Nem dependência nem subserviência (artigo de Aníbal Styliano, 31)

Espaço Universidade 28-08-2017 12:07
Por Aníbal Styliano
Repetir os mesmos erros é muito preocupante… São múltiplos os sinais que vão matando a esperança na evolução. Pensávamos que, após a polémica época passada, a inteligência e o bom senso seriam duas das grandes aquisições para reforçar o desenvolvimento do futebol.
Começamos bem, ao revelar jovens talentos nacionais que passaram de esperanças a certezas gratificantes. Surgem fantásticos jogadores que vão acrescentando beleza ao jogo, inclusive mudando o foco dos debates: das suspeições para a competência, do erro sistemático para o lance genial. Afinal foi “Sol de pouca dura” e o nevoeiro voltou.

Novos casos, decisões contraditórias, tratamento diferenciado, prazos alargados para uns e sumaríssimos para outros, muitas falhas, particularmente dos mesmos (ainda acreditávamos que mudassem, mas engano total ou será dependência?), habilidades técnicas oportunistas, nomeações eventualmente “provocatórias”, erros muito graves, VAR com deficiências inacreditáveis, pressão exagerada sobre o acessório, discussões infindáveis, ocas, umas para desviar atenções, outras para fazer opinião, outras ainda para atear fogos de discussão instantânea (sem tempo para pensar), mudança de comportamento de personalidades que davam exemplo de serenidade (só porque ganhavam?) e uma ausência significativa de coerência, de imparcialidade, de transparência.

Depois, uns arautos do palácio pedem calma, ponderação e fundamentalmente aceitação sem questionar. E a verdade desportiva? E os princípios basilares do desporto? E o fair play? Só com uma competição justa se valoriza o futebol… “Negar os factos não os muda e, quando a epidemia se espalhou por toda a cidade, foi necessário dar-lhe um nome: peste! Uma variante do fenómeno da negação é a ideia de que mudar as palavras também muda os factos (…) Quem não aprende com a história está condenado a vê-la repetir-se.” (Rob Riemen, O Eterno Retorno do Fascismo, Ed. Bizâncio, 2012: 11 e 13). “Brincar com o fogo” é um dos maiores riscos pelas injustiças que se vão acrescentando e minando a imagem de um jogo que herdamos, que temos a obrigação de preservar e de melhorar.

Semanalmente, a “tribo do futebol” (como designou Desmond Morris) movimenta-se pelo fervor clubístico com criatividade e paixão, numa manifestação que deve assegurar as condições de segurança e de partilha. Não ter a devida atenção ao fenómeno de massas é permitir que “falhas amadoras” possam criar desequilíbrios incontroláveis… e na sua génese, pode estar uma decisão errada grave, normalmente impune. Fica a sensação de que há jogadores e equipas que por eventual “receita” não podem ser incomodados por cartões (desde os amarelos aos vermelhos) façam o que fizerem e que há especialistas mais preocupados em descobrir no jogo a razão para agradar, garantir continuidade e contribuir para uma vitória que julguem lhes possa ser útil (?).

Já vimos os filmes que dão ideia de querer repetir… As consequências poderão ser trágicas. Ouço dizer que tem de se tirar o poder a uns para que outros possam mandar e ganhar… Aterrador! Independentemente das minhas preferências clubísticas, no início de cada competição, defendo sempre que a verdade seja um objetivo cumprido, que a dignidade seja mantida, que vença quem merecer pelo trabalho desempenhado dentro do campo. O importante é nunca permitir a subversão do jogo, a impunidade de quem atenta contra os seus princípios, a deslealdade de quem falha com intenção. E para se poder parar de vez com as acusações do passado, só construindo com honestidade e rigor… Sabemos que é tarefa muito difícil, complexa (provavelmente com necessidade de diversas substituições em várias áreas) mas também sabemos que é uma das vias possíveis para valorizar o futebol-jogo, captando também mais investimentos para o futebol-negócio, porque transparente, cumprindo leis e regras controladas e exigentes. Será utopia? Mesmo assim, vale a pena lutar por isso.

