A omnipresença do futebol (artigo de Manuel Sérgio, 199)

Ética no Desporto 25-06-2017 10:46
Em dias de febre alta, é possível que deliremos. Mas febre alta durante semanas – não há corpo que resista! Por isso, quando a vida nos traz à tona um “doente”, seja dirigente ou simples adepto, de um clube de futebol e, portanto, com uma febre que o queima a ele e a tudo que jaz à sua volta, não se estranhe o delírio, a exaltação, a confusão mental do paciente.

Incapazes de um convívio que se transforme em colaboração e de um humanismo que transcenda qualquer egocentrismo, é no futebol que estes “doentes” encontram espaço para, de sangue a latejar-lhes nas veias, insultarem os árbitros, descobrirem faltas inexistentes dos futebolistas adversários, aparecerem com os lábios atravancados de certezas e com a agressividade de quem se bate por verdades incontroversas. Eu, que não sou (nem serei) Benfica, Porto, ou Sporting, como não sou (nem serei) anti-benfiquista, ou anti-portista, ou anti-sportinguista; eu, que não sou contra nenhum clube, porque preciso de todos eles, pois que ao longo da minha vida me têm proporcionado espetáculos que agradeço como uma dádiva rara – embalado pelas ondas traiçoeiras do mesmo mar revolto, olho-os com benevolência. É cegos no seu proselitismo que os querem alguns media e tudo e todos os que na sociedade representam a mais rasa mediocridade: para que dos textos alheios construam sempre contextos de suspeita, de ódio, de violência; para que vejam tudo e não entendam nada, principalmente o que no desporto é apaziguador e tonificante; para que não saibam situar-se ao lado de homens, na luta pela criação de mais homens. Interessa a muita gente que eles se julguem coroados de louros a sonhar utopicamente um mundo que nunca virá. Não são pessoas, são uma ficção. Mas nunca a História, para os medíocres, foi mais do que uma ficção. Sim, é verdade que a identidade nacional é nas competições internacionais, mormente de futebol, que mais se produz e palpita. Há séculos atrás, demos novos mundos ao mundo. Agora, damos futebol: um número incontável de treinadores e de jogadores portugueses percorre o mundo a ensinar o futebol. Ou seja, a dizer que o futebol, só como tática, tem bem pouco que ensinar…


Não me esqueço das palavras do Zinedine Zidane, antes do último Sevilha-Real Madrid: “No futebol, liderar pessoas é muito mais importante do que a tática”. É verdade: o futebol são pessoas que jogam futebol e, porque o futebol de que se fala é o futebol-espetáculo, para além das pessoas que jogam futebol há um número imenso doutras pessoas que vivem o futebol, formigando, alastrando à volta e dentro dos estádios, ou a face contraída, os olhos fixos, diante da televisão. É verdade: o futebol são pessoas que jogam e contemplam o futebol. A fria perfeição da engenharia tática; o conhecimento alquímico dos sociólogos e dos psicólogos – todos são necessários mas, porque o futebol são pessoas, muito do que dizem e escrevem me parece pré-lógico, por vezes uma sucessão de incontáveis disparates. Recorro ao Livro do Desassossego: “Quanto mais contemplo o espetáculo do mundo e o fluxo e o refluxo da mutação das coisas, mais profundamente me compenetro da ficção ingénita de tudo, do prestígio falso da pompa de todas as realidades” (Tinta da China, Lisboa, 2016, p. 200). Quem escuta e lê tanta gente a esquadrinhar, ou seja, analisar com minúcia o “fenómeno futebol”, desde a mercantilização dos clubes-sociedades-anónimas, onde pontificam empresários e dirigentes, até ao facciosismo mais repelente de senhores e servos, de iletrados e de intelectuais; desde alguns especialistas no paradigma biomédico até aos que pensam que, no futebol, o mercado é o único regulador das relações sociais; desde os que ainda pensam, como o ex-futebolista Roberto Carlos (completou 11 épocas, no Real Madrid) que a Juventus perdeu o jogo final da Champions, por deficiente preparação física, até aos que defendem que pode estudar-se, trabalhar-se o corpo de um atleta, desprovido de valor simbólico, mera estrutura de órgãos e funções que, por fim, se decompõe em peças; desde os que falam de tudo e, por isso, falam também de futebol até aos que só sabem de futebol e, por isso, são tendencialmente ignorantes – quando os oiço ou os leio (a quase todos, não a todos, evidentemente) agradeço a Deus nada saber de futebol, nada saber deste futebol…


No entanto, é este o futebol que mais vezes ressurge das conversas, das leituras, das transmissões televisivas, em poucas palavras: é o que mais interessa. A omnipresença do futebol, que resplandece nos olhos dos aficionados pode resultar, aqui e além, em generosidades e ternuras insuspeitadas mas, quase sempre, a triste notoriedade deste futebol resume-se a uma religião politeísta, com vários deuses e, como convém a qualquer integrismo religioso, fulminando excomunhões e proclamando dogmas. Quando Hannah Arendt foi enviada por uma revista norte-americana a Jerusalém, para cobrir o processo do nazi Eichman, executor do extermínio judeu, nas suas crónicas sobre este julgamento, muito polémicas e mal entendidas, falou da banalidade do mal. Assim ela classificou a prática profissional de criminosos que executam ordens, sem um assomo que seja de crítica e de auto-crítica. Agem como robots, não como pessoas eticamente responsáveis. Sem chegar ao ponto de ver o Eichman nos encarniçados e acéfalos defensores dos ideais e da política de um clube português (não chego a tanto) descobre-se neles a banalidade de uma cegueira que não os deixa ver o que de belo, ou de oportuno, se descortina na prática desportiva. Para eles, designadamente um grande clube adversário, não passa de uma ampliação gigantesca de muita coisa condenável e… pouco mais! A “busca de excitação” de Norbert Elias e Eric Dunning permite aos “amantes do futebol” a satisfação das necessidades de um racional descontrolo, de um comportamento dionisíaco que por vezes galga e cresce, em cada um de nós e que afinal a sociedade não condena. O desporto é uma característica inalienável do ser humano? Não tenho dúvidas a este respeito, dado que o ludismo o é também e o desporto é jogo, marcadamente competitivo, que se institucionalizou.

Depois, a competição desportiva movimenta-se como uma iniludível força socializadora, já que, para competir, há necessidade absoluta de um adversário e, normalmente, o adversário é outra pessoa, ou outra equipa. Ninguém vive, indefinidamente, entre parêntesis. Formar, educar, instruir, empreender e participar – ninguém faz tudo isto sozinho. Não contesto que fazer desporto é um ato heróico: o atleta arrisca-se ao fracasso. O vencedor é um só. Mas em todos fica a consciência que, ganhando ou perdendo, cada um fez o melhor que pôde, em proveito próprio e alheio. Não vejo melhor educação permanente. Para o Sartre o ser humano não é outra coisa senão a sua permanente disposição para decidir o que pretende ser. Aliás, a verdadeira História assim se define: é a criação do Homem pelo Homem ou, por outras palavras: é a revelação, pelo ato de criar, da divindade do ser humano. O objetivo final da vida não é, simplesmente, viver mas transcendê-la rumo a um Absoluto que pareça mais do que a própria vida. A excelência, no desporto (no futebol) implica um ato de fé numa perfeição que se procura, que nos diz que a nossa vida tem o valor da nossa transcendência, da nossa capacidade de superação. Todos os que estudámos Edgar Morin nos recordamos de que, neste autor, ordem-desordem, acaso-necessidade, acontecimento-sistema, desorganização-criação são inseparáveis, em qualquer percurso evolutivo. Sim, no futebol (no desporto) é preciso sofrer, para vencer, para nos vencermos a nós mesmos. Talvez por isso Albert Camus haja escrito frases imperecíveis, como esta: “Tudo o que sei de moral foi no futebol que o aprendi”. E o António Manuel, um invisual dos meus tempos de espectador nas Salésias, relatava-me, emocionado, os golos do Belenenses. Nunca vira um jogo, mas via os jogos todos. O futebol restituía-lhe a vista. Que pena não restituir o juízo a tantos dirigentes (principalmente a estes) e comentadores desportivos, que vão subsistindo, desprovidos da ética mais elementar e medíocres e incultos até ao tutano!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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