Fracos lutadores olímpicos, aspirantes a títulos honoríficos… (artigo de Gustavo Pires, 67)

Espaço Universidade 11-08-2017 16:39
Há quem diga que a história não se repete. Contudo, o futuro também não surge por acaso. E não surge por acaso na medida em que os dirigentes, no mais confrangedor desconhecimento da história e num utilitarismo imediatista que os afasta da compreensão técnico-científica dos problemas, passam a vida a tentar “inventar a roda” e, em consequência, a utilizar os mesmos procedimentos e a cometer os mesmos erros que já foram cometidos no passado.

Por isso, de há muito tempo a esta parte, perante uma enorme e profunda abulia governamental, existem dois problemas no desporto nacional que se vêm a repetir ao longo dos anos. Em primeiro lugar está a ausência de contraditório com que, salvo as devidas exceções, se processam as eleições que decorrem com listas únicas nas organizações do vértice estratégico do desporto nacional que acabam por revelar uma fraca cultura olímpica de competição. Em segundo lugar, um apetite muito especial para com as condecorações com que, sem qualquer razão minimamente credível e perante o olhar divertido da sociedade, os dirigentes se agraciaram uns aos outros.

Mas, como o futuro não surge por acaso, estas duas particularidades característica da cultura desportiva nacional – fracos lutadores olímpicos e aspirantes a título honoríficos - não é de agora. Ela já vem de longe e o primeiro a denunciá-la foi Francisco Nobre Guedes (1893-1969) presidente do Comité Olímpico de Português (COP) de 1957 a 1968 que, uns anos antes, numa das suas prosas de ataque à situação que se vivia no COP liderado por José Pontes (1879-1961) escrevia no Diário Popular: “Contra o que pode iludir o sucesso aparente, o Olimpismo atravessa uma fase crítica. Tem de vencer maiores riscos do que no período de crescimento, para não se perder ou para não se aviltar, o que seria pior. Precisa ao seu serviço de quem compreenda a necessidade da luta e nela se empenhe conscienciosamente. Não admite fracos lutadores ou aspirantes a títulos” (1955-109-03).

Nobre Guedes referia-se a José Pontes que no COP, devido ao exagerado número de anos sofregamente agarrado ao poder, foi atingido pelo mal de hybris e perdeu-se no exercício de uma liderança profundamente incompetente, ao estilo “magister dixit” do tradicional “quero, posso e mando” tão português. Contudo, apesar de José Pontes ser alguém com uma incontida vaidade pessoal e um homem do regime ao tempo em que o respeitinho fascista era muito bonito, não foi por isso que apresentou queixa contra Nobre Guedes um assumido opositor a Salazar, obrigando-o a, pelo menos, fazer uma visita à Rua António Maria Cardoso 22. Quer dizer, apesar de tudo, ainda havia da parte de muito boa gente, sobretudo no mundo do desporto, uma certa nobreza na luta política, característica de cultura democrática, representada, entre outros e em muitas circunstâncias, pelo jornal “A Bola”.

Entretanto, devido aos estragos que José Pontes estava a provocar no desporto nacional, depois do desastre que foi a Missão portuguesa aos Jogos Olímpicos de Melbourne (1956), como o Governo da altura não lhe dava dinheiro para distribuir pelas Federações Desportivas, estas, à força, apearam-no da presidência do COP e mandaram-no para casa. O problema maior foi que, o apego ao poder, a incontida vaidade pessoal e a irresponsável incompetência de José Pontes, deram origem a uma das maiores crises (1956-1963) pelas quais Movimento Olímpico português já passou, muito embora a Missão Olímpica portuguesa aos Jogos Olímpicos de Roma, com o COP já sob a liderança de Nobre Guedes, tenha sido bem mais positiva.

Infelizmente, sessenta anos depois dos JO de Melbourne (1956), perante os medíocres resultados conseguidos nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016) apesar dos exorbitantes subsídios ao COP, o exemplo de José Pontes não serviu para nada. Em consequência, ao contrário daquilo que aconteceu à presidência de José Pontes, tudo continua na mesma pelo que já se está a trabalhar com acrescida competência burocrática, na ilusão de que, numa estratégia de “mais do mesmo”, os resultados em Tóquio (2020) possam vir a ser muito diferentes dos conseguidos nas últimas edições dos Jogos Olímpicos.

Embora o futuro não surja por acaso, Francisco Nobre Guedes não suspeitou certamente que, sessenta anos depois, as suas palavras, relativas aos fracos lutadores olímpicos e aos aspirantes a títulos honoríficos, continuariam a estar na ordem do dia.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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