É urgente que o futebol e os seus agentes “parem um pouco para pensar”, evitem falar a velocidade supersónica, definam modelos integrados, nítidos, globais, onde todos se possam sentir devidamente tratados. E nunca fujam do contraditório. Com tranquilidade distingue-se mais facilmente o conhecimento, a competência, a sabedoria, do golpismo e da cedência a lóbis sempre destrutivos. Isso permite defender melhor o nosso futebol, sem receios de colocar em causa a viabilidade dos empréstimos de jogadores, que causam sempre dependência aos clubes com menor poder financeiro, com afirmação de contributos para engrandecer o futebol, os seus regulamentos e procedimentos, com inclusão, com debate e ação consistente, com pudor, com responsabilidade, com desportivismo, permitindo que os jogos nunca percam uma das suas marcas de sonho: a imprevisibilidade do resultado. O futebol nunca se pode resumir a uma única Liga, por mais importante que seja e por maiores verbas que envolva.

Para o equilíbrio da pirâmide é imprescindível uma ideia global, um projeto comum, articulado, com influências recíprocas e um plano de formação envolvente e dinâmico (completamente diferente do que temos hoje), afinal onde a magia começa! Aristóteles afirmava que “O todo é maior do que a simples soma das suas partes.” Desconheço se já conseguia marcar golos de trivela… mas continua a ter razão!

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol
Ler Mais
11:39  -  15-08-2017
Lendas que resistem a tudo (artigo de Aníbal Styliano, 29)
10:28  -  02-08-2017
Futebol: 2017, o Ano da grande vertigem e do assalto ao futuro (artigo de Aníbal Styliano, 28)
20:44  -  29-07-2017
Vítor Pereira assume nomeação na Grécia (artigo de Aníbal Styliano, 27)
12:23  -  22-07-2017
Fundos sem fundo (artigo de Aníbal Styliano, 26)
08:09  -  09-06-2017
Sem retorno (artigo de Aníbal Styliano, 24)
08:00  -  31-05-2017
Futebol coerente: Um golo eficiente (artigo de Aníbal Styliano, 23)
12:50  -  09-05-2017
Golo na própria baliza (artigo de Aníbal Styliano, 22)
21:29  -  30-04-2017
Do futebol para a nossa sociedade (artigo de Aníbal Styliano, 21)
11:43  -  26-04-2017
Futebol: Caos, guerra, indiferença ou dignidade? (artigo de Aníbal Styliano, 20)
15:53  -  21-04-2017
Aprisionar o futebol? Missão impossível! (artigo de Aníbal Styliano, 19)
21:32  -  15-04-2017
O dia em que o futebol foi esquecido (artigo de Aníbal Styliano, 18)
17:31  -  07-04-2017
«Futebol sem cartilhas» (artigo de Aníbal Styliano, 17)
23:54  -  23-03-2017
Nunca te esqueças (grita-nos a Memória do futebol) (artigo de Aníbal Styliano, 16)
21:39  -  16-03-2017
O indomável e imprevisível futebol (artigo de Aníbal Styliano, 15)
22:45  -  13-03-2017
Jogos que não se podem perder: o futebol ou vence ou é destruído! (artigo de Aníbal Styliano, 14)
00:04  -  28-02-2017
Football Talks e o equilíbrio da Pirâmide (artigo de Aníbal Styliano, 13)
16:49  -  23-02-2017
O que é a perfeição? (artigo de Aníbal Styliano, 12)
12:32  -  18-02-2017
Futebol, Sinais e Rumos (artigo de Aníbal Styliano, 11)
16:39  -  28-01-2017
O futebol como exemplo de liberdade (artigo de Aníbal Styliano, 10)
13:41  -  28-12-2016
Os maiores desafios ao futebol (artigo de Aníbal Styliano, 7)
18:15  -  08-11-2016
Futebol com inclusão ou imposição? (artigo de Aníbal Styliano, 4)
15:39  -  26-10-2016
Futebol - Uma outra face (artigo de Aníbal Styliano, 3)
16:54  -  28-09-2016
Formação de treinadores de futebol em Portugal (artigo de Aníbal Styliano, 2)
Comentários (0)

Destaques

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais