Evolução histórica do Festival Olímpico da Juventude Europeia: A grande herança de Jacques Rogge (artigo de Eduardo Monteiro, 19)

Espaço Universidade 25-07-2017 12:18
O projecto das Jornadas Olímpicas da Juventude Europeia (JOJE), que a partir de 2003 passou a ser designado por Festival Olímpico da Juventude Europeia (FOJE), na perspectiva de uns mini jogos olímpicos europeus são um êxito conseguido, um evento único a este nível , que se repete de dois em dois anos, um novo desafio lançado ao mundo desportivo face ao crescimento considerável dos Comités Olímpicos Europeus. A ideia de se criar uma competição para os jovens praticantes desportivos, que se encontram no percurso da alta competição, dentro do movimento olímpico é uma excelente forma de promoção dos ideais olímpicos.

O desporto é a base do movimento olímpico. Uma competição internacional oferece a oportunidade do conhecimento recíproco, de respeito pela cultura dos outros e da criação de uma amizade sem fronteiras. Nos tempos que correm, de mudanças rápidas sem precedentes no aspecto político na Europa, o FOJE representa uma óptima oportunidade de confraternização entre jovens desportistas oriundos dos mais diversos locais deste velho continente.

Tudo começou com uma iniciativa de âmbito nacional, liderada por Rob Von Rose, as jornadas provinciais da juventude olímpica (JPJO), nas quais participaram as 12 províncias da Holanda. Entretanto, o Comité Olímpico Holandês quis ir mais longe e, em 1984, lançou-se numa iniciativa mais ousada com a criação das Jornadas Olímpicas da Juventude Nacional, que se repetiram em 1986, com 10 modalidades desportivas. Em 1987, por ocasião do 75º aniversário do COH, internacionalizaram a iniciativa com a participação de jovens da Grã-Bretanha, Bélgica, Itália e Áustria reunindo 800 atletas.

O evento desportivo alcançou tal êxito que impressionou importantes personalidades do mundo do desporto, entre elas Jacques Rogge que exercia as funções de Presidente da Associação dos Comités Nacionais Olímpicos Europeus (ACNOE). Assim, em 26 de Janeiro de 1990, os 12 Comités Nacionais Olímpicos dos países da C.E.E. , actual União Europeia, decidiram organizar periodicamente um evento desportivo, ao nível do percurso da alta competição, destinada não só aos jovens da Comunidade Europeia mas, também aos dos outros Comités Nacionais Olímpicos da Europa.

As primeiras Jornadas Olímpicas da Juventude Europeia realizaram-se de 17 a 21 de Julho de 1991, em Bruxelas, talvez como simbolismo político, sob o patrocínio da C.E.E. e do C.I.O. e com a participação de representações dos 33 países europeus cujos comités olímpicos eram membros da ACNOE. Este evento desportivo sempre foi destinado a jovens de ambos os géneros, com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos, conforme a especificidade das diferentes modalidades desportivas.
Afortunadamente, tivemos a oportunidade de estar presente nesta primeira edição, em representação do Ministro da Educação, Roberto Carneiro, a convite do Comité Olímpico de Portugal. Entretanto, Vasco Lynce, então Secretário Geral do Comité Olímpico, entusiasmado com o que viu, convenceu o COP a candidatar-se à organização das JOJE em 1997, tendo conseguido esse objectivo num processo eleitoral sem grande oposição dos outros Comités Olímpicos Nacionais.

Dois anos depois, em 1993, foi a cidade holandesa de Valkenswaard a contemplada com as segundas JOJE, tendo nelas participado 43 países europeus, no qual se incluíam alguns recentemente criados. A adesão foi de tal ordem que se teve que limitar a participação a cerca de 2.500 pessoas, vigorando a partir daí esse número como limite máximo, evitando-se, assim, de correr o risco das JOJE se tornarem uma réplica europeia aos próprios Jogos Olímpicos. Em virtude de já ter sido convidado para liderar o comité executivo das JOJE previstas para Portugal, a nossa participação integrado na delegação portuguesa, teve com principal objectivo a observação “in loco” dos aspectos mais importantes duma organização desportiva desta envergadura.

A cidade de Bath, em Inglaterra, com o estatuto de património mundial, foi palco de 9 a 14 de Julho de 1995, das III Jornadas Olímpicas da Juventude Europeia, com uma organização completamente distinta das anteriores efectuadas na Bélgica e na Holanda. A diferenciação verificada entre cada um dos processos organizativos, tendo sempre presente o cumprimento integral dos princípios fundamentais da Carta das JOJE, foi alicerçada no simples aproveitamento das características e tradições regionais, do enorme envolvimento social no evento e da cultura desportiva britânica que nos proporcionou uma aprendizagem diversificada e rica em soluções práticas possíveis de implementar em Portugal.

