir embora por não ter vínculo de trabalho, Fernando Pimenta bate de porta em porta até conseguir trabalho para o kayakista das pirâmides. É o mesmo que tem utilizado a sua força política, que é muita, para carrear para o seu clube as condições que fazem do Clube Náutico de Ponte de Lima, o clube com melhores condições de Portugal e um dos melhores do mundo.

Ao falar do Fernando Pimenta não posso deixar de falar do Professor Hélio Lucas. São as duas faces de uma mesma moeda. Já os quiseram separar, pois, um campeão como o Fernando, tem muitos putativos pais a quererem mostrar que a sua paternidade é melhor que a do vizinho. Esquecem-se que a carreira de um campeão não pode ser separada da sua vida afetiva, convivial e relacional. Hélio fez crescer o Fernando como campeão e como homem. Ainda hoje, as exigências de treino do Fernando condicionam, totalmente, a vida de Hélio Lucas. O Hélio vive a pensar, dia-a-dia, hora-a-hora, na melhor forma de aplanar os caminhos para o êxito do Fernando. Hélio Lucas vive de tal forma absorvido pelas exigências de treino do Fernando Pimenta que muitas vezes se esquece de si próprio.

A primeira vez que o Fernando Pimenta foi campeão da Europa, no final da prova, aproxima-se do Hélio para o abraço de gratidão e diz-lhe bem alto: - “Professor, esta é a sua prenda de anos. É a primeira de muitas que lhe hei de dar”. O Hélio Lucas tinha-se esquecido completamente do dia do seu aniversário, o Fernando não. O Fernando Pimenta é orgulho de todos os portugueses e, se a valia das várias modalidades desportivas for colocada num plano de igualdade, então os jornalistas de todos os meios de comunicação de massas deveriam acompanhar o dia-a-dia de quem mais se afirma no plano internacional da excelência desportiva. A ditadura do futebol não pode fazer esquecer que a excelência na canoagem não se consegue obter com um treino de lazer. Seria socialmente importante acompanhar um dia de treino do Fernando Pimenta, para todos os portugueses apreciarem o sentido quase monástico do treino de um canoísta de elite.

A tríade Treino, Descanso, Alimentação, impõe ao Fernando Pimenta um ritmo de vida em que se tem de privar de todos os prazeres mundanos e habituais nos jovens. Ele aceita bem todos os constrangimentos que a sua prática desportiva lhe impõe, pois sabe que os frutos que colhe pagam bem toda a dureza do seu treino e são muito mais saborosos que as mundanidades que caracterizam as sociedades atuais. Ao Hélio e ao Fernando Pimenta deve Ponte de Lima o seu estatuto de relevância internacional. Ambos, por motu próprio, estão fora dos areópagos políticos, mas, mal andarão os homens que dirigem a res publica se não derem a estes homens todas as condições para continuarem a honrar Ponte de Lima e Portugal.

José Augusto Santos é Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
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