Futebol: 2017, o Ano da grande vertigem e do assalto ao futuro (artigo de Aníbal Styliano, 28)

Espaço Universidade 02-08-2017 10:28
Por Aníbal Styliano
Os mais ricos da Europa, numa estratégia concertada, num liberalismo sem regras (etimologicamente selvagem), estavam convencidos que conseguiam parar o tempo, para usufruir de mordomias perenes e alargar uma corte de servos submissos (controlar, "comprar" tornou-se hábito, incluindo colaboração de ídolos com passado fantástico, mas presente pouco recomendável).

O futebol (o mundo em geral) foi-se hierarquizando em estruturas
infindáveis, de complexidade extrema e poder absoluto, com lideranças
inacessíveis ao serviço de grupos ocultos que praticam fervorosamente o
culto de nova entidade suprema: OS MILHÕES, muitos milhões sem fim.

Cada vez mais, com uma liberdade inusitada, o "Clube" dos muito
endinheirados passou a divertir-se também com contratações de jogadores de futebol (tipo monopólio de família restrita em jogos de inflação galopante), para ver quem se atrevia a subir a parada: tipo jogo da roleta russa!

Uma parte da Comunicação Social (praticamente na dependência desses
players) delirou, pois todos os dias havia notícias frescas e com garantia total de audiências planetárias. Convém recordar que as receitas e despesas dos grandes clubes europeus de futebol, com todo o esplendor dos seus milhões, são sempre notícia viciante para multidões ávidas de confronto de argumentos e de clubismos fanatizados.

O combate, a luta, como constituinte do nosso ADN coletivo, foi evoluindo e substituindo a força e coragem física, a sabedoria e a proximidade de divindades, pelo poder de riquezas, de milhões, tenham a origem que tiverem, tragam ou não vestígios de injustiça, de sangue ou de eventuais fugas à lei!

Dos 20 clubes de futebol mais ricos da Europa (8 de Inglaterra, 4 de
Itália, 3 de Espanha, 3 da Alemanha, 1 de França e 1 da Rússia, entre
outros sempre prontos a integrar esse grupo de privilégios) as receitas, em conjunto, atingiram este ano o valor de 7.538,1 milhões de euros!

Quantos desses clubes mudaram e vão mudar de donos?!

Em 2017, os donos e os adeptos desses grandes colossos europeus tiveram uma
surpresa: A escala mudou, a escala como base de tudo agora é de outra
dimensão. Até as apostas desportivas são de outra galáxia.

Os milhões aumentam, as proveniências dos recursos alargam-se a outras
latitudes, outros continente, outros valores e contextos culturais e
civilizacionais diversificados.

A escala, imparável, prepara-se para engolir os que até aqui dominaram o futebol, particularmente nos últimos anos. Toque a rebate, pois a questão passou a ser de "vida ou de morte" (para
investidores, é claro)! Fair Play Financeiro, imposição de tetos salariais, redução do número de
jogadores por planteis de clubes, criação de um imposto de luxo (jogadores comparáveis a jóias ou quadros de arte valiosos?), são algumas das medidas e estratégias de "naufrago aflito" para procurar salvar-se e não perder o controlo, mesmo que assumindo regras com as quais nunca concordou. O que se faz para não perder o lugar!

Em termos ambientais, a Terra passa pelo mesmo dilema do futebol e já com
sinais de alerta evidentes e perigosamente irreversíveis, mas que são
sempre desvalorizados por interesses, por tremenda ignorância e egoísmos.

Há sempre "tubarões maiores: esse é o problema da ESCALA!

O descontrolo é evidente, os grandes do passado já eram (ou estão em vias
de), os novos donos são outros, os direitos televisivos não cessam de
aumentar (será possível continuar a crescer assim?) e a cultura do "pão e
circo" revela indícios dramáticos de fim de império.

Cada país vai ter de criar novos quadros legislativos, com regras
inovadoras para situações complexas, potenciando um contínuo caos e
conflitualidade.

Os mais poderosos preparam o assalto final ao futebol.

Contudo, a história da humanidade é também uma permanente aventura de
renovação, de superação, de reconstrução e de refundação sucessiva.

O Football Leaks se tivesse sido aproveitado, de imediato, para um súbito movimento de responsabilização transparente, certamente teria evitado tamanha perda de tempo e de recursos.

Quem conhece e gosta de futebol não se deixa intimidar ou encantar por
cânticos de sereias para "campeonatos" fraticidas e antropofágicos.

Nem todos se deixam cair nas tentações da vertigem. Muitos vão resistir com coragem e nunca abandonando um jogo em que acreditam e que desejam sempre melhor. O futuro como conquista só ganha sentido com fortes alicerces no prestígio do passado.

A começar pelos adeptos dos chamados pequenos clubes, afinal onde tudo
verdadeiramente começa. O crescimento louco, sem regras, criou clubes
diferentes que, com os avanços do marketing, originou um paradoxo curioso: concentração e fidelização de adeptos de todos os continentes em poucos clubes de dimensão e influência global (enormes receitas garantidas) - estratégia comercial que também pode conduzir a alienação.

Mais do que apontar unicamente os culpados (a História encarregar-se-á de os pulverizar da memória colectiva) importa valorizar o local, as
realidades e proximidades, criando condições de partilha e envolvimento num amplo e forte movimento associativo.

Nesse movimento, os talentos são sempre para proteger, numa caminhada
segura para o topo preservando uma saudável popularidade com afeto e sem vertigens de falsas utopias.

Ídolos com milhões e pés de barro são criações virtuais e sempre um assalto ao futuro.Reconhecer o mérito é sempre uma base essencial para evitar vertigens e aprofundar o fair play.

Façamos de 2017 o ano da renovação transparente!



*Duas notas finais:*

1. O desportivismo é um dos valores e princípios que procuro defender e
manter em todas as circunstâncias, independentemente da minha preferência clubística publicamente conhecida.

Portanto, lamento que adeptos de um grande clube nacional e importante
referência do desporto português tenham de ouvir da principal figura do
clube argumentos e reflexões que envergonham a memória de Presidentes
insignes do clube (de José Rosa Rodrigues, a Borges Coutinho, a Fernando Martins, entre outros) e o país em geral: momento tristemente histórico evergonhoso.

2. O IPDJ (incluindo o seu Presidente) mais uma vez evidenciou que pode ser considerado um tremendo e trágico erro de casting, logo dispensável. Realmente, sobre o universo do futebol comprovam não dominar conhecimentos e competências essenciais.

Para o Senhor Secretário de Estado da Juventude e Desporto a tarefa que já era muito complexa, pelo menos na área do desporto, ficou muito, mas muito mais difícil.
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