Ninho de cucos (artigo de José Antunes de Sousa, 83)

Espaço Universidade 25-08-2017 16:35
Por José Antunes de Sousa
Júlio Dantas, no seu conhecido e glosado livro O Amor em Portugal no Séc. XVIII e citando Frei Joseph Queiroz, o Bispo do Grão-Pará, designa de “cucos” os maridos infelizes. Ora, todos sabemos que o cuco é uma ave que se caracteriza pela sua proverbial preguiça doméstica que o leva a pôr os ovos em ninho alheio: por antítese, o marido cuco é o que permite a entrada dos outros no seu ninho, isto é, tanto é cuco quem viola a intimidade de outrem como o é igualmente quem tal permite.

Vem a propósito o título do filme “Um Estranho no Ninho”, realizado por Milos Forman e baseado no romance homónimo de Ken Kesey. Para esta nossa breve reflexão, tomemos o ninho como metáfora do clube de futebol: é evidente para todos como preguiçosos magnatas se apoderaram e continuam a apoderar da emoção e do sentimento de pertença que tantos e épicos anos demorou a germinar e a consolidar, e tomaram de assalto essa genuinidade fértil dos afectos de vetustas agremiações para nela semearem o joio de um capitalismo perverso e incendiário.

Há dias, em texto que me foi solicitado por ilustre académico brasileiro sobre o estatuto epistemológico do treinador dos escalões da formação, tive oportunidade de denunciar a deriva teratológica que o futebol profissional, com laivos de chocante obscenidade, vem cada vez mais exibindo e de que o triste episódio do recente leilão de Neymar tão interpelantemente reflecte. A beleza ridente e auspiciosa de um futebol-arte está cada vez mais desfigurada e aquilo que, na génese, fora uma surpresa de encantar, está a dar lugar a medonhas malformações – o bebé gerou um monstro.

E, nesta actividade predatória, desenvolvida por cucos opulentos cujo único mérito conhecido é o de terem deitado a mão ao marfim antes dos demais, tão cuco é aquele que ocupa o clube (ninho) como aqueles que docilmente permitem tão oportunística ocupação: fazem lembrar aqueles maridos que, segundo o mesmo Dantas, vivem à custa dos amantes das próprias mulheres – são os “ribeirinhos”. Trata-se, porém, de uma usura narcísica à qual é cada vez mais fácil prever um fim autodestrutivo, como na fábula clássica em que o fascínio pela própria imagem reflectida nas águas dita a morte do próprio Narciso.

A propósito de águas, os tubarões pescam/caçam à vontade nas águas revoltas de um litoral de tibieza, uma caça facilitada por um isco mesmo à maneira – a SAD. Através deste oportuno instrumento jurídico, os homens do dinheiro fácil e torrencial (as torrentes têm, porém, um problema: são rápidas!), ocupam os ninhos de afectos e de paixão e, incendiando esse rastilho de paixões com ingredientes rápidos de sucesso/vitória (grandes vedetas internacionais) lá vão iludindo o povo que, obnubilado pela paixão e pela sede de vitória imediata, nem se apercebe que o seu amado clube há tempo que deixou de ser seu: quem, em seu perfeito juízo, acredita, por exemplo, que o PSG é dos parisienses ou que o Chelsea é dos aposentados de Londres?

Esta é, pela própria natureza tensional do processo, uma situação que necessariamente vai rebentar – é a lei da física. O mercado vai implodir porque os cucos passivos acabarão por rebelar-se contra os ninhos oligárquicos e déspotas que tendem a abafar e anular todos os outros: será, sem dúvida, o estrebuchar no desespero da asfixia.

Os ricos, que o são por agora, serão vítimas do que eu chamarei a lógica viciosa da coceira: de tanta comichão, não conseguem parar de se coçarem, até que só o bisturi lhes acudirá – tarde de mais, porém! Em maré dolorosa de incêndios, apetece dizer: em Vila de Rei são os pobres bobos, esse tipo de gentalha pateta que, dobrada sobre si mesma, cavalga um prazer de onanista que ateiam o fogo, enquanto que nos ninhos tão laboriosamente construídos são os magnatas das limusines que o ateiam – em ambos os casos, o incêndio exibe a mesma característica: torna-se incontrolável.

Assim como nos tempos de Nero, Roma foi pasto de chamas em fúria, assim também hoje: Paris está a arder! O edifício instável deste futebol está em vias de colapsar – garanto. Mais tarde ou mais cedo, mas garantidamente.

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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