Um Estado Olimpicamente Falhado (artigo de Gustavo Pires, 66)

Olimpismo 04-08-2017 10:40
Por Gustavo Pires
O desporto é uma atividade humana que tanto pode conduzir às mais belas virtudes como às mais confrangedoras aberrações. Tanto pode levar ao surgimento de autênticos “milagres” de superação e transcendência como, em contrapartida, às mais degradantes situações de miséria social.

Por exemplo, uma das estórias mais significativas das virtualidades do desporto que nunca me canso de recordar é a da menina que, numa competição paralímpica de atletismo, ganhou a corrida de 60 metros. Ela ficou radiante pelo que gritava para os pais que tinham assistido à prova: “Vejam pai, mãe, eu ganhei"! E os pais, abraçados à sua filha, choravam de alegria. Quando depois, na cerimónia de entrega dos prémios, alguém perguntou aos pais que continuavam muito emocionados, se havia algum problema eles disseram que não. Antes pelo contrário, estavam felicíssimos porque, pela primeira vez, tinham ouvido a sua filha a falar.

Em contrapartida, um desporto que permite que uma criança de onze anos seja subtraída à família, a fim de, numa lógica de negócio, ser colocada numa “fábrica de jogadores de futebol” a milhares de quilómetros de distância é, a todos os títulos, uma aberração. Um desporto que aceita este tipo de situações, diga-se o que se disser, atingiu a mais completa podridão. Uma sociedade que, acriticamente, possibilita tal anormalidade é uma sociedade doente.
Os responsáveis por este estado de coisas são os dirigentes políticos e desportivos. Mas nem todos porque existem dirigentes políticos e desportivos extraordinários que se dedicam, de alma e coração, à causa desportiva. O problema é que também existem autênticas sanguessugas do desporto e dos atletas pelo que só se interessam pelas mordomias do olímpico “dress code” das festas e festarolas cor-de-rosa, pelos negócios de milhões das grandes empresas e pelos partidos políticos que os sustentam.
Hoje, o desporto, do ensino ao alto rendimento, é um instrumento de fundamental importância para a euritmia do equilíbrio pessoal e social das comunidades e dos países. Todavia, a sociedade, captada pela mais irracional alienação desportiva, parece não ver as incríveis aberrações sociais que o desporto está a provocar. Por exemplo, perante a mais confrangedora incompetência dos governos o que se está passar no Movimento Olímpico em geral e no futebol em particular é inqualificável. E tanto mais é quanto se sabe que, em matéria de desporto, a sociedade até convive bem com autênticas agressões aos direitos humanos desde que as vítimas sejam capazes de marcar golos ou ganhar medalhas olímpicas. Isto significa, tão só, que os fins justificam os meios e que o desporto está a funcionar à margem dos mais basilares princípios ético-morais que o deviam orientar.
Salvo raras exceções, os dirigentes posicionados no vértice estratégico dos sistemas desportivos, num número cada vez maior de proveniência político-partidária, estão mais interessados nos benefícios económicos, políticos e pessoais que o desporto lhes pode proporcionar e ao respetivo partido do que, propriamente, no desenvolvimento da missão das organizações a que pertencem. Em conformidade, estão transformados numa espécie de facilitadores de negócios e de troca de favores políticos. Só assim se compreende que existam CONs que, perante a indiferença do Estado e dos mais ridículos olímpicos Conselhos de Ética, possam, irresponsável e impunemente, utilizar crianças a fim de promoverem a imagem dos dirigentes e das marcas das empresas multinacionais que, financeiramente, os sustentam. Afortunadamente, “tantas vezes vai o cântaro à fonte…” que, volta e meia, estes dirigentes são apanhados pela justiça sob a acusação de corrupção ativa e passiva, prevaricação, peculato e tráfico de influência.
Esta nova vaga de dirigentes não surgiu de gestação espontânea. Se olharmos para os principais patrocinadores da generalidade das organizações desportivas, das grandes empresas multinacionais aos partidos políticos quando estão no governo, facilmente se concluiu que o desporto foi capturado pelos negócios e pelos partidos políticos que, como se sabe, acabam a interagir em favor de uma oligarquia que, na promiscuidade entre o paradigma do desporto social e o paradigma do desporto económico, independentemente de quaisquer princípios, valores ou ideologia, convive, sem qualquer pudor, a tirar partido da situação. Porque, parafraseando António Silva, como não há moralidade comem todos.
Em consequência, em muitos países do mundo, os Comités Olímpicos Nacionais (CONs) que deviam ser os guardiões dos princípios, dos valores e das boas práticas em matéria de desenvolvimento do desporto em prol da educação, da cultura e do desenvolvimento, estão transformados em autênticas agências de comunicação e marketing ao serviço de empresas multinacionais e dos partidos que sustentam uma oligarquia de dirigentes políticos e desportivos humanamente mal formados que descobriram no dirigismo desportivo um extraordinário elevador económico, político e social, bem como no desporto um negócio de muitos milhões do qual se podem aproveitar.
Quando o desporto se transforma num elevador social, económico e político em favor de dirigentes políticos e desportivos oportunistas e os espetáculos desportivos em negócios de milhões que alimentam a ganância sem limites de empresas multinacionais, a educação, a cultura, o desenvolvimento e, até, a integridade do desporto, deixam de ser importantes. E quando os CONs, no desrespeito pelos princípios e pelos valores que deviam defender, se transformam em instrumentos que “acrescentam valor” aos desígnios político-partidários e aos grandes promotores de negócios desportivos, deixam de honrar o legado de Pierre de Coubertin, respeitar a Carta Olímpica, acreditar no seu credo, cumprir a sua vocação e agir de acordo com a sua missão.
Sempre que os CONs, no desrespeito pelos princípios e pelos valores que deviam defender, se entregam a obscuros jogos entre o desporto, a política e os negócios, ou a sociedade civil age decididamente obrigando os governos a desenvolverem Políticas Públicas do ensino ao alto rendimento destinadas à generalidade da população, sobretudo à mais desfavorecida ou, em matéria de desporto, os Estados passam, olimpicamente, a ser falhados.
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