A grande herança (artigo de José Antunes de Sousa, 86)

Espaço Universidade 25-10-2017 11:35
Por José Antunes de Sousa
Há dias, no contexto do campeonato mundial de sub17 a decorrer na Índia, um dos últimos gigantes a despertar, fascinado, para o fenómeno planetário do futebol, apareceu num dos vários canais desportivos aqui no Brasil um jovem repórter, tomado por um rubor súbito da surpresa, escancarando um indisfarçado contentamento pelo facto de ter encontrado, ali em tão remotas e improváveis paragens, vários cidadãos nativos expressando-se numa português capaz de fazer corar a muitos que o têm como língua materna. E acrescentava, com um comovente garbo de iniciante, que Goa, onde acabara de se alojar a selecção brasileira,, tinha sido possessão portuguesa (ele disse colónia, quem sabe se num ínvio remoque de um difuso ressentimento) até 1961.

É claro que não houve uma única menção a Nheru que, pela calada da madrugada e aproveitando-se deslealmente de tão gritante assimetria de forças em confronto, obrigou o desamparado Vassalo e Silva a uma inglória e dolorosa claudicação. Trata-se, porém, de uma omissão significativa: como se, implícita, estivesse a universal convicção, tingida por uma ideologia do tiro, de que a razão está sempre do lado do colonizado, esquecendo, no caso vertente, que nem a Índia era uma colónia de Portugal (fora-o de outros|) nem Goa era em rigor uma colónia no sentido pejorativo do termo: a esmagadora maioria dos goeses desejavam continuar portugueses – mas foram amordaçados em tão exótica e ousada pretensão pelo cio expansionista de um governo que mal tolerava ter como vizinha a diferença. E, nesse sentido, não é mera curiosidade estatística o facto de termos em Portugal na liderança do governo um primeiro-ministro cujo pai nasceu em Goa (Orlando da Costa).

Mas sigamos em frente, que o mais interessante da reportagem está para vir. Em jeito de triunfal confirmação de tão imprevista descoberta, o jovem repórter brasileiro, ufano do seu troféu, exibia, à continuação, uma entrevista que, afinal, era um testemunho, talvez até um manifesto cultural, com um colega goês que, expressando-se num irrepreensível português, capaz de deixar orgulhoso o próprio Camões que bem conheceu aquelas paragens – nem sequer um traiçoeiro sotaque a denunciar-lhe a lonjura! - teceu um dos mais comoventes elogios a Portugal e ao povo português e à sua maneira tão particular de se relacionar com a diferença.

Dizia o insuspeito jornalista goês (eles fazem questão de se afirmarem goeses, que não propriamente indianos):”nós aqui, em Goa, que foi território português até 1961, vivemos uma situação cultural muito especial” - singular, acrescento eu. “...há aqui católicos, hindús e muçulmanos e todos vivem em perfeita harmonia: esta a grande herança que recebemos de Portugal”. E, incluindo nesta referência o povo brasileiro, que as boas maneiras ficam sempre bem, desejou sorte à sua jovem selecção e prognosticou duas coisas: sucesso e apoio dos goeses. Comovente, sem dúvida!

E dei comigo a pensar, com uma lágrima indiscreta a aflorar ao canto do olho: se nada mais tivéssemos deixado em Goa como marca indelével da nossa presença, isto teria sido já o suficiente para nos deixar orgulhosos e de consciência tranquila. De facto, pensava eu, Portugal é muito mais que esta faixa rectangular nos confins da Europa, uma mera porção de território: Portugal é, antes do mais, uma ideia, se calhar, uma emoção que, qual átomo de Régio, se soltou por esse mundo fora, numa espécie de suspiro pelo infinito. O português debruça-se sobre o parapeito da mítica janela do Oceano e espreitou e não cessa de espreitar mundo e mais mundo – mas não para dele se apoderar, para sacar, mas para dar-se. Dar-se na íntima e genuína disponibilidade para o diálogo cálido dos corações.

Por isso há o Brasil, esta obra-prima da arquitectura dos afectos, que logrou esta dinâmica concertação das diferenças na vivência unitária desta “amorável” pátria. E aí está essa Goa, na sua invejável ‘harmonia dos contrários”, a confirmar a nossa histórica e singular aptidão para a arte das simetrias. Portugal: terra de geógrafos da Alma! Portugal: a “Mátria” de todas as nossas pátrias – incluindo esta que é a nossa, Portugal!

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
Ler Mais
18:59  -  17-10-2017
Check – in para o sonho (artigo de José Antunes de Sousa, 85)
00:36  -  06-10-2017
Os atalhos da crença (artigo de José Antunes de Sousa, 84)
16:35  -  25-08-2017
Ninho de cucos (artigo de José Antunes de Sousa, 83)
10:57  -  31-07-2017
Jogo sujo (artigo de José Antunes de Sousa, 82)
13:56  -  27-06-2017
A velha aliança (artigo de José Antunes de Sousa, 81)
08:22  -  05-06-2017
A receita do Vitória (artigo de José Antunes de Sousa, 80)
17:59  -  22-05-2017
Ambição de primeira (artigo de José Antunes de Sousa, 79)
19:00  -  09-05-2017
A febre amarela (artigo de José Antunes de Sousa, 78)
16:39  -  28-04-2017
Promessa c(o)mprida (artigo de José Antunes de Sousa, 77)
20:08  -  17-04-2017
O bispo da Luz (artigo de José Antunes de Sousa, 76)
16:50  -  05-04-2017
As declinações semânticas da bola (artigo de José Antunes de Sousa, 75)
18:22  -  25-03-2017
Quando o medo veste de azul (artigo de José Antunes de Sousa, 74)
21:48  -  07-03-2017
Admirável mundo da bola! (artigo de José Antunes de Sousa, 73)
15:29  -  07-02-2017
Os ardis da crença (artigo de José Antunes de Sousa, 71)
20:19  -  17-01-2017
A aporia do inferno (artigo de José Antunes de Sousa, 70)
16:34  -  03-01-2017
Ninguém me (L)iga! (artigo de José Antunes de Sousa, 69)
12:42  -  17-12-2016
A síndrome do cometa (artigo de José Antunes de Sousa, 68)
00:38  -  04-12-2016
In articulo mortis (artigo de José Antunes de Sousa, 67)
11:21  -  24-11-2016
O terceiro anel (artigo de José Antunes de Sousa, 66)
16:26  -  14-11-2016
Mais uma estrela cadente? (artigo de José Antunes de Sousa, 65)
16:22  -  02-11-2016
Afectuoso capitão (artigo de José Antunes de Sousa, 64)
12:04  -  25-10-2016
O profeta (artigo de José Antunes de Sousa, 63)
16:30  -  08-10-2016
A alquimia dos corpos (artigo de José Antunes de Sousa, 62)
17:02  -  28-09-2016
O artista (artigo de José Antunes de Sousa, 61)
09:26  -  06-09-2016
«Os putos» (artigo de José Antunes de Sousa, 60)
16:39  -  25-08-2016
O Rafa e a rifa (artigo de José Antunes de Sousa, 59)
14:24  -  31-07-2016
Prognósticos: uma certa (meta)física (artigo de José Antunes de Sousa, 57)
16:47  -  17-07-2016
O milagre português (artigo de José Antunes de Sousa, 56)
14:55  -  05-07-2016
Reino (Re)Unido (artigo de José Antunes de Sousa, 55)
20:54  -  28-06-2016
Chilenos: uma lição de fé! (artigo de José Antunes de Sousa, 54)
15:40  -  25-06-2016
A demasia (artigo de José Antunes de Sousa, 53)
16:42  -  19-06-2016
A canela do Elias (artigo de José Antunes de Sousa, 52)
16:46  -  13-06-2016
Redondo (des)acordo (artigo de José Antunes de Sousa, 51)
10:23  -  04-06-2016
A síndrome do dragão (artigo de José Antunes de Sousa, 50)
00:49  -  20-05-2016
A trindade do costume (artigo de José Antunes de Sousa, 48)
19:08  -  13-05-2016
Sinal da Cruz (artigo de José Antunes de Sousa, 47)
08:44  -  13-05-2016
Sinal da Cruz (artigo de José Antunes de Sousa, 46)
20:38  -  05-05-2016
Atlético de Madrid: assalto ao Olimpo (artigo de José Antunes de Sousa, 45)
15:46  -  29-04-2016
As dores do fim (artigo de José Antunes de Sousa, 44)
00:00  -  23-04-2016
“Quem não arrisca não petisca” (artigo de José Antunes de Sousa, 43)
10:11  -  09-04-2016
Filhos e enteados (artigo de José Antunes de Sousa, 41)
16:55  -  31-03-2016
Homenagem póstuma a Cruyff (artigo de José Antunes de Sousa, 40)
16:47  -  24-03-2016
Benfica: morte ou glória? (artigo de José Antunes de Sousa, 39)
09:44  -  12-03-2016
Formação: em série ou a sério? (artigo de José Antunes de Sousa, 37)
16:59  -  05-03-2016
A coroação do infante (artigo de José Antunes de Sousa, 36)
00:33  -  28-02-2016
Diego Simeone: o grande motivador (artigo de José Antunes de Sousa, 35)
21:07  -  21-02-2016
Clube: o lar do povo (artigo de José Antunes de Sousa, 34)
23:23  -  14-02-2016
A «matança do borrego» (artigo de José Antunes de Sousa, 33)
16:57  -  08-02-2016
Injustiça e solidão (artigo de José Antunes de Sousa, 32)
16:55  -  01-02-2016
Profetas da desgraça (artigo de José Antunes de Sousa, 31)
16:27  -  25-01-2016
«Olhos de lince» - (artigo de José Antunes de Sousa, 30)
15:33  -  19-01-2016
Os mochileiros (artigo de José Antunes de Sousa, 29)
10:32  -  07-01-2016
O Palhaço de Viena (artigo de José Antunes de Sousa, 28)
20:56  -  28-12-2015
Não há circo! (artigo de José Antunes de Sousa, 27)
22:07  -  23-12-2015
O Novo Trindade (artigo de José Antunes de Sousa, 26)
12:18  -  17-12-2015
A bola: uma boa metáfora humana (artigo de José Antunes de Sousa, 25)
16:42  -  10-12-2015
Uns certos rapazes (artigo de José Antunes de Sousa, 24)
14:42  -  26-11-2015
O moderno Olimpo (artigo de José Antunes de Sousa, 22)
12:40  -  19-11-2015
As sementes da ira (artigo de José Antunes de Sousa, 21)
19:56  -  12-11-2015
A roda do azar (artigo de José Antunes de Sousa, 20)
16:20  -  06-11-2015
Líder: arquitecto de simetrias (artigo de José Antunes de Sousa, 19)
15:56  -  31-10-2015
A Caixa de Pandora (artigo de José Antunes de Sousa, 18)
09:48  -  25-10-2015
Artista ou robô? (artigo de José Antunes de Sousa, 17)
22:52  -  16-10-2015
Mourinho e o fel da derrota (artigo de José Antunes de Sousa, 16)
20:32  -  08-10-2015
Um novo Tordesilhas (artigo de José Antunes de Sousa, 15)
18:50  -  02-10-2015
Festa no Castelão (artigo de José Antunes de Sousa, 14)
16:30  -  25-09-2015
Este futebol foi para o Maneta! (artigo de José Antunes de Sousa, 13)
21:41  -  12-09-2015
Futebol: jogo duplo (artigo de José Antunes de Sousa, 11)
14:55  -  03-09-2015
Um caso de transgressão e paixão: o futebol! (artigo de José Antunes de Sousa, 10)
17:23  -  28-08-2015
Chá e biscoitos (artigo de José Antunes de Sousa, 9)
16:53  -  21-08-2015
Já não tenho idade para essas coisas (artigo de José Antunes de Sousa, 8)
17:49  -  14-08-2015
O caso alemão (artigo de José Antunes de Sousa, 7)
20:26  -  07-08-2015
Meu Pai é genial! (artigo de José Antunes de Sousa, 6)
16:22  -  31-07-2015
Brasil: os Vampiros atacam ao amanhecer (artigo de José Antunes de Sousa, 5)
16:41  -  23-07-2015
Milagre na praia (artigo de José Antunes de Sousa, 4)
17:16  -  17-07-2015
O avião do Casillas (artigo de José Antunes de Sousa, 3)
16:56  -  10-07-2015
Chile: uma simples vitória desportiva ou o resgate da memória? (artigo de José Antunes de Sousa, 2)
Comentários (0)

Últimas Notícias

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais