Vítor Pereira assume nomeação na Grécia (artigo de Aníbal Styliano, 27)

Espaço Universidade 29-07-2017 20:44
Por Aníbal Styliano
O português Vítor Pereira vai exercer funções de Presidente do Comité de Arbitragem da Federação Grega de Futebol, por imposição da UEFA e da FIFA, com o objetivo de recolocar a arbitragem helénica no rumo certo, de acordo com os regulamentos internacionais, pelo prazo de um ano.

Os estrangeiros, para a FIFA, são mais sérios do que os nacionais?
Independentemente do currículo, personalidade, experiência e competência do nomeado, o que me parece inaceitável é exigir um estrangeiro para ocupar uma vaga numa federação.

A Grécia (e os abusivamente chamados PIGs, onde também nos incluíram) foi sendo vítima de causas internas, de corrupção e erros de partidos políticos, mas também de uma espécie de “agiotagem com cumplicidades endógenas” por parte dos chamados países ricos do Norte da Europa. Há bancos de países poderosos que deixaram impunemente o caos por onde “passaram”.

A União Europeia (de união não se vislumbram muitos sinais e de europeia resta o nome geográfico), por várias vezes assemelha-se a algo distante, invisível mas com marcas profundas, que muitos consideram injustas e turvas.

Solidariedade e apoio são menosprezados por lucros, investimentos, empréstimos com consequências dolorosas, servis troikas e planos de recuperação que aumentam dependências limitativas.
A dívida dos países nunca mais se reduz, numa espiral de risco imparável para uns e de lucro constante para outros, aos quais são permitidas estratégias especiais.

Agora, privar um país de apresentar uma personalidade nacional para ocupar um cargo federativo desportivo e impor um “tutor” estrangeiro, não será exagero, não será humilhação, não será abuso de poder de quem, segundo as notícias recorrentes, também tem apresentado défices de honorabilidade e de confiança?

Atente-se nas investigações e condenações de altos quadros da FIFA e da UEFA e no muito que ainda falta esclarecer…
Precedentes deste género assemelham-se a tentativas de experiências para um mundo que George Orwell tão bem caracterizou e que representa um retrocesso civilizacional impensável. Em termos de utilização de "novilíngua” já são visíveis indícios preocupantes.
“Pensar Global, Agir Local”, já foi frase emblemática quando interessava.

Contrariando-se fundamentos da criação da União Europeia, surgem indícios de tentativas para o regresso aos “Donos Disto Tudo (DDT)”, de má memória e tenebrosas consequências.

Um português a presidir ao Comité de Arbitragem da Federação de Futebol da Grécia, e por que não da Inglaterra, da Alemanha, da Finlândia, da Itália, da Espanha, da França?

Aprendam com o futebol-jogo, promovam diversidade, descoberta de talentos próprios, criem regras e procedimentos adequados e legislação eficaz para combater a corrupção, para dificultar as precoces transferências intercontinentais de jovens (muitas vezes um grande e comprovado drama humano e social), para se conseguir alguma uniformização de regimes fiscais completamente díspares e poder derrotar a evasão fiscal, inclusive de rendimentos provenientes de direitos de imagem, muito questionáveis…

Qualquer dia a FIFA e a UEFA, qual Parlamento e Comissão Europeia, definem uma “elite de altos dirigentes de confiança” para assumirem as funções mais importantes do futebol mundial. A intenção nunca esmorece e o plano está sempre presente…

Experiências com esses objetivos produziram catástrofes globais.
Paradoxalmente, não são apresentadas medidas, nem nomeados gestores, para enfrentar um enorme problema: os riscos da bolha de transferências inflacionada de forma galopante, numa corrida rumo ao precipício. Já há sinais, mas provavelmente muita incapacidade ou impossibilidade de prevenção. Esquecer 2008, só quem tiver problemas de memória.

O futebol precisa efetivamente de dirigentes e decisores competentes mas essencialmente de nunca abandonar a valiosa herança de jogo mágico, sedutor, potenciador de arte no momento, da inteligência em movimento (como afirmou Camus) e de permanente sedução e encantamento numa linguagem global: a da genialidade.

A sabedoria é sempre um auxiliar valioso para a construção de soluções sensatas e equilibradas.

Lamenta-se que muitas vezes se prefiram as influências de fortes lóbis aos contributos de independentes que pensam e se dedicam ao futebol.
Não aceitar divergências em diálogos transparentes, tolerantes e competentes, é semelhante a “rematar contra a própria baliza”.

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol
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