Manuel Machado… o dia seguinte (artigo de Aníbal Styliano, 30)

Espaço Universidade 21-08-2017 23:36
Por Redação
Afinal, as declarações após os jogos podem ter muita importância. Após a derrota no Dragão, o treinador do Moreirense reconheceu naturalmente o triunfo do FCP. Triunfo claro, sem contestação. Dos diversos jogos a que assistimos, ficamos com a convicção de que este campeonato da Liga I dá algumas indicações de menor competitividade e de algumas equipas abaixo do que era habitual. São impressões e nada mais, pois há pouco tempo e alguns fatores não podem ser menorizados, como a “enorme janela aberta de transferências” que serve os grandes colossos da europa mas penaliza muito a tranquilidade dos clubes com menores recursos financeiros.

Manuel Machado aproveitou para falar também de aspetos importantes do jogo e das competições. «Os Presidentes da Liga e da FPF, o Secretário de Estado do Desporto e a Imprensa vão ser responsáveis pelo futuro. Ou se promove o equilíbrio, ou esta desigualdade vai acabar com o futebol. Só importam os três grandes, o resto é carne para canhão», afirmou no final do jogo. Não faltaram interpretações e comentários (alguns demasiado rápidos, o que não ajuda a pensar), mas poderia ter havido um pouco mais de reflexão.

Na Europa do poder do Futebol já há quem coloque em cima da mesa, a limitação de orçamentos e a definição de tetos salariais. A inflação galopante das aquisições dos passes dos jogadores mais geniais (agora considerados MARCAS) atinge somas exorbitantes que valorizam o futebol-negócio, mas nada trazem de novo para o futebol-jogo. Essa especulação rumo ao precipício não deve ser encarada com desânimo mas antes com a raça do futebol, ou seja, é sempre possível formar uma equipa com bons jogadores que consiga vencer outra com superestrelas milionárias… a não ser que o VAR, que dizem vir para ajudar, confirme o reverso da medalha: afinal também veio para ocultar, para enganar, falhar, esconder e favorecer.

Uma referência para uma entrada muito violenta de um jogador sobre o adversário já no solo, excessivamente dura e perigosa, que passou incólume a árbitros, aparelhos e tecnologias, mas que a televisão revelou na sua completa extensão. Para além do eventual risco de lesão grave (sei bem do que estou a falar), que pode causar um definitivo e traumático abandono da profissão, há dignidade profissional que nunca se deve esquecer… E tem de haver aplicação de justiça, inclusive para quem esteve distraído. A questão dos Grandes e dos Pequenos, quase sempre precipitadamente estratificada (um “Grande” vence, empata ou perde; um “Pequeno” nunca vence e raramente empata). Distinguir e atribuir mérito tem mais a ver com competência, imparcialidade e paixão pelo jogo do que servilismos oportunísticos.

Numa competição, independentemente das realidades orçamentais todos são imprescindíveis, caso contrário, só jogavam 3 ou 4 clubes. Curiosamente, os outros, a grande maioria, apresenta quórum para poder disputar um campeonato. A atribuição de responsabilidade futura tem algum cabimento porquanto há exemplos que deveriam ser adaptados.

Comecemos pelos clubes que descem de divisão. Nos últimos 10 anos, das 19 equipas que desceram de divisão, só três conseguiram regressar à Liga I na época seguinte… a descida cria adversidades muito grandes, a nível económico e não só, especialmente pela diminuição abrupta das receitas televisivas. Há países que sabem defender o futebol, no seu conjunto, e nesses momentos de risco para a sobrevivência de clubes, criam mecanismos de apoio. Em Inglaterra, existem verbas (Parachute payments) distribuídas pelas 3 épocas seguintes a seguir à descida. Só se um clube descer e subir de novo é que recebe duas épocas. E são muitos milhões!

Nesse país, a distribuição das receitas televisivas pelos clubes, independentemente do valor, revela uma atitude inteligente de apoio à fidelização dos adeptos: o primeiro classificado (Chelsea) teve direito a 172,9 Milhões; o Sunderland, 20.º classificado (foi quem recebeu menos) teve direito a 107 Milhões. Logo, uma excelente e exemplar capacidade de partilha. Não pode servir de exemplo, em termos de percentagens?

Em Espanha, para pagar apoios há 3 critérios: anos de na primeira divisão, orçamentos e receitas de direitos televisivos. No mínimo, quem desce à segunda divisão recebe 9 milhões de euros e os que descem à terceira divisão recebem 1,2 milhões de euros. Em Itália, quem desce de divisão recebe fundos em função do número de anos que jogaram na primeira liga. Três temporadas dão direito a 25 milhões, 2 anos a 15 milhões e 1 ano 10 milhões. Em França, o apoio financeiro dura 2 épocas, aos clubes que desceram à segunda e à terceira divisão. Os valores descem para metade na época seguinte e variam consoante a disponibilidade do organismo e da história do clube, o que determina o valor a atribuir pois consideram que há maiores problemas para quem joga na liga I há mais anos.

Mas voltemos aonde tudo recomeçou: Lei de Bases do Sistema Desportivo, já lá vão 27 anos. Sem se definir o enquadramento dos clubes praticantes de futebol profissional, começou-se pelo topo, estipulando as divisões exclusivas para as equipas de futebol das competições profissionais. Sem estabelecerem questões importantes como limites orçamentais e massa salarial, nem clarificar volumes de negócios, média de assistentes por jogo, percentagem de autofinanciamento (e outros pormenores indispensáveis) arrancou-se sem ter em conta uma realidade muito simples: todos os clubes dessas divisões teriam capacidade para satisfazer as exigências a que iriam ser sujeitos?

Começar sem alicerces é sina desta “jangada de pedra” habitualmente sem rumo. Claro que inovar, a partir de profunda reflexão sobre o nosso futebol (e o desporto em geral) é sempre adiada, pois o hábito de adaptar/copiar o que outros fizeram acaba sempre por seduzir as eminências pardas (certamente muito bem pagas) que são encarregues de cumprir essa tarefa. Até essas escolhas nunca revelam publicamente os critérios de base. Espanha produziu um quadro legislativo estruturado, em função de objetivos definidos para o crescimento sustentado (chegaram mesmo a decretar um ano zero, incluindo perdão fiscal), clarificando todas as dúvidas… e penso que chegou a haver uma segunda e última oportunidade.

Por cá, preferiu-se, como sempre, que os milagres (e não os projetos criteriosos e ajustados) conseguissem o equilíbrio financeiro dos clubes, mas esquecendo as tendências de aperto económico que se verificavam. Desvalorizaram-se os clubes, a importância do movimento associativo e acumularam-se constantes e dramáticos equívocos, também nas sucessivas nomeações governamentais para o setor do Desporto.

Naturalmente, essa Lei de Bases do Sistema Desportivo (Lei n.º 1/90 de 13 de Janeiro) obrigou aos ajustamentos indispensáveis dos diversos estatutos das federações desportivas, para poderem continuar a ser reconhecidas como Instituições de Utilidade Pública Desportiva (UPD). Recorde-se um episódio invulgar e esclarecedor: A FPF, por não conseguir celeridade nessa empresa, por decisão do Secretário de Estado na época (1994-95) ficou com o estatuto de UPD suspenso, criando situação grave e mesmo impossibilidade de realização de diversos campeonatos distritais, inclusive dos escalões de formação. Por momentos, a equipa de todos nós passou a ser designada, de forma caricata, Seleção da FPF e não Seleção Nacional.

É destino nacional assistir à proliferação de produção legislativa, mas sempre sem o acompanhamento das disposições que as deviam tornar eficazes. Sem transparência, cedendo a interesses de eventuais lóbis, desvalorizando o peso de heranças por resolver, nada poderia começar bem. Não bastou que um destacado quadro das instituições que sempre tutelam o desporto deixasse o desejo de que teria de surgir um novo modelo de dirigente, como solução instantânea… De desejos sebastianistas estamos fartos. Em síntese, a LBSD nunca cumpriu os prazos estipulados. Quando a própria lei não é cumprida, não é um bom sintoma (embora estejamos muito mal habituados). O Decreto-Lei 144/93, de 26 de Abril (artigo 46.º) estipulava indicadores que deviam acompanhar o reconhecimento das competições profissionais, mas durante muitos anos nunca foram definidos com precisão, sendo vagos e originando casos de triste costume.

Nessa altura, a Espanha já obrigava ao depósito de uma verba percentual sobre o valor do orçamento, já se contemplava sanção de descida de divisão e a responsabilização dos dirigentes (sobre as sociedades, no caso das sociedades desportivas e sobre as direções nos outros casos), para os incumpridores. Por isso, o tempo trouxe destinos bem diferentes.

Falta a Portugal visão estrutural, rigor financeiro, competência e disponibilidade para pensar/debater futebol sem preconceitos ou unanimismos, transparência, sólida e eficiente gestão, indispensável aos clubes profissionais e a todos, em geral. Portugal, ocupando o 5.º lugar na tabela de países que maior percentagem apresenta de jogadores estrangeiros (55,6%), não devia pensar como fixar os nossos jovens talentos, que nas competições internacionais de seleções conseguem excelentes resultados?

O Treinador de Futebol, Manuel Machado, levantou uma questão pertinente, com a sua proverbial frontalidade, embora incómoda para alguns que continuam com complexos na defesa organizada/orquestrada dos “poderosos”. No popular e fantástico futebol de rua, quando um miúdo (independentemente da situação económica da sua família) não aceitava as regras e queria impor as suas, perdia o direito a participar nessas competições. Restavam-lhe duas opções: reconhecer o erro e integrar-se com todos ou procurar arranjar outros parceiros e criar uma nova competição.

Hoje, continuamos a desejar o universo sábio dos miúdos sem medo, no universo dos adultos. Quem está de “corpo e alma” com as Superligas europeias (ou globais) e quem pretende valorizar e desenvolver as ligas nacionais? Assumam sem reticências nem esconderijos para todas as oportunidades. Os interesses dessas opções são inconciliáveis. Manuel Machado, mais um bom pontapé de saída para se pensar e se tentar desenvolver o nosso futebol com a sustentabilidade que merece.

Afinal, somos Campeões Europeus, com muito orgulho!

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol
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