Ao futebol o que é do futebol (artigo de Aníbal Styliano, 32)

Espaço Universidade 03-09-2017 17:16
Todos os que gostamos de futebol e do nosso País temos orgulho nas proezas e no talento fantástico do “nosso” Cristiano Ronaldo, vulgo CR7. Podemos visitar terras longínquas e só por sermos portugueses temos portas abertas, sorrisos enormes, admiração e prazer por estarem connosco.

CR7 vence fronteiras porque se trata de um dos maiores fenómenos à escala global. Imparável, cada vez mais forte, cada vez mais decisivo, Cristiano alcançou quase todos os títulos a nível coletivo e individual que existem. Mesmo assim, não pára de bater recordes, alguns com largas dezenas de anos de duração. E continua a trabalhar para superar sempre mais.Trata-se de um talento excecional que é também um exemplo de empenho, de trabalho e de esforço notável. Um dos maiores de sempre do futebol mundial.

Não entendo, por isso mesmo, uma certa crispação contra o que ele consegue fazer e, por outro lado, um certo fundamentalismo que não aceita a mínima crítica ao grande astro nacional. Claro que futebol é sempre paixão, emoção e portanto espaço sem clara definição de limites.

A minha abordagem limita-se ao Cristiano Ronaldo enquanto JOGADOR DE FUTEBOL.
A outra vertente mediatizada, das revistas sociais, do “voyeurismo”, dos episódios como figura pública, nada me interessa, pois são parte de outro universo para o qual não consigo encontrar motivação para acompanhar.

Acusar quem o critica “por inveja” ou então idolatrá-lo religiosamente como divino são dois extremos com laivos de fanatismo. Aos que lhe colocam defeitos e falhas, sugiro que observem a sua capacidade de resolver os problemas que outros não conseguem, de forma única. Aos que o endeusam não permitindo comparações, defendendo a sua imagem como o melhor de sempre, sugiro que não misturem conjunturas diferenciadas e vivam o presente.

Já li que “deuses” anteriores como Pelé, Eusébio, Garrincha, Maradona, Cruyff e muitos mais, nunca conseguiram marcar tantos golos, nunca ganharam tantos troféus (especialmente os individuais, os troféus de melhor do mundo – curiosa a distinção de um jogador num desporto coletivo), nunca conseguiram fazer o que ele continua a alcançar sem parar. Chegam mesmo a afirmar que os jogadores anteriores se jogassem agora (como contemporâneos do CR7) não passariam de bons jogadores que nunca conseguiriam performances de talento.

Fabricam-se estatísticas, parciais, sem rigor, onde são esquecidos aspetos determinantes (número de jogos, por exemplo). “O meu campeão é melhor do que o teu”, assemelha-se a um jogo/brincadeira de crianças mas, neste caso, desnecessário e inútil. Viajar pelos tempos, mesmo que cientificamente possa vir a ser possível, ainda não se consegue.
As pessoas e os génios viveram em épocas definidas.

Uns conseguiram deixar marcas que perduram... Mas viveram em contextos muito diferentes, com realidades completamente distintas. Leonardo da Vinci, se tivesse nascido nos finais do século XX, certamente seria ainda mais genial em função das inúmeras possibilidades de que passaria a dispor. Pelé, Eusébio e os outros gigantes (onde nunca posso deixar de incluir Hernâni Ferreira da Silva) se jogassem hoje, com as condições atuais, os materiais, a evolução científica, médica e tecnológica, os processos de treino, os agentes desportivos e investidores, a mediatização, certamente que seriam ainda muito maiores.

Se um de nós pudesse viajar para décadas atrás, com os conhecimentos que tem hoje (telemóveis, computadores, realidade virtual, hologramas…) poderia impressionar imenso os seus concidadãos… o problema é que não tendo acesso a esses materiais, teria de recorrer aos dessa época podendo revelar-se um fiasco total por inadaptação. Nem consigo imaginar CR7, Messi, Neymar e os mais fantásticos jogadores de hoje, a calçarem botas de travessas (pregos a ferir os próprios pés), bolas que com a chuva passavam a pesar alguns quilogramas, meias, camisolas e calções que encharcavam e “valiam” mais do dobro, campos “ervados” e pelados com piscinas e lamas pelo meio, balneários onde o repouso era virtual e os apoios clínicos pouco mais do que bálsamos de linimento…

Por isso me parece um abuso intelectual comparar jogadores de épocas tão diferentes.
Prefiro manter os ídolos nas respetivas memórias, nas suas realidades contextuais e valorizar a excelência que só eles conseguiram atingir. Daqui a uns anos, certamente virão novos “deuses” e novos recordes.

