José Tolentino Mendonça (artigo de Manuel Sérgio, 211)

Espaço Universidade 09-10-2017 12:25
Por Manuel Sérgio
José Tolentino Mendonça! Doutor em Teologia, sacerdote católico, capelão da Capela do Rato, vice-reitor da Universidade Católica. E, acrescento sem receio, um dos grandes poetas e escritores portugueses do nosso tempo. Não, não digo que é um grande poeta, porque se trata de um sacerdote católico modelar. A Arte é tão independente da Religião que, mesmo servida por poetas agnósticos, ou ateus, neles a Beleza em nada sofre no seu mais lídimo esplendor. Recordo a definição de Kant: “A arte é uma finalidade sem fim”. Em José Tolentino Mendonça, no entanto, o Bem floresce no Belo e com tamanha mestria que um livro da sua autoria (em prosa, ou em verso) é sempre um anúncio de Beleza e de Beleza Moral. Eu sei que a Arte não se explica, não é matemática ou geometria puras. A propósito, poderia escutar-se Miguel Torga, no Diário – V : “Vista de fora, apoiada em documentos que não têm nenhuma autenticidade profunda, uma obra completa é um mundo construído, cujo plano parece evidente. Mas quem a faz é que sabe que não obedeceu a plano nenhum, que foi o acaso que pura e simplesmente actuou. Quantas e quantas vezes um autor determina que vai fazer uma tragédia, uma elegia, um hino, e lhe sai uma comédia, um soneto, um madrigal! Determinados todos somos, se remontarmos aos cromossomas, ao pão e ao meio. Mas, se esquecermos a biologia e a fisiologia, e começarmos no acto da criação, que incerteza, que enigma, que jogo!” (p. 45). Os críticos e os biógrafos “olham o rio caudaloso do alto, em todo o seu trajecto e cada rápido cachão, ou remoinho passa-lhes despercebido. Foi assim, por isto e por aquilo. Escreveu o Werther, por tais ou tais razões. E só o génio de Goethe, apesar de tão consciente, não via com essa nitidez os seus caminhos. Só ele ignorava por que bulas compunha dramas em vez de poemas épicos” (p.46).

Desta longa (mas não fastidiosa) citação se infere que é a Beleza o objetivo da “obra de arte”. No meu entender, porém, na Beleza deverá estar implícito o serviço do homem todo, da mulher toda e de todas as mulheres e de todos os homens. Também para a Beleza, como ensina Thiago de Melo, “fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida e, de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira” (Os Estatutos do Homem, 2001). E a Beleza, assim, já poderá transformar-se na expressão de um pensamento e de uma ação não imperialmente sistematizados e banalizados e reificados. E a Beleza, assim, já poderá relativizar os mitos dos “amanhãs que cantam” porque não é pela razão da força que se decreta a liberdade, nem a igualdade, nem a fraternidade. José Tolentino Mendonça vem de publicar o livro O Pequeno Caminho Das Grandes Perguntas (Quetzal Editores, Lisboa, 2017), onde bem se revela a extraordinária atividade mental do insigne escritor (sem favor, um dos espíritos mais brilhantes do Portugal de hoje) que nunca esconde a sua alma de poeta, mesmo quando parece mais filosofar do que poetar, mesmo quando a Razão reivindica os seus direitos de autonomia crítica contra todo e qualquer “magisterdixismo”. De facto, perguntar pelo sentido da vida humana e pelo destino do ser humano não se resume a uma questão meramente filosófica, é também existencial (donde a poesia emerge necessariamente). Ocorre-me, neste passo, a célebre interrogação de Blondel: “Sim, ou não, a vida humana tem um sentido e o homem um destino?”. Em todo este livro de José Tolentino Mendonça, procura-se uma resposta afirmativa à inquirição pelo sentido da vida e pelo destino de cada um de nós. Para o Michel Foucault de As Palavras e as Coisas: o homem é uma invenção recente que não tardará a apagar-se, “como à beira-mar uma cara feita de areia”.
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Para o José Tolentino Mendonça, ao invés de Foucault, há resposta às grandes interrogações que nos assaltam, ao longo da vida. Por isso escreve, no início do livro, numa frase lapidar: “Mesmo se vivemos rodeados de perguntas, as mais preciosas são, porventura, aquelas que em silêncio nos acompanham desde o princípio, aquelas que se confundem com o que somos, como o espinho no troço da rosa ou como a rosa que, sem sabermos como, floresce no cimo improvável daquela sucessão de espinhos”. Perguntas “que se confundem com o que somos” exigem um vínculo substancial entre a razão e a fé, entre o pensamento e a vida, entre o ser e o agir. Nem tudo o que vemos conhecemos. À pergunta: Compreendemos tudo o que julgamos compreender? José Tolentino Mendonça responde: “Compreender não é (…) um processo automático. É um exercício de aproximação e escuta, face ao qual temos de reconhecer, muitas vezes, a inadequação dos nossos instrumentos”(p. 60). Mas, também sobre o futebol, ele pergunta: Que vazio tenta ser compensado, na paixão das multidões sobre o futebol? Que ausência ela vem ocultar? E assim responde: “O futebol é hoje vivido quase como uma religião de substituição. Um dos primeiros a colocar esta questão foi Robert W. Coles que defendeu a existência de analogias entre a realidade social do futebol e as práticas religiosas de busca e celebração da transcendência. Aquilo a que Durkheim chamava as forças elementares do fenómeno religioso pode encontrar-se, sem grandes contorcionismos simbólicos, no entusiasmo coletivo que o desporto-rei desperta. De facto, o modo como a paixão pelo futebol se expressa passou a ser observado etnologicamente como um ritual religioso ou para-religioso, com as suas catedrais, os seus oficiantes, a sua liturgia, as suas regras, as suas narrativas sagradas e os seus seguidores” (p. 38).

Na página 133 deste livro originalíssimo e saborosíssimo, José Tolentino Mendonça relata o que ouviu ao poeta italiano Tonino Guerra: “Um grupo de italianos da Resistência estava prisioneiro num campo de concentração. Chegou o Natal e a mesmíssima ração de miséria foi servida”. O Tonino Guerra propôs aos colegas de infortúnio que… “criassem juntos um prato: Podemos fazer uma massa com palavras. E então o poeta desatou a falar, distribuindo ordens muito exatas. Põe água a aquecer. Tu vai buscar uma cebola. Depressa, depressa, fá-la frigir numa caçarola. Um dente de alho. Tu, fica de olho no fogo. Junta quatro colheres de azeite. Tu, traz carne moída. Um copo de vinho branco, onde está o vinho branco? Que maravilha! Sentem já o perfume? Tragam o sal e a pimenta. A massa está no ponto. Escorram rapidamente a água. Tu… tu, rápido, traz o molho para juntar. Eu trato de pôr uma nuvem, apenas uma nuvem de queijo permigiano e… já está (bate as palmas). Depressa, depressa, cada um aproxime o seu prato. Os prisioneiros abriram as suas mãos em forma de concha e deixaram que elas se enchessem de um manjar invisível, que levaram à boca, saboreando-o lentamente, como de um prodígio se tratasse. Quando o último deles foi servido, o primeiro perguntou: posso repetir?”.

Fazem falta, muita falta homens como José Tolentino Mendonça, que nos apontam, sem cansaço, os horizontes da nossa íntima e sedenta vontade de perfeição. A arte, em seu sentido mais puro, só pode ter uma função: ajudar-nos à construção de um homem novo, de um mundo mais humano, quero eu dizer: onde a imanência e a transcendência não parecem incompatíveis. O Pequeno Caminho Das Grandes Perguntas, um livro indispensável de um escritor insigne e também um mestre e um apóstolo do “Único necessário”.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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