A propósito do treino: uma aproximação ao existencialismo (artigo de Manuel Sérgio, 204)

Ética no Desporto 02-08-2017 13:11
Por Manuel Sérgio
“A existência precede a essência – esta que é a palavra de ordem fundamental do existencialismo não pretende, no quadro do pensamento de Sartre, repudiar a ideia de uma essência, a respeito da existência humana. Pelo contrário, para o existencialista, a essência é realmente a questão central com que se debate cada um , na sua existência. É, de forma exacta, a posteridade da existência, a partir do que esta faça de si mesma” (André Barata, in Pensamento Crítico Contemporâneo, Edições 70, 2014, p. 363). Mas, vejamos agora o que Jean-Paul Sartre, o autor que mais (digamos assim) “publicitou” o existencialismo nos diz, no seu livro O Ser e o Nada: “O homem é fundamentalmente o desejo de ser Deus”. Por isso, é um ser que a si mesmo se faz. Nas coisas, nos objetos, a essência precede a existência; ao invés, no ser humano, é a existência que precede a essência. O “ser percebido” remete a quem percebe, o “ser conhecido” remete a quem conhece. E, porque para Sartre Deus não existe, “há pelo menos um ser em que a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito”. E continua: “O Homem não é mais do que a si mesmo se faz”. Só em liberdade pode mostrar-se e conhecer-se e definir-se! Em Sartre, a liberdade é um dado ontológico. Os próprios deuses se diluem, quando o ser humano toma consciência da sua liberdade. Júpiter parece não duvidar do poder do Homem: “Sabes, Orestes: tudo isto foi já profetizado: um homem virá um dia anunciar o meu crepúsculo. És tu, então, esse homem?” (Les Mouches, Gallimard, Paris, 1943). A revolução torna-se possível quando o ser humano o quer e pode superar todos os determinismos que o envolvem.

Para mim, o anseio de transcendência supõe a liberdade e esta (e não qualquer determinismo) é o postulado necessário do corte epistemológico e político ou, por outras palavras: de qualquer revolução. Voltemos a Sartre: “ser livre não é poder fazer o que se quer, mas querer o que se pode (Situações I, p. 287). E, porque no ser humano a existência precede a essência, eu vivo, na medida em que liberto e me liberto. Segundo o existencialismo, nem as estruturas sociais, nem a história, nem a biologia, nem a genética, deverão considerar-se os códigos determinantes do nosso comportamento. Porque o homem é e será aquilo que faz de si mesmo. Antes das ciências, perfila-se a liberdade como a “causa das causas”. Há, atualmente, dois grandes materialismos: “um materialismo histórico-sociológico, que sustenta que somos determinados, de modo exaustivo, pelo contexto sócio-histórico, em que fomos educados; um materialismo naturalista (…) que, em última instância, é a nossa infra-estrutura biológica, genética, nomeadamente a neural, que determina o essencial do que somos” (Luc Ferry e Jean-Didier Vincent, O que é o Homem?, Edições ASA, 2003, pp. 17/18). Edgar Morin, no seu livro, já de boa idade, Ciência com Consciência (Publicações Europa-América, 1982) escreve: “Quanto mais complexa é a organização, mais comporta as desordens que se chamam liberdade” (p. 182). Portanto, à luz da filosofia existencialista, mais do que por influência do treinador, ou das virtualidades do treino, é o jogador, como sujeito que é, que se faz a si mesmo. Diz o Edgar Morin, neste mesmo livro: “As nossas ideias não são reflexos do real, mas traduções do real” (op. cit., p. 194). O treinador aconselha, o treinador determina - mas é a liberdade do jogador que decide, por fim.

Do alto do pedestal das suas convicções, o positivismo, o cientismo, o historicismo, o psicologismo, o estruturalismo proclamaram, cada qual à sua maneira, diversos princípios de inteligibilidade da condição humana. O positivismo, por exemplo, “obrigou” a Medicina a prestar vassalagem à anátomo-fisiologia, quase esquecendo o psicológico e o espiritual, na origem de inúmeras doenças. A Educação Física, que nasceu sob as normas e os preceitos do paradigma biomédico (nasceu e, para alguns que são conhecidos por uma insofismável estagnação de processos e de ideias, continua) encontrou também na anátomo-fisiologia o suporte fundamental da sua problemática. A História da Medicina é, hoje, um manancial de sugestões e estímulos donde se divisa uma crítica unânime a determinadas crenças tradicionais do modelo biomédico, que parecia desconhecer a convergência biologia-sociedade-cultura, no diagnóstico das doenças – convergência irredutível ao modelo fisiologista e mecanicista de Descartes e anunciador da teoria dos sistemas como metáfora dominante. Recordo (cito de cor) A Condição Pós-Moderna, de Lyotard, “a metanarrativa perdeu a sua credibilidade”. Nem a biologia, nem a cultura, de costas voltadas uma para a outra, podem transformar-se nas metanarrativas da explicação das doenças. Por esta razão muito simples: para um ser complexo, toda a causalidade é complexa. Nele, há distinção, mas não disjunção, entre o corpo e a alma, entre o biológico e o cultural. Explicar o ser humano, ou só pelo biológico, ou só pelo cultural, é transformar uma ciência em doutrina, ou em religião, e não há dogmas, no conhecimento científico. “A ciência não é, nem deusa, nem ídolo; ela tende cada vez mais a confundir-se com a aventura humana de que proveio” (Edgar Morin, op. cit., p.14).

Encontrei na História da Filosofia, de Fernando Savater (Planeta, Lisboa, 2011) o texto seguinte: “Nas coisas a essência (a sua definição) precede a existência mas, no caso humano, é a existência que precede a essência, quer dizer: o homem mais não é do que pura liberdade” , tendo de escolher constantemente o que quer ser e de responsabilizar-se por isso perante a sua consciência”. E conclui: “estamos condenados a ser livres” (p. 180). Enfim, o futebolista é um homem e, porque é homem, o seu progresso, como jogador de futebol, radica, em primeiro lugar, na sua liberdade. De facto, o homem é organização físico-química, mas a sua conduta, a sua liberdade não se reduzem ao mundo físico-químico, porque é a inteligência, a vontade de transcendência, a cultura, que as determinam, em última instância. A fenómenos simples correspondem teorias simples; para fenómenos complexos, a explicação é necessariamente complexa e portanto com quantidade e… qualidade! Até ao dealbar do século XX, as ciências fundantes eram a matemática e a física. Só que, tanto a biologia, como a antropologia, não cabem em qualquer pensamento disjuntivo e redutor, por esta razão, acima do mais: tudo o que é vivo é complexo! O maior erro da ciência clássica residia no facto de conceber o universo, completa e totalmente determinista.

Mas no universo há evolução e, onde há evolução, há movimento e a desordem anunciadora de uma nova ordem, tantíssimas vezes imprevisível. Nasceu uma “ciência nova” que muita gente no futebol (e não só) não conhece e… deveria conhecer! Uma “ciência nova” que nos ensina o seguinte: o conhecimento não se reduz a informações, pois que precisa de mentalidades novas, que dêem sentido às informações que recebem. E as mentalidades novas são mais difíceis de encontrar do que as informações…


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