Para já, parabéns ao jogador de futebol Cristiano Ronaldo e que alcance muito mais vitórias, títulos, troféus e golos mágicos… ficaremos contentes com os seus triunfos. Naturalmente, continuo a respeitar todos os génios que acrescentaram talento e encanto ao futebol… Sem divisões, mas unindo com recordações, criando um grande Olimpo. Os grandes talentos do futebol são ídolos e como tal potenciais agentes do desenvolvimento ao valorizarem a competição leal.

“… a competição explica a vida, porque ela está inscrita no código genético da humanidade.” (in Gustavo Pires, Olimpicamente a Rutura de Pierre de Coubertin com a Educação Física, FMH, 2014;68).

O facto do futebol em direto já não se limitar ao fim-de-semana, mas antes perdurar pela semana inteira, provoca uma certa continuidade do “caos”, das emoções constantes e de combates verbais imparáveis apesar de artificiais, onde se notam vestígios de cansaço, falta de criatividade e algum fundamentalismo. Os génios merecem, em todos os tempos, a nossa admiração, gratidão e reconhecimento. Nos seus contextos foram o máximo e esperamos que, em cada “tempo”, surjam sempre mais talentos para engrandecer o futebol. Apreciar em cada época os seus feitos, recordar a paixão com que as gerações anteriores nos falavam dos seus ídolos e do que só eles conseguiam fazer, nunca deve ser menosprezada.

Há décadas atrás, em Portugal, as equipas mais solicitadas para torneios estrangeiros, por vezes reforçavam-se com craques de outras equipas devidamente autorizados pelos respetivos clubes (envolvendo mesmo os chamados “grandes”, sem polémicas, mas com sentido de serviço ao futebol nacional… mas isso já foi há muito tempo).
Termino com Pelé que, ao ter conhecimento de que Cristiano Ronaldo bateu o seu recorde de golos pela seleção, colocou nas redes sociais a mensagem: “Parabéns Cristiano por entrar para a elite dos cinco maiores artilheiros internacionais da FIFA”.

Ídolos campeões são mesmo assim, sem complexos, sem discussões e sempre com simplicidade genial.

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol
Ler Mais
12:07  -  28-08-2017
Nem dependência nem subserviência (artigo de Aníbal Styliano, 31)
11:39  -  15-08-2017
Lendas que resistem a tudo (artigo de Aníbal Styliano, 29)
10:28  -  02-08-2017
Futebol: 2017, o Ano da grande vertigem e do assalto ao futuro (artigo de Aníbal Styliano, 28)
12:23  -  22-07-2017
Fundos sem fundo (artigo de Aníbal Styliano, 26)
08:09  -  09-06-2017
Sem retorno (artigo de Aníbal Styliano, 24)
08:00  -  31-05-2017
Futebol coerente: Um golo eficiente (artigo de Aníbal Styliano, 23)
12:50  -  09-05-2017
Golo na própria baliza (artigo de Aníbal Styliano, 22)
21:29  -  30-04-2017
Do futebol para a nossa sociedade (artigo de Aníbal Styliano, 21)
11:43  -  26-04-2017
Futebol: Caos, guerra, indiferença ou dignidade? (artigo de Aníbal Styliano, 20)
15:53  -  21-04-2017
Aprisionar o futebol? Missão impossível! (artigo de Aníbal Styliano, 19)
21:32  -  15-04-2017
O dia em que o futebol foi esquecido (artigo de Aníbal Styliano, 18)
17:31  -  07-04-2017
«Futebol sem cartilhas» (artigo de Aníbal Styliano, 17)
23:54  -  23-03-2017
Nunca te esqueças (grita-nos a Memória do futebol) (artigo de Aníbal Styliano, 16)
21:39  -  16-03-2017
O indomável e imprevisível futebol (artigo de Aníbal Styliano, 15)
22:45  -  13-03-2017
Jogos que não se podem perder: o futebol ou vence ou é destruído! (artigo de Aníbal Styliano, 14)
00:04  -  28-02-2017
Football Talks e o equilíbrio da Pirâmide (artigo de Aníbal Styliano, 13)
16:49  -  23-02-2017
O que é a perfeição? (artigo de Aníbal Styliano, 12)
12:32  -  18-02-2017
Futebol, Sinais e Rumos (artigo de Aníbal Styliano, 11)
16:39  -  28-01-2017
O futebol como exemplo de liberdade (artigo de Aníbal Styliano, 10)
13:41  -  28-12-2016
Os maiores desafios ao futebol (artigo de Aníbal Styliano, 7)
18:15  -  08-11-2016
Futebol com inclusão ou imposição? (artigo de Aníbal Styliano, 4)
15:39  -  26-10-2016
Futebol - Uma outra face (artigo de Aníbal Styliano, 3)
16:54  -  28-09-2016
Formação de treinadores de futebol em Portugal (artigo de Aníbal Styliano, 2)
Comentários (1)

Últimas Notícias

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais