Artur Anselmo: Presidente da Academia das Ciências de Lisboa (artigo de Manuel Sérgio, 212)

Espaço Universidade 18-10-2017 11:11
Por Manuel Sérgio
O Professor Artur Anselmo (nome completo: Artur Anselmo de Oliveira Soares), presidente da Academia das Ciências de Lisboa (ACL) e também presidente da Classe de Letras desta nobilíssima instituição, é um cavalheiro que, num primeiro convívio, logo se aprecia pela esmerada correção e pelo equilíbrio e discernimento que põe na visão dos problemas. Ao regressar a casa, após uma tarde de estudo na biblioteca da Faculdade de Letras de Lisboa, num dos primeiros dias deste mês de Outubro de 2017, encontrei, na caixa do correio, um cartão do seguinte teor do Professor Artur Anselmo: “Quero dizer-lhe, em primeiro lugar, que gostei muito de ler o seu livro Algumas Teses sobre o Desporto, com prefácio do Francisco Louçã, que me chegou por empréstimo de mão amiga, e convidá-lo, depois, a um almoço, onde tocarei num tema que, julgo, poder ser do seu interesse”.

Aprazada a audiência para as 18 horas do dia 12, dado que não via razões para declinar o convite e muitas seriam as vantagens que nele poderia colher - na última quinta-feira, bem longe de adivinhar o motivo do encontro, dirigi-me à Rua da Academia das Ciências nº. 19. Recebeu-me, com naturalidade e elegância e, em tom cordial, foi direto ao assunto, adiantando que, há meses já, era sua intenção receber-me, porque tem em mente promover e realizar um colóquio (ou um seminário) subordinado ao tema Desporto-Ciência- Cultura e onde seriam oradores pessoas de grande relevo, na Ciência e na Cultura dos países de língua oficial portuguesa. E, para surpresa minha, perguntou, por fim: “E quer ser o Manuel Sérgio o presidente da Comissão Científica do Congresso?”.

Ciente das minhas limitações de toda a ordem, acudi com voz vacilante: “Duvido que seja eu a pessoa indicada”. E ele, terminante mas com um sorriso simpático a nascer-lhe nos lábios: “Mas olhe que, nesta proposta que lhe faço, não estou só, pois que me aconselhei com várias pessoas da minha inteira confiança”…

“O mundo hipermoderno, tal como se apresenta hoje em dia, organiza-se em torno de quatro polos estruturantes, que desenham a fisionomia dos novos tempos. Estas axiomáticas são: o hipercapitalismo, motor da mundialização financeira; a hipertecnicização, grau superlativo da universalidade técnica moderna; o hiperindividualismo, que concretiza a espiral do átomo individual, agora liberto dos constrangimentos comunitários à maneira antiga; o hiperconsumo, forma hipertrofiada e exponencial do hedonismo mercantil (…). Nestas condições, a época actual assiste ao triunfo duma cultura globalizada ou globalista, duma cultura sem fronteiras, cujo objectivo não é senão uma sociedade universal de consumidores” (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, A Cultura-Mundo, resposta a uma sociedade desorientada, Edições 70, Lisboa, 2010, p. 40). O Professor Artur Anselmo, homem extremamente atento ao mundo em que vive e com um manifesto espírito de bem servir, acrescentou: “Não quero flagelar os dirigentes desportivos, a maioria dos quais nos devem merecer o maior respeito. Se o desporto é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo, muito se deve também ao trabalho insano dos clubes desportivos e dos seus dirigentes. Mas não deixa de ser verdade que o economicismo, que se mundializou, se apoderou do desporto que a Comunicação Social publicita e difunde, até à exaustão, e que os principais clubes nem sempre dão um cabal exemplo de sã convivência. Na alta competição há por vezes um espírito bélico que, no meu entender, apaga a grande mensagem que o desporto de Pierre de Coubertin trouxe ao mundo todo: mensagem de paz e de concórdia, entre os homens, entre os povos e as nações. Os desacatos que ocorrem, nos recintos desportivos, são muitas vezes um reflexo deste belicismo que percorre o mundo, que percorre o desporto”.

