Escrutínio: O Relatório do Chefe de Missão aos Jogos Olímpico (artigo de Gustavo Pires, 72)

Espaço Universidade 18-09-2017 15:21
Por Gustavo Pires
Portugal, inconformado, aguarda, há mais de um ano, pelo tradicional Relatório do Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016). Apesar disso, na “Olimpo Newsletter” nº 1 do Comité Olímpico de Portugal (COP), divulgada, em Setembro de 2017, o presidente da instituição, na sua mensagem, não se inibe de afirmar que “A cada quatro anos o COP e a missão olímpica nacional são submetidas ao escrutínio público, no período e na semana pós-Jogos Olímpicos. O resto do tempo a nossa atividade tende a não ser conhecida”. Na realidade, um dos maiores problemas do desporto nacional tem a ver com o facto das suas organizações não serem submetidas a qualquer escrutínio público, competente, transparente, eficiente e eficaz, exercido por instituições independentes e, por isso, credíveis aos olhos da generalidade dos portugueses.

Por isso, a pergunta é a seguinte:

Como é que a generalidade dos portugueses pode escrutinar a ação do COP quando a instituição ainda não divulgou o tradicional Relatório do Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016)?

Na realidade, o presidente do COP está nos braços de um enorme equívoco na medida em que, no dramático da sua mensagem, a fim de superar a ausência de escrutínio, anuncia que, da parte da instituição que chefia, vai acontecer uma “diferente política de comunicação” a processar através das plataformas de comunicação que a instituição tem à sua disposição.

Perante esta afirmação, no quadro da ausência do Relatório do Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016), somos levados a perguntar se não se estará a confundir a necessidade de se implementar o escrutínio dos portugueses sobre a ação do COP com uma estratégia de propaganda para promover a ação do COP junto da comunicação social a fim de formatar a opinião dos portugueses?

Se consultarmos um dicionário, facilmente, chegamos à conclusão que a palavra escrutínio significa verificação, pesquisa, inquérito, investigação, comprovação. Assim, temos de concluir que o escrutínio, de cerca de três semanas, a que o presidente do COP se refere, não se trata de escrutínio nenhum pois o que, durante o referido período, habitualmente, surge nos média não passa de um conjunto de comentários de oportunidade jornalística, de pungentes lamentos políticos de governantes mais ou menos ignorantes, de ridículas exaltações patrióticas sem significado inteligível, e de inaceitáveis desculpas de “mau pagador” de dirigentes desportivos mais interessados no “dress code” das olímpicas festas e festarolas paralelas aos Jogos Olímpicos do que nas condições do treino e da competição dos atletas. Em consequência, os referidos “escrutínios” nunca conduziram e, jamais, conduzirão a qualquer avaliação séria e útil sobre a gestão política do COP e, muito menos, sobre as Missões Olímpicas que devem ser consideradas como uma das questões mais sérias do processo de desenvolvimento do desporto nacional.

O embaraçoso problema do presidente do COP é que, o estado do desporto nacional, do qual o COP é, em grande medida, responsável, vive, de há muitos anos a esta parte, sem estar sujeito a qualquer escrutínio independente e competente que informe os portugueses não só sobre a Situação Desportiva do País bem como, no quadro das nações desenvolvidas, o seu Nível Desportivo. Portanto, só por humor se pode aceitar que a solução do problema oportunamente lançado pelo presidente do COP esteja no reforço dos instrumentos de comunicação, eventualmente, até, através de mais “selfies” e de outros mecanismos de mera propaganda que, regra geral, só servem para enaltecer as próprias virtudes.

A uma organização que despende avultados recursos públicos, o mínimo que se pode pedir aos seus dirigentes é que não confundam escrutínio com propaganda sob pena de se entrar no domínio da mais pura demagogia própria de um inaceitável terceiro-mundismo. Porque, quando uma política de comunicação não decorre, verdadeiramente, do ideário e da missão da instituição e não acontece de acordo com as populações alvo que deve servir, não passa de mera propaganda sem qualquer utilidade em termos de organização do futuro.

O escrutínio, tanto do ponto de vista interno quanto externo, para além de dever ser exercido por entidades que garantem competência e independência, deve fazer parte de uma cultura de participação e responsabilidade que, salvo uma ou outra exceção, não tem sido, minimamente, cultivada pelas mais diversas instituições do desporto nacional a começar pelo próprio COP. Antes pelo contrário, no desporto nacional, o simples facto de se manifestar opinião contrária ao politicamente vigente é um risco que a generalidade dos dirigentes desportivos não está em condições de poder correr como, tristemente, se pode constatar pela situação do Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016) que foi, simplesmente, “apagado”.

O escrutínio, em primeiro lugar, obriga à existência de um ambiente democrático onde o contraditório e a livre crítica fazem parte da cultura de todos e de todos os dias. Nas instituições fechadas, cuja chefia, ao estilo do “querido líder”, se sustenta na lógica do “quero, posso e mando” do “magister dixit”, não existe escrutínio possível na medida em que, qualquer veleidade crítica, acabará na “gaveta dos esquecimentos”, no ostracismo social de quem a proferiu, ou numa queixa no Ministério Público a fim de intimidar os “prevaricadores” mais atrevidos, transformando, abusivamente, os Tribunais em instrumentos da comunicação externa das organizações. Em segundo lugar, o escrutínio obriga a disponibilizar às diversas pessoas interessadas não só o acesso a uma informação credível e atualizada como, também, a possibilidade de poderem manifestar as suas opiniões de uma forma livre e aberta ao contraditório o que, há muito tempo, já não acontece se é que alguma vez aconteceu, pelo menos, nos últimos vinte anos.

Por isso, o necessário e urgente escrutínio de que o Movimento Olímpico carece e o presidente do COP pungentemente reclama não se resolve com Congressos fechados de “uma só nota musical” e assembleias gerais que decorrem ao estilo de "missas cantadas" em que qualquer opinião contrária ao politicamente correto é tida como uma heresia. Não se resolve com revistas “cor-de-rosa” absolutamente vazias de conteúdo que só servem para alienar as pessoas dos verdadeiros problemas do desporto nacional. Não se resolve com portais que vivem à custa da obsessão das “selfies” que alimentam a vaidade dos Adónis do dirigismo desportivo nacional. Não se resolve com “news letters” idealizadas para suprirem a incapacidade de instituir verdadeiros escrutínios com ações de propaganda que, a história já nos ensinou, só servem para, à laia do “Orwell`s 1984”, formatar a opinião e a vontade das pessoas.

Em conformidade, a pergunta que se deve colocar ao presidente do COP é simples:

Que escrutínio pode haver sobre o Movimento Olímpico em Portugal quando o País, há mais de um ano, aguarda pelo tradicional e insubstituível Relatório do Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016)?

Repare-se que o tradicional Relatório do Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos, até pela sua relativa independência, sempre foi uma peça de fundamental importância para escrutinar o trabalho do COP relativamente a cada Ciclo Olímpico. Porque, o controlo governamental e social sobre COP, não se apura pelas qualificações dos seus membros que até podem ser nenhumas, nem pelos processos de trabalho desenvolvidos que até podem só consubstanciar uma inútil e dispendiosa burocracia. Apura-se pelos resultados de um Ciclo Olímpico expressos pelas circunstâncias do ambiente social, económico e político em que decorreu. Apura-se pelo comportamento dos dirigentes que deve ir muito para além da sua vaidade pessoal. Apura-se pela eficiência dos técnicos a quem devem ser proporcionadas as possíveis condições ótimas de trabalho. Apura-se pela eficácia dos atletas que, no seu empenho, devem dar o melhor de si. Ora, tudo isto, em Portugal, desde sempre, com mais ou menos dificuldades, tem ficado, para memória futura, nos Relatórios dos Chefes de Missão aos Jogos Olímpicos.

Assim sendo, o presidente do COP deve tentar compreender que não vale a pena entrar numa corrida desenfreada de comunicação através de uma estratégia de marketing de propaganda quando uma questão básica como é a da divulgação do Relatório do Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos, ao cabo de um ano, ainda está por resolver. Tal deriva, para além de, em nada, melhorar a imagem da organização, só servirá para reforçar o processo burocrático do COP que, já de si, é incompreensivelmente pesado e custa cada vez mais dinheiro aos portugueses.

O que se recomenda ao presidente do COP é que, em primeiro lugar, cumpra estritamente a missão da organização que chefia, missão essa que está bem expressa na Carta Olímpica e na Lei da Atividade Física e do Desporto que, para além da história, o obriga a divulgar publicamente o Relatório do Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016) a fim de que os portugueses, com informação de primeira mão, possam, verdadeiramente, escrutinar a relação custo benefício do dispêndio de dezassete milhões de euros provenientes do erário público. Em segundo lugar, a fim de responder ao nobre e salutar desejo de ser escrutinado, recomendamos ao presidente do COP que abra a instituição que chefia à sociedade portuguesa na medida em que, como vamos arguir nos próximos artigos, o que resulta da revisão dos Estatutos do COP realizada em finais de 2016, é a perpetuação de uma organização fechada, burocrática e blindada a quaisquer veleidades de escrutínio e não, em alternativa uma organização transparente, aberta e livre à participação empenhada dos portugueses e ao consequente escrutínio, em tempo real, dos resultados relativos aos projetos em que se envolve.

Em conclusão, diremos que apelar ao escrutínio dos portugueses sobre o Movimento Olímpico nacional quando, há mais de um ano, se aguarda pela divulgação pública do tradicional Relatório do Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016), não passa de um oportuno exercício de diversão.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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