Os Valores Olímpicos no Caixote de Lixo da História (artigo de Gustavo Pires, 64)

Olimpismo 30-06-2017 17:31
Por Gustavo Pires
Durante a cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Anvers (1920) que, pela primeira vez, se realizou, não no tradicional banquete final, mas no próprio Estádio Olímpico, Pierre de Coubertin, no seu discurso, referiu-se à edição seguinte dos Jogos que se realizaria em 1924 em Paris. Ao fazê-lo, formulou o desejo de que os Jogos de Paris (1924) “se desdobrassem em alegria e harmonia e que a Tocha Olímpica pudesse prosseguir o seu percurso através dos tempos, para bem de uma humanidade mais ardente, mais corajosa e mais pura”. Quatro anos depois, ao contrário do fracasso dos Jogos de Paris (1900), os Jogos de Paris (1924) foram um sucesso. Para além do moderno Estádio Olímpico de Colombes com capacidade para 60 mil pessoas, entre outros aspetos, os Jogos ficaram marcados pela primeira Aldeia Olímpica onde os atletas dos vários credos e nacionalidades puderam viver um verdadeiro espírito ecuménico que sempre foi um dos pilares centrais do projecto olímpico de Coubertin.
Desde então, os Jogos tiveram altos e baixos acabando por “bater no fundo” nos Jogos do Rio de Janeiro (2016) onde, bem vistas as coisas, se confirmou que tanto o Comité Olímpico Internacional (COI) como, por esse mundo fora, os mais diversos Comités Olímpicos Nacionais (CONs) deitaram os princípios e os valores propugnados por Coubertin para o caixote de lixo da história.

Infelizmente, para além do tradicional foguetório das cerimónias de abertura e encerramento, os Jogos da XXXI Olimpíada não ficaram marcados nem pela alegria e harmonia, nem pela Tocha Olímpica enquanto espírito de uma competição justa, nobre e leal. E não simbolizaram também uma humanidade mais ardente, mais corajosa e mais pura. E tal não aconteceu pela simples razão de que o Movimento Olímpico, tanto a nível internacional como nacional, foi capturado por uma oligarquia que o está a corromper e a comprometer a sua própria viabilidade futura enquanto projeto ao serviço do desenvolvimento humano. Em consequência, hoje, o Movimento Olímpico está a viver na mais elementar ausência de uma ética de autenticidade pelo que tem vindo a acumular problemas sobre problemas devido, fundamentalmente, à circunstância dos seus princípios e valores estarem em conflito permanente com o comportamento ético-moral, por ação ou omissão, da generalidade dos dirigentes desportivos.

