Pierre de Coubertin (1863-1937) (artigo de Gustavo Pires, 70)

Espaço Universidade 24-08-2017 21:52
Por Gustavo Pires
Dia 2 de Setembro de 2017 comemora-se o octogésimo ano da morte de Pierre de Coubertin. A data é mais uma oportunidade para relembrarmos uma figura extraordinária que, em finais do século XIX, teve a coragem de iniciar um processo que, no âmbito da sociedade moderna, conduziu à institucionalização dos Jogos Olímpicos que se praticavam na antiga Grécia.

Perante um futuro obscuro protagonizado pelas diversas escolas de ginástica de caráter higiénico-educativo, militar e de promoção da raça que, na Europa, em finais do século XIX, se digladiavam por um estatuto de primazia político-social, o sucesso da iniciativa de Coubertin aconteceu, sobretudo, porque ele, numa entrega absoluta, foi capaz de, a uma escala mundial, desencadear um processo que, numa perspetiva pedagógica, visava integrar os rituais da paixão competitiva própria da “energia animal” provenientes da Grécia antiga com a dinâmica pedagógica da prática desportiva das Escolas Públicas inglesas. Não foi fácil. Em França, teve de conflituar com inúmeros opositores, entre outros, Paschal Grousset (1844-1909) e Philippe Tissié (1852-1935). O primeiro, proveniente da Comuna de Paris, era um dos arautos mais acirrados da institucionalização de uma escola francesa de ginástica popular e, o segundo, um suecofílico inveterado que, na qualidade de médico, pretendia instituir em França o método higiénico da escola sueca de ginástica. Mas, também, do ponto de vista externo, encontrou barreiras difíceis de transpor. O modelo desportivo, ao fundamentar-se numa estrutura de competições formais desenvolvidas à escala do Planeta, encontrava enormes dificuldades em conduzir para os terrenos desportivos países que, até então, tinham resolvido as suas disputas nos campos de batalha.

Para Coubertin, o Olimpismo não se tratava de uma nova prática de carácter higiénico-recreativo sustentada no “mens sana in corpore sano” de Juvenal que ele considerava “excellemment hygiénique et nullement athlétique”. Tratava-se de um projecto de comunicação interpaíses suportado num modelo competitivo estandardizado de organização dos Jogos Olímpicos modernos com o objetivo de integrar a educação, a paz, o desenvolvimento e o progresso das nações. Ao fazê-lo, desencadeou uma Transvaloração dos Valores que, enquanto homem culto que era, presumimos, foi buscar ao sentido biossocial da luta de Nietzsche, provocando, deste modo, uma rutura no processo social em curso, que se sustentava na narrativa da Educação Física que integrava as escolas de ginástica vigentes. Em consequência, deu origem à institucionalização de um novo paradigma suportado num espírito competitivo que, no quadro da amizade, do respeito mútuo e da paz entre os povos, procurava combater o “mal de híbris” que conduzia aos excessos belicistas os líderes europeus, para, em alternativa, fazer surgir um homem novo simbolizado no desportista, tal qual “super-homem”, capaz de “proezas extraordinárias” a favor da paz, do desenvolvimento e do progresso.

Na perspetiva de Coubertin, o Movimento Olímpico ultrapassava o próprio desporto na medida em que o “altius” do lema olímpico elevava o atleta na procura da superação e da transcendência pessoal e social, através do conceito de Stasis que, entre os gregos antigos, significava calma, serenidade, posição ou estatuto. E como, na Grécia antiga, a pedagogia popular exigia que cada talento ou vocação se desenvolvesse pela luta, Coubertin, concluiu que o verdadeiro atleta só aprendia realmente a conhecer-se quando, eficazmente, associava a vontade de vencer às mais nobres qualidades da condição humana que despertavam num ambiente de competição justa, leal e nobre. Assim, a competição devia estar sujeita ao princípio do ostracismo, quer dizer, ao superior respeito pelas regras sob pena de, quem não as cumprisse ser implacavelmente ostracizado.

Neste sentido, o ideal olímpico não se tratava da competição pela competição e, menos ainda, da esquizofrenia da conquista de medalhas olímpicas que, hoje, contra a euritmia de um desenvolvimento desportivo equilibrado entre a massa e a elite, tomou conta das Políticas Públicas nos mais diversos países do Mundo. Tratava-se do desenvolvimento estético da competição, no seu sentido de excelência, quer dizer, na sua forma harmónica, na elegância do seu movimento, na pujança da sua cor, no ritmo cadenciado dos acontecimentos e na sua humanidade em busca da superação e da transcendência. E este sentido estético, que Coubertin foi buscar a John Ruskin (1819-1900), devia expressar-se nos Jogos de cada Olimpíada que tinham por missão, enquanto festa da humanidade, manter vivo o espírito competitivo justo, nobre e leal entre as nações.

