«Só o nascimento dos meus filhos está perto do que senti na final do Mundial» - Emmanuel Petit

França 07-10-2017 18:47
Por Redação
Emmanuel Petit, antigo jogador do Arsenal, deixou o seu nome para a história, ao marcar um dos golos com que a França venceu o Brasil na final do Mundial de 1998, por 3-0. Eis o relato do dia de glória para os franceses, escrito pelo próprio Petit.

«No dia em que a França venceu o Mundial de 1998 acordei muito confiante e calmo. Ao longo do torneio, a seleção ficou a estagiar em Clairefontaine e, especialmente naquela manhã, o ambiente estava fantástico. Havia um castelo e uma floresta perto e a primeira coisa que fiz foi abrir as cortinas, respirar fundo e absorver toda aquela paisagem fantástica. Para me alhear do stress e concentrar-me, decidi nem ligar a televisão, a rádio ou ler jornais. Durante o pequeno-almoço da equipa nem se falou do jogo. A maior parte dos meus companheiros estava relaxado como eu.

Não quero ser mal entendido, mas, indo à final, já tínhamos chegado mais longe do que qualquer seleção francesa na sua história. Isso trouxe uma certa serenidade ao grupo, não porque sentíamos que o trabalho já estava feito mas porque sabíamos que o sonho estava ali bem perto.

Apesar de sermo uma equipa, cada jogador tem a sua forma pessoal de se concentrar para estes momentos. Tem a ver com a personalidade, a forma como lidamos com o stress, ... Quando saímos para o estádio, havia gente por todo o lado. Enchiam as ruas com centenas de carros a apitar, bicicletas, pessoas a trepar árvores. Foi uma loucura. Foram atrás de nós durante todo o caminho, que durou cerca de uma hora. Pequenas vilas pararam por completo para nos ver passar. As pessoas acenavam, saltavam, gritavam para nos incentivar. Ninguém imagina o sentimento de quem está dentro do autocarro a ver isto. Fico arrepiado só de pensar.

Sabíamos que estávamos numa missão, era algo maior do que futebol. O apoio do público foi incrível ao longo do torneio. Até pessoas que não gostavam de futebol, ou não percebiam, estavam fascinadas. Tocámos no coração da França.

Antes do jogo ouvimos os rumores sobre as limitações do Ronaldo Fenómeno, mas eles tinham tantos jogadores de grande nível que não nos podíamos focar nisso. Controlámos o jogo mas não estávamos a criar muitas chances de golo, o Brasil era perigoso e sabíamos bem disso. O jogo estava amarrado. Mas conseguimos marcar à passagem da meia-hora e sabíamos que, como éramos consistentes defensivamente, marcar o primeiro golo era vital.

Quem joga contra o Brasil sabe que eles têm um espírito de equipa fraco. Se as coisas não estiverem a correr bem, facilmente se esquecem de que são uma equipa e insistem nas jogadas individuais. Começaram a rematar de todo o lado, estavam desesperados e insultaram-se uns aos outros durante o jogo.

Nas nossas vidas, todos os dias procuramos razões para sairmos da cama todas as manhãs. Posso dizer que penso que estive no sítio certo à hora certa: ser visto por biliões de pessoas a marcar um golo na final de um Mundial. Só o nascimento dos meus filhos se aproxima daquilo que senti nesse momento. A vida é isto. Fui um sortudo.»
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