Esta palavra “paradigma” (artigo de Manuel Sérgio, 205)

Ética no Desporto 08-08-2017 16:38
Por Redação
Na epistemologia kuhneana de investigação científica, parecem-me fundamentais quatro conceitos: o de paradigma, o de ciência normal, o de crise e o de revolução científica. O paradigma, se bem me lembro, trata-se de um modelo que os cientistas de uma determinada época partilham e aceitam.

São exemplos, entre outros, de paradigma a conceção aristotélica de movimento, a astronomia de Ptolomeu, a mecânica de Descartes e Newton, a teoria da relatividade de Einstein. Mas, sobre o mais, o conceito de paradigma tem bases sociológicas, dado que um grupo de cientistas (em linguagem técnica: uma comunidade científica) quase sempre com respeitoso afeto, o aceita, o trabalha, o aplaude. Não há então cientista que se preze que não oriente a sua investigação senão para tentar a consolidação e o desenvolvimento do paradigma em que acredita. Nas décadas de 60 e 70, cirandava eu pelo Estádio do Restelo e assisti a inúmeros treinos de alguns dos mais conceituados treinadores de futebol portugueses. A maioria destes profissionais não procurava apoio na leitura. O livro era então e é hoje ainda um dos mais úteis instrumentos do saber e do conhecimento. No meu modesto pensar, nem o audiovisual, nem a oralidade, nem a internet escapam a uma certa superficialidade. A “cultura do livro”, sem pôr de lado tudo o mais aqui citado, parece-me um sólido suporte ao que de nós exige a especialidade numa área do conhecimento. Ora, nem os treinadores de futebol, que eu conheci, em tempos já distantes, nem grande parte dos atuais, tem a sua biblioteca de consulta habitual. Se os médicos, os advogados, os engenheiros, etc., etc. assinam revistas e lêem livros que se ocupam das suas especialidades, o mesmo deverá suceder com os treinadores de futebol e com os treinadores das restantes modalidades desportivas.

A cultura é a aliança do saber e da vida, é prática e é teoria. De facto (já o digo há muitos anos): “a prática é mais importante do que a teoria e a teoria só tem valor, se for a teoria de uma determinada prática”. Mas… quem só pratica repete! No processo da evolução, tanto individual como social, necessário se torna, portanto, pôr em questão o legado que nos deixaram, para que novas ideias nos apontem caminhos novos. No âmbito desportivo, o paradigma dominante é o das ciências hermenêutico-humanas. E, assim, para além dos aspetos físicos e técnicos e táticos, o treinador tem, diante de si, “indivíduos” que ele pretende se transformem em “pessoas”. Treinar não pode resumir-se a alguns aspetos do jogo, mas principalmente à formação dos homens que jogam.

O treinador, em muitos momentos da relação treinador-atleta, deverá saber ser também um filósofo, um humanista, um animador espiritual. A crise, em muitos departamentos de futebol, deve-se, em grande parte, a uma ausência de referência a valores. Eu digo mais: o treino deverá enfrentar a questão dos valores como uma questão fundamental. Por mais inteligentes que sejam as táticas; por mais inovadoras que sejam as técnicas – o paradigma que informa a prática desportiva postula também uma certa causalidade onde os valores estão presentes. Uma dialética entre o empírico e o reflexivo, entre a teoria e a prática, entre os meios e os fins, em que os valores se objetivem no espaço e no tempo do futebol (do desporto), parece necessária e urgente. Mas será possível fazê-lo com treinadores que julgam que o futebol é só futebol e com dirigentes cujo “modus vivendi” não passa de um nomadismo impante, ruborizado, de aparente felicidade, mas… ao serviço de escondidos interesses?