Por isso, era dever fundamental de todo o atleta “conhecer-se, conduzir-se e superar-se” no sentido de colocar os seus esforços ao serviço de si próprio, do grupo, da comunidade e da nação. Ora, tal desiderato ia contra o natural coletivismo das escolas de ginástica da Educação Física, em que a identidade individual se diluía na identidade do grupo o que originava um conflito que, ainda hoje, subsiste. O Movimento Olímpico, pela mão de Coubertin, trouxe para o século XIX o “conhece-te a ti mesmo” gravado no portal do santuário de Delfos que, hoje, mais do que nunca, deve orientar os desportistas na prossecução do “altius” olímpico, quer dizer, da elevação às alturas pela superação pessoal através da competição desportiva.

Ao tempo, a cultura de liderança tinha como exemplos máximos militares como Napoleão (1769-1821) ou Bismarck (1815-1898) que afirmavam o seu poder de líderes pela força da sua vontade autocrática, porque tinham meios para a fazerem vingar. Pelo contrário, Coubertin sustentou a sua liderança numa efetiva partilha de poder e de responsabilidades que se expressavam numa forte dinâmica de participação democrática, muito provavelmente, um dos maiores legados de índole humana que nos deixou ficar. Hoje, podemos dizer que ele, durante trinta anos, geriu o COI utilizando uma estratégia de “soft power” sustentada no valor das suas ideias, no prestígio do seu conhecimento, no exemplo do seu comportamento e no estilo da sua liderança que exercia com um sentido profundamente democrático. Tal, só foi possível porque, do ponto de vista político, foi capaz de desenvolver uma gestão inteligente, utilizando da melhor maneira possível recursos humanos pouco preparados e meios logísticos extremamente escassos. Mesmo assim, com um extraordinário sentido de missão, conseguiu trazer para a era moderna os Jogos Olímpicos da antiga Grécia dando-lhes, ainda, a partir do exemplo de William Penny Brookes (1809-1895) da Wenlock Olympian Society, uma visão universalista cujo maior desafio foi a institucionalização do Movimento Olímpico em África.

Em consequência do pensamento de Coubertin, expresso em milhares de textos, o Olimpismo foi assumido como uma espécie de “evangelho laico”, capaz de dar um sentido àqueles que acreditavam na prática desportiva, como uma interminável dança, harmónica e dialética, entre os valores da cooperação e os da competição. Tratava-se, por isso, de transformar o mundo numa comunidade cultural de nações cujos homens e mulheres, para além de qualquer descriminação com base no país, na raça, na religião, na política, no sexo ou noutra qualquer, competiam uns com os outros em busca da superação e da excelência. Neste sentido, o Movimento Olímpico, enquanto projeto de generalização da prática desportiva à escala do Planeta, devia estar envolvido num ritual de esperança num mundo melhor porque, se assim não fosse, os Jogos Olímpicos seriam transformadas num simples festival pagão, de caráter circense, falho de cultura, de projecto, de futuro e de transcendência.

Por isso, nos tempos que correm, em que o processo de globalização por via económica está a transformar a natureza do desporto, o Movimento Olímpico encontra-se perante o desafio de ter de afirmar um caminho próprio de liberdade e independência entre: (1º) os desejos hegemónicos do poder político sobre o desporto protagonizado por governos que, à revelia da salvaguarda da independência do Movimento Olímpico, entendem pôr os CONs por esse mundo fora ao serviço dos seus próprios interesses; (2º) os apetites insaciáveis do comercialismo que vê no desporto um campo aberto a toda a espécie de negócios promovidos por dirigentes falhos de cultura, gananciosos de poder e sedentos de dinheiro que utilizam as organizações desportivas em benefício próprio.

Na data em que se comemora o octogésimo aniversário da morte de Coubertin os dirigentes desportivos pelo seu espírito de missão, a sua competência e o seu sentido de liderança democrática, devem ser capazes de honrar o legado de um homem que foi capaz de sonhar a fim de lançar um dos maiores empreendimentos humanos à escala do Planeta.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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