Futebol sem preconceitos (artigo de Aníbal Styliano, 36)

Espaço Universidade 19:42
Por Aníbal Styliano
São vários os preconceitos que inundam a sociedade na razão inversa do conhecimento e da transparência, muitas vezes usados para justificar estratégias como armas de defesa e de arremesso para tentar “calar” divergências de opinião.

Há sempre gente (incluindo líderes de importantes instituições) que não consegue conviver com críticas quando desfavoráveis.
A procura de unanimismos, a ausência de aceitação da diferença, o centralismo retrógrado, são sinais de incapacidade em defender projetos qualificados e uma usurpação de funções.

Portugal é campeão da Europa em futebol e as camadas jovens têm obtido inúmeros títulos e posições de destaque que o colocam no grupo do topo.
No universo do futebol coexistem várias dimensões que, se conseguirem boa sintonia, mais facilmente se perpetuam a nível da excelência: quer nas seleções, quer nos clubes e competições, quer na formação dos seus diversos agentes e na organização em geral.

As vitórias são importantes e mobilizadoras mas só estáveis quando se analisam, com profundidade e sem interesses parciais, os rumos a definir com rigor.

Fugir ao confronto de ideias é um sintoma de insegurança e de desconhecimento.

As lideranças sábias cimentam-se com diálogos onde a razão triunfa e nunca o medo ou a dependência.

Lamento que os sucessivos governos nunca tenham conseguido criar/manter um Ministério do Desporto (bem como outros cargos) competente, atento, frontal e com dinamismo de antecipação para o sucesso.

Conhecer e compreender o desporto, aprofundar investigação, refletir sobre as realidades e necessidades, prever e antecipar futuros, mobilizando sem exclusões o movimento associativo, são algumas das condições que faltam nas frágeis equipas que temos conhecido.
Como afirmou Aristóteles “O todo é maior do que a simples soma das suas partes”.

Recentemente, numa sessão de lançamento de um livro sobre futebol, encontrando diversos amigos que têm por hábito pensar futebol /desporto, surgiram questões para as quais se procuraram identificar eventuais respostas.

Sem se poder tirar conclusões exaustivas, o certo é que na última jornada das competições europeias as 5 equipas presentes (3 na Champions e 2 na Liga Europa) perderam os seus jogos. Pensamos que já há muito tempo que isso não acontecia na mesma jornada.

Para além desse facto, a nível da “intensidade do jogo” foram levantadas várias pistas, identificadas lacunas e sugeridas alternativas.

Mais do que a abordagem de métodos, as limitações de exigência dos quadros competitivos continua a ser apresentada com alguns défices por resolver.

Seja nos resultados menos favoráveis, seja nas vitórias, a própria máxima olímpica desafia-nos a querer sempre mais rápido, mais alto, mais forte, ou seja, a procurar um aperfeiçoamento imparável.
Por isso, pensar futebol (como qualquer outra modalidade) é um objetivo de vida e um campeonato que conduz ao êxito. Sempre sem “grupinhos restritos” mas antes com total liberdade, inclusão e disponibilidade para aprender com o contraditório.

“Perseguir” a diferença, utilizar “scouting negativo” (ou seja, observação/identificação dos que consideram “opositores” simplesmente porque discordam), servilismo para manter cargos e afastar eventuais candidatos mais capazes, falta de rigor e de coragem para servir a modalidade como principal prioridade, são “periodizações” sem validade.
Não vou repetir as críticas que mantenho desde o início sobre o atual modelo de formação de treinadores, mas em relação à formação contínua (com exemplos que envergonham) gostaria de deixar uma sugestão.

Sim, porque nunca devemos limitar a fundamentar e apontar os erros mas também apresentarmos outras visões, entre as quais:

- A FIFA e a UEFA fazem periodicamente “jornadas técnicas” onde estão presentes treinadores das equipas de topo. Alterando o vício centralista, a FPF poderia delegar nas Associações Distritais/Regionais, um programa de reuniões desse tipo, ao longo do ano, mas englobando os treinadores por níveis de competição (sénior nacional, sénior distrital, competições jovens por escalão, por género, etc.).

Essas reuniões e debates seriam pois uma das formas de realizar formação contínua eficaz e eficiente, com envolvência de treinadores, prestigiando o futebol e substituindo o lamentável e já designado “negócio dos créditos”.

- Nessa sequência, há debates que já deveriam estar a permitir conclusões para desafios que continuam sem referências generalizadas: especialização de treinadores de camadas jovens (masculinos e femininos – do futebol de 3 ao futebol de 11) por fase de maturação/escalão de atletas evitando perder uma especialização que pode permitir uma ação global e mais eficaz.

O que se diz para treinadores pode ser realizado para formação de outros agentes (Massagistas e Dirigentes).

- Na estrutura do plano nacional de formação de jogadores, os Coordenadores Técnicos Locais (para as Seleções Distritais em cada Associação) deveriam ser colocados por escolha acertada entre as Associações e a FPF (que penso que é quem tem a responsabilidade do respetivo vencimento) bem como serem os agentes, junto dos treinadores do seu distrito/região, da identificação e divulgação do Modelo da FPF e ainda servirem como observadores privilegiados ao serviço as seleções nacionais.

Essa autonomia, mantendo uma parceria de boa relação e entendimento com as Associações, pode permitir maior eficácia e responsabilização.
Há muitas mais alternativas para se construírem planos sustentáveis e não aventuras momentâneas que aportam sempre muito desperdício.
Não pode haver medo de partilhar, de analisar as diferenças… As decisões quando criteriosas superam divergências e transformam-se num exemplo mobilizador.

Inteligência, organização, competência, bom senso e transparência, são fantásticos “jogadores” que saberão criar golos inesquecíveis.


Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol
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