A questão fundamental é saber qual o paradigma onde, com um mínimo de certeza, se pode investigar, estudar, praticar futebol. Passo a palavra ao meu antigo professor, na Faculdade de Letras, Padre Manuel Antunes: “juízos de facto, fragmentários e dispersos, por mais numerosos e verificados que eles apareçam, não chegam para constituir um sistema, um todo estruturado fazendo sentido, um horizonte aberto em que venham inscrever-se, com verdadeira correlação, novos dados, novos juízos de facto, novas dimensões. Cúmulos não são conjuntos” (Educação e Sociedade, p. 191). E são juízos de facto, só juízos de facto, que resultam de tanta conversa que por aí se escuta acerca do futebol. E, no entanto, antes de tudo, o futebol exige princípios e modelos e valores. Eu sei que uma equipa de futebol precisa de jogadores e treinadores, uns e outros de excelência. Mas precisa também de valores, onde os juízos de facto encontrem fundamento e horizonte. Não se trata de manter, contra tudo e contra todos, as partes mais carunchosas da tradição, mas de retomar a tradição daqueles valores que formam o cerne da nossa civilização ocidental e cristã. Até o futebol de altíssima competição deles tem absoluta necessidade. Há poucos dias, em conversa telefónica, com um prestigiado treinador de futebol, dele ouvi o seguinte: “Quem ainda não entendeu que o futebol precisa de jogadores, de treinadores e de dirigentes, com grandes qualidades humanas, ainda não sabe o que é o futebol”. Ando, à minha maneira, no futebol, há muitos anos já. Com 84 anos de idade, sinto que intelectualmente (só intelectualmente!) ainda não estou velho, porque tenho vivido várias juventudes sucessivas. E, ao longo das juventudes que já vivi, mais se radicou em mim a ideia de que, entre o “meu” futebol e o futebol de algumas pessoas, mesmo de garbo, distinção, boa proporção da frase e ótima distribuição do pensamento – há incomensurabilidade!

Mas, nesta incomensurabilidade, nesta incompatibilidade, entre duas formas de pensar, eu não pretendo afirmar que a razão está do meu lado. Eles são produtos e, ao mesmo tempo, as mais entusiasmantes figuras da nossa Sociedade do Espetáculo. Eu não passo de um funcionário público aposentado (sem outros rendimentos, aliás) e não encho o país com o estrépito das minhas polémicas, nem as “revistas cor-de-rosa” com a fama da minha vida airada. Para muitos, os que vão aturdindo os estádios com vivas e palmas aos novos ídolos, a razão é toda deles e não minha! Resta-me continuar a estudar e a sonhar com um tempo que nunca verei. O meu paradigma é outro. E portanto a minha visão do mundo e da vida é outra também. Mas eu não desanimo e continuarei a ler e a escrever, contando com a generosidade dos meus leitores e editores. Conta J.P. Oliveira Martins (tio-avô, se bem penso, do Doutor Guilherme d’Oliveira Martins, meu Amigo e meu Mestre), no seu livro Perfis, que Alexandre Herculano convidou várias vezes o Almeida Garrett a visitá-lo no seu eremitério da Ajuda. Este, uma tarde, entrou radiante na casa de Herculano, adiantando que já sentia saudades do velho historiador e com ele queria passar alguns dias. No entanto, a razão primeira da visita à Ajuda de Almeida Garrett não era o Herculano, mas uma amante por quem se apaixonara e que residia em Pedrouços. “Até que uma noite entra Garrett por casa do Herculano, em braços, com uma perna quebrada. Aconteceu-lhe a saltar o muro. Tantas vezes a bilha vai à fonte!...”. Durante o mês que durou a convalescença, escreveu Garrett o Frei Luís de Sousa. “Herculano, limpando o pingo com o seu lenço vermelho, depois de ouvir a peça exclamou com entusiasmo: Abençoada canelada”.

Já eu não posso dizer: abençoadas artroses que me afligem! É que não sei escrever como Almeida Garrett, nem tenho o génio de Almeida Garrett. Mas ainda mantenho um audacioso rompante, para exclamar: O meu paradigma é outro!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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