O Tempo em Jorge Jesus - Manuel Sérgio

Ética no Desporto 30-08-2017 10:26
Por Manuel Sérgio
Françoise Dastur acentua que não há que “procurar a origem do tempo senão em nós próprios, na temporalidade que somos e é por isso que Heidegger sublinha que não se trata de definir o tempo como sendo isto ou aquilo mas sim de transformar a questão: o que é o tempo? na seguinte: quem é o tempo?, isto é, perguntar se não somos nós mesmos o tempo. Este é o único meio de falar temporalmente do tempo em vez de o hipostasiar como um ser diferente de nós ao qual seria então conferida uma identidade que negaria precisamente o seu carácter temporal” (Heidegger e a questão do Tempo, Instituto Piaget, 1997, p. 29). Assim como não há jogos, mas pessoas que jogam, também não há tempo desinserido do agir humano, não há tempo sem a nossa temporalidade. Porque cada um de nós é (e sirvo-me agora de palavras do filólogo e meu dileto Amigo, Fernando Paulo do Carmo Baptista) “imperfeito, inconcluído, frágil, evanescente, errante, lábil, enigmático, misterioso, sortílego, uno e múltiplo, ipseídico e alterídico, agórico e alegórico, simétrico e assimétrico, sapiens e demens, solar e nocturno, simbólico e diabólico, anjo e besta, divino e demoníaco” (A Sinfonia Universal Do Amor Fraterno, Instituto Piaget, Lisboa, 2017, p. 59) – porque somos tudo isto e o mais que não está aqui, o tempo (no meu modesto entender) confunde-se com a nossa continuidade. Por isso, ele é memória (do que fomos) presente (perceção do que somos) e futuro (do que pretendemos ser). Cada um de nós faz história, é história. Nas palavras de Octavio Paz, “ser é um desejo germinal, uma pulsão intensa, um recorrente e imparável querer ser” (in Fernando Paulo Carmo Baptista, op. cit., p. 61). Em poucas palavras: o Tempo somos nós… vivendo!
Trabalhei, durante um ano, com Jorge Jesus, no departamento de futebol do Sport Lisboa e Benfica. Há uma dúzia de anos, somos Amigos. E sente-se que é com uma exultação íntima que ele cultiva a amizade. Fazendo sala entre um grupo rumoroso de amigos, que acodem a alguns dos seus jantares, não esconde o gáudio, a felicidade. Nutre pela família, designadamente pela memória dos pais uma admiração submissa e feliz, um culto quase religioso. Nunca descobri, nele, um pensamento ácido em relação aos pais. E, porque foi pobre, não deixa de auxiliar, com a sua verbosidade genuína, uma ou outra pessoa que dele mais necessite. Com pouco, resumo a ideia que dele faço: é um homem bom! Dos homens bons que a vida me deu a conhecer! Convivi com treinadores mais sóbrios, mais positivos menos arrebatados. Mas, apaixonado, ativo, emotivo, Jorge Jesus tem uma segura ideia de jogo e, precisamente durante o jogo, sabe ver e potenciar as qualidades dos jogadores, como se de um treinador frio e racional se tratasse. Não faz investigação bibliográfica, porque está convicto que a “leitura” dos seus jogadores e dos jogadores adversários é bem mais importante do que a consulta interminável, minuciosa de muitos livros . Vive, no futebol, como jogador e treinador, há mais de 40 anos. E do meio sociológico onde se inseria e da perspicácia típica de todos os emotivos formou uma visão e noção do futebol que o fazem, não o melhor treinador do mundo, mas um treinador diferente da grande maioria dos seus colegas de profissão. E tão diferente que o seu Tempo, podendo não parecer o de hoje, é atual, na eficiência, na eficácia e até na espetacularidade. A teoria, no futebol, tem de nascer da prática. A teoria, no futebol de Jorge Jesus, nasce da sua prática. E é pela sua prática (donde emerge a sua viva inteligência) que interessa ver o treinador de futebol que ele é. Jesus Cristo já nos ensinou: “Pelos frutos os conhecereis”…