Entre muitos outros, um dos exemplos mais exemplificativos desta situação ocorreu durante os Jogos do Rio de Janeiro (2016) e foi protagonizada por Patrick Hickey, membro do Comité Executivo do COI e presidente do Comité Olímpico Irlandês. Aconteceu que a polícia do Rio de Janeiro se deslocou ao hotel onde Patrick Hickey estava hospedado a fim de o prender sob a acusação de estar envolvido numa organização mafiosa de venda ilegal de ingressos para os diversos eventos dos Jogos Olímpicos (Cf. ESPN.com.br, 18/08/2016). Infelizmente, situações deste género têm-se replicado pelos mais diversos países do mundo sem que os dirigentes olímpicos revelem a mais pequena réstia de vergonha.
Ao contrário daquilo que se passava no tempo de Coubertin em que, numa visão corporativa do desporto, os alvos do rigor do comportamento moral, em regime de exclusividade, eram os atletas, hoje, porque o desporto deixou de funcionar numa lógica corporativa, o fulcro da avaliação do Movimento Olímpico deve estar, fundamentalmente, centrado no comportamento ético dos dirigentes desportivos cujos interesses, como se pode constatar no exemplo supracitado e outros que estão bem presentes na nossa memória, já nada têm a ver com os dos atletas e, muito menos, com os do próprio desenvolvimento do desporto. Quer dizer que, o dirigente desportivo já não é aquela entidade que, como no tempo de Coubertin, de uma forma desinteressada e a expensas próprias, se dedicava ao desporto pelo que tinha legitimidade para exercer uma vigilância moral sobre todo o sistema. Entre nós, Penha Garcia, entre outros, representa bem o exemplo do que acabámos de dizer.
Hoje, os diversos protagonistas do fenómeno desportivo têm interesses próprios pelo que os dirigentes, os técnicos e os atletas, entre outros, em termos éticos, estão todos em igualdade de circunstâncias na assunção das respetivas responsabilidades quanto ao comportamento ético-moral que lhes deve ser exigido. Por isso, não se pode admitir que um dirigente, enquanto membro efetivo de uma comissão executiva, esteja, por um lado, envolvido, direta ou indiretamente no controlo ético-moral dos atletas e, por outro lado, à conta das posições que ocupa no mundo do desporto, metido em negociatas como é a venda ilegal de ingressos ou, entre outros, o tráfico de influência, a prevaricação ou o peculato.
Ora, se o desporto já não funciona de acordo com o modelo corporativo do passado, em que existia uma íntima comunhão de interesses entre atletas, técnicos, dirigentes e simples prosélitos, é de fundamental importância que os dirigentes compreendam que, já não podem aproveitar-se do perfil diletante do passado a fim de fugirem às responsabilidades que, em função da nova realidade, voluntária e conscientemente, assumiram. A verdade do jogo não tem só a ver com os atletas e os técnicos. Tem, sobretudo, a ver com os dirigentes. E não se trata só de traficância, prevaricação ou peculato. Trata-se de nobreza de carácter que, inequivocamente, todo e qualquer dirigente deve demonstrar perante a sociedade. Por exemplo, um dirigente que, ao cabo de um Ciclo Olímpico, apesar do Estado lhe ter proporcionado os recursos indispensáveis, só conseguiu atingir 15% dos objetivos que ele próprio determinou, se lhe restar alguma dignidade, o mínimo que pode fazer é demitir-se e desaparecer. E, se não tiver coragem ou hombridade para o fazer, o mínimo que se pode esperar do Estado é que deixe de o financiar. Os contribuintes não podem estar sistematicamente a financiar incompetência.
Perante este cenário a pergunta que se coloca é a seguinte: Quem controla o Movimento Olímpico nos mais diversos países do Mundo?
A resposta a esta questão não é animadora.
Muitos CONs, à revelia da Carta Olímpica e do COI, bem como a coberto de uma inadmissível condescendência dos governos dos respetivos países, à custa do dinheiro dos contribuintes e à margem de qualquer controlo democrático minimamente credível, estão a funcionar em “roda livre” sem prestarem satisfações a qualquer entidade. Hoje, muitos CONs, para além da habitual cosmética a fim de embasbacar os ingénuos, transformaram-se em meros Comités de Alta Competição ao serviço de grupos económicos que os controlam. Em consequência, afastados da sua verdadeira missão, estão a destruir a cultura dos princípios e valores olímpicos e a provocar profundas assimetrias económicas e sociais nos respetivos países.
George Steiner, no prefácio ao “Homo Ludens" diz-nos que “desprovido do sagrado e do lúdico – dois atributos quase equivalentes – o homem entregou-se à construção de um mundo industrial, vistoso mas vulgar, segundo os padrões da sua própria vulgaridade”. Ora, quando olhamos para o que se está a passar no Movimento Olímpico temos de, forçosamente, concluir que, para além de ter sido tomado pela vulgaridade de uma confrangedora mediocridade, encontra-se envolvido na mais vergonhosa corrupção sob o olhar indiferente da generalidade da população que, tal como os gregos antigos sublimavam as mortes de guerra com os Jogos Fúnebres, hoje, na euritmia da sua medíocre vulgaridade, nos mais diversos países do mundo, sublimam as mais diversas desgraças e tragédias sociais, não através de rigorosos processos de determinação e assunção de responsabilidades, mas através de Festivais Musicais Fúnebres.
E assim, o Movimento Olímpico está a ser transformado num antro de oportunistas ignorantes sedentos de poder e de dinheiro, desprovidos de quaisquer sentimentos para além dos seus próprios interesses. E as Federações Desportivas, salvo uma ou outra exceção, em meros utensílios ao serviço do comercialismo e das negociatas, bem como do marketing com fins de mera demagogia política em benefício da mais vergonhosa militância partidária.

É urgente acabar com esta cultura de permissividade, de oportunismo, de irresponsabilidade, de corrupção e de incompetência, em que os dirigentes desportivos e políticos, à custa do dinheiro dos contribuintes, ao deitarem os princípios e os valores olímpicos para o caixote de lixo da história, estão a destruir o único projeto de sinal positivo que, de há cento e vinte e um anos a esta parte, se desenvolve à escala da humanidade.
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