Encontrei também, no Professor Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências de Lisboa, eminente filólogo e professor ilustre de Literatura Portuguesa, uma vontade enorme de enriquecer o desporto português com o contributo de alguns portugueses por quem o mundo da ciência e o da cultura nutrem o maior respeito. Por isso, não estranhei que, mesmo sem desnecessárias cintilações de verve, continuasse a desenvolver o seu raciocínio: “A um sociólogo e epistemólogo, com a estatura mental do Boaventura de Sousa Santos, por que não escutá-lo sobre o caráter monolítico do cânone epistemológico que parece reger a investigação científica, no Desporto?”. Atalhei, então, num ponto que sobremaneira me interessa: “Quer explicar melhor o que acaba de dizer?”. E Artur Anselmo, com resposta pronta: “Para muita gente, no desporto, e com responsabilidades intelectuais, o conhecimento científico parece limitar-se, unicamente, a um paradigma biomédico com todas as características do modelo positivista, ou até da física newtoniana, onde a matemática pode descrever, integralmente, o ser humano e portanto o praticante desportivo”. Interrompi, uma vez mais, pondo na voz uma alegria incontida: “Ou seja, para o Professor Artur Anselmo escasseia, no desporto, como noutras áreas do saber, uma nítida união entre as duas culturas, a cultura científica e a cultura típica das humanidades. Não há jogos, há pessoas que jogam e, com pessoas, isto é, com seres humanos, só matemática e física, sendo absolutamente necessárias, não chegam para defini-los, na sua integralidade”. Com um sorriso repassado de uma sabedoria, fruto de muito estudo e de larga convivência com “trabalhadores do conhecimento” das diversas áreas do saber, Artur Anselmo deu-me ânimo a que prosseguisse: “Senhor Presidente, muito obrigado pela sua compreensão. O desporto precisa, de facto, de um conhecimento científico rigoroso e de, cada vez mais, fazer-se cultura e portanto bem mais do que desporto”.

Já citei várias vezes esta frase de Boaventura de Sousa Santos, recortada no seu livro A Crítica da Razão Indolente: “Vivemos (…) numa sociedade intervalar, uma sociedade de transição paradigmática. Esta condição e os desafios que ela nos coloca fazem apelo a uma racionalidade activa, porque em trânsito, tolerante, porque desinstalada de certezas paradigmáticas, inquieta, porque movida pelo desassossego que deve, ela própria, potenciar” (p. 39). O desporto já, há muito, nos ensinou que a crença gera biologia, digamos mesmo, na esteira de Bruce H. Lipton, autor do livro The Biology of Belief, que as crenças controlam o que em nós é inato, em boa parte presidem aos êxitos e aos inêxitos das nossas vidas. O treinador da seleção nacional de futebol, engenheiro Fernando Santos, é um homem de ampla, amorável e generosa crença em determinados valores. E a sua crença, no convívio com os jogadores que trabalham sob a sua orientação, faz de Fernando Santos, em relação à sua equipa técnica e aos seus jogadores, o líder de um grupo que, galharda e honradamente, dá lições de uma fé que lhes amplia e ilumina a razão.

A fé não impede de ver claro e de realizar com eficácia, a fé diz-nos que o possível, mesmo num caminho carregado de nuvens tempestuosas, é realizável. Não há determinismo na História, quando se tem fé. O Professor Artur Anselmo, ao consciencializar que o Desporto é, atualmente, o fenómeno cultural de maior magia, concluiu, com naturalidade que, na Academia das Ciências de Lisboa, Desporto e Cultura não são incompatíveis. Conviver espiritualmente com os mais nobres valores ainda não é fazer desporto. Mas, sem eles, não há desporto também.

Já era tarde, lá fora. Diante da consciência pura e de vigilante acuidade do presidente da Academia das Ciências, amanhecia dentro de mim…

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