Dois anos depois, de 18 a 24 de Julho de 1997, o Comité Olímpico de Portugal organizou, na cidade de Lisboa, as IV Jornadas Olímpicas da Juventude Europeia, através de uma boa conjugação colectiva do comité executivo, o único evento desportivo do movimento olímpico realizado até hoje em Portugal, permitindo que Lisboa fosse designada como cidade olímpica durante aquele período. Estiveram presentes atletas em representação da totalidade (48) dos Comités Olímpicos Europeus. A organização foi concentrada no Estádio Universitário de Lisboa tendo as suas instalações desportivas permitido a realização, sem grandes deslocações, das competições de atletismo, futebol, ginástica, judo, natação e voleibol. As de andebol e basquetebol realizaram-se nos pavilhões do Estádio da Luz, o ciclismo em Monsanto e as de vela no rio Tejo.

Juan Samaranch, Presidente do Comité Internacional Olímpico (CIO) e Jacques Rogge, então Presidente da Associação dos Comités Nacionais Olímpicos Europeus (ACNOE) e futuro lider do CIO, acompanharam de perto as diferentes actividades do evento tendo a sua presença prestigiado sobremaneira o movimento olímpico internacional e o nosso país.

Em consonância com a programação bianual dos Comités Olímpicos Europeus, os FOJE prosseguiram na sua consolidação como evento desportivo fundamental na educação olímpica e valorização da juventude europeia nas seguintes cidades e países:

Esbjerg-1999 (Dinamarca), Múrcia-2001 (Espanha), Paris-2003 (França), Lignano-2005 (Itália)), Belgrado-2007 (Sérvia), Tampere-2009 (Finlândia), Trabzon-2011 (Turquia), Utrecht-2013 (Holanda), Tbilisi-2015 (Geórgia) e Gyór-2017 (Hungria).

Entretanto, as FOJE de inverno também continuaram a cumprir a sua missão com a concretização dos respectivos eventos nas seguintes localidades: Aosta-1993 (Itália), Andorra-a-Velha-1995 (Andorra), Sundsvall-1997 (Suécia), Poprad-1999 (Eslováquia), Vuokatti-2001 (Finlândia), Bled-2003 (Eslovénia), Monthey-2005 (Suíça), Jaca-2007 (Espanha), Slask Beskidy-2009 (Polónia), Liberec-2011 (República Checa), Brasov-2013 (Roménia), Voralberg-2015 (Áustria) e Vaduz-2015 (Liechtenstein), Erzurum-2017 (Turquia).

Nas primeiras edições dos FOJE o programa desportivo era constituído por seis (6) modalidades individuais e quatro (4) colectivas, sendo selecionadas pela comissão das JOJE dos Comités Olímpicos Europeus. Esta particularidade fez com que houvesse alguma variedade e rotatividade na escolha de alguns desportos até à IX edição em Belgrado-2007. A partir daí ficou decidido que passaria a haver um número fixo de seis (6) modalidades individuais e três (3) colectivas. Nos desportos individuais, o atletismo, a ginástica, o judo e a natação estiveram sempre presentes desde a primeira edição e, agora, fazem parte do grupo de seis (6) modalidades fixas, conjuntamente com o ciclismo e o ténis que estiveram presentes em quase todas as edições dos FOJE.

No que diz respeito aos desportos colectivos, a Carta dos FOJE define, desde 2007, que o andebol, o basquetebol e o voleibol são as modalidades fixas do programa desportivo. O andebol entrou para o programa em 1995 (3ª edição) e marcou presença em todas as outras edições, o basquetebol faz parte do programa desde o início e só esteve ausente em 2003 (7ª edição) e o voleibol também faz parte do programa desde o início e só não participou em 1995 (3ª edição).

Quem, como nós, teve o privilégio de estar presente nas primeiras seis edições de verão das JOJE (Bruxelas, Valkenswaard, Bath, Lisboa, Esbjerg e Múrcia) e numa de inverno (Sundsvall) na qualidade de espectador ou nas tarefas de observador/estudioso, presidente do comité executivo em Lisboa-1997, membro da comissão JOJE dos COE em Esbjerg-1999 e consultor/coordenador operacional em Murcia-2001, é que está em perfeitas condições de valorizar o excepcional trabalho desenvolvido por Jacques Rogge na dignificação do movimento olímpico europeu e internacional. A herança que nos deixou, a todos os que acreditam na educação desportiva das nossas crianças, na valorização humana da juventude através do desporto e na defesa do espírito olímpico é a melhor definição do valor de um grande Homem do nosso tempo.

Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais

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