As exibições do Sporting, nesta época desportiva de 2017-2018, dizem-nos que nasceu mais uma equipa de futebol, construída e liderada por Jorge Jesus, um treinador que transformará o futebol leonino, com golos, jogadores de bom nível técnico e a magia de um ritmo encantatório (a tal “nota artística” de que fala, com enleio). E, sobre o mais, poderá transmitir-lhe uma ganhadora mentalidade que, ano após ano, foi desaparecendo, nas hostes sportinguistas. O José Saramago assinala que “saberíamos muito mais das complexidades da vida, se nos aplicássemos a estudar com afinco as suas contradições” (A Caverna, p. 26). O rendimento de uma equipa de futebol não tem, como única instância salvífica, o saber e a sabedoria do treinador. Há muita gente ainda que assim pensa. Trata-se de uma metafísica que há muito caiu em desuso. Ser contemporâneo, no futebol de hoje, é entender que o economicismo que o domina exige a presença doutros indivíduos, digamos o nome certo: de empresários, de banqueiros, de um sem número de argentários, na contratação dos jogadores e na preparação das equipas. Não estou a dizer que este economicismo seja do meu agrado. Estou a dizer que ele é a ideologia que informa o futebol atual. Não é tanto pelo Cristiano Ronaldo que o Real Madrid é rico, ou pela magia do futebol de Neymar que o PSG abrirá as portas de um período de abundância. Antes do Cristiano Ronaldo ou do Neymar, já o Real Madrid e o PSG (e há mais exemplos!) “nadavam em dinheiro”. O célebre economista Jean-Paul Fitoussi, em mesa redonda em que participou também o filósofo André Comte-Sponville, oferece-nos uma síntese particularmente incisiva: “Foi cientificamente demonstrado por um economista americano comprovadamente sério que, num país ultraliberal, no qual o Estado não se ocupasse absolutamente nada com a economia, o pleno emprego estaria assegurado… a todos os sobreviventes” (André Comte Sponville, O Capitalismo Será Moral?, Editorial Inquérito, p. 110).

Julgo ser lícito perguntar: “E os outros, os que não poderão sobreviver?”. Sou pela primazia da política sobre a economia e da moral sobre a política. Estou errado?... Mas eu ocupava-me do novo futebol do Sporting que o Jorge Jesus tecnicamente lidera. Recordo-me das minhas conversas, com o Fernando Peyroteo, o “stradivarius” dos cinco violinos. Marcador incomparável dos nossos “nacionais de futebol” (marcou 541 golos, em 345 jogos!) insistia muito no “amor à camisola - que hoje não existe já”. E acrescentava ele, crivado de saudades: “E não volta mais. O mundo é muito diferente dos meus tempos de jogador de futebol”. Em meados da década de 70, éramos, ele e eu, técnicos da Direção-Geral dos Desportos. Eu, belenenses ferrenho, que tanto sofrera com os seus golos, no Estádio das Salésias, distinguia as palavras do Peyroteo com uma judiciosa atenção. Estava diante de um dos meus ídolos de criança e de rapaz. E relembro que, em voz arrastada e cautelosa, me disse um dia: “Mas tenho comigo uma alegria.

O Sporting é muito grande. Só precisa de homens que o saibam dirigir e comandar”. E as saudades desabaram como uma avalanche sobre o Fernando Peyroteo, que me disse: “Em 22 de Fevereiro de 1942, o Sporting ganhou ao Leça por 14 a 0. Eu marquei 9 golos e para todos os gostos. Um golo marquei-o de calcanhar, após um centro do Albano”. E, ruborizado e feliz: “No fim do jogo, um adepto sportinguista, ajoelhou-se e beijou-me os pés!”. Volto às palavras de Peyroteo: “O Sporting é muito grande! Só precisa de homens que o saibam dirigir e comandar!”. Não há dúvida que uma ambição nova eclodiu no Sporting de hoje e que o Jorge Jesus é treinador para corporizar uma política de muitos êxitos, para o Clube que Fernando Peyroteo tanto amava. Mas o Jorge Jesus, por si só, não chega para os êxitos que se anseiam. Vale mais saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir.
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