Suspensão imposta pela Federação Internacional de Basquetebol (FIBA) à Confederação Brasileira de Basquetebol (CBB) sem solução à vista (artigo de Eduardo Monteiro, 18)

Espaço Universidade 16-06-2017 22:19
Por Eduardo Monteiro
Quando nos surge a oportunidade de falar do valor histórico do basquetebol brasileiro temos, em primeiro lugar, que lhe tirar o chapéu e, de seguida, valorizar um património desportivo repleto de vitórias e êxitos notáveis que conduziram à conquista de inúmeros títulos internacionais. O historial do basquetebol, do país irmão da América do Sul, é reflexo duma cultura desportiva única da juventude brasileira, de ambos os géneros, que os faz adorar o desporto e o basquetebol em particular. Esta faceta nos enche de orgulho porque permitiu que a língua portuguesa fosse falada, por esse mundo fora, quando se trata de interpretar e conceptualizar o jogo da “Bola ao Cêsto”.

Comecemos por abordar o comportamento do basquetebol feminino nas competições sul-americanas de seleções, em que as brasileiras se têm imposto de uma maneira avassaladora. Em termos organizacionais o Brasil já foi sede de 5 Campeonatos Sul-Americanos de Basquetebol Feminino: (S. Paulo-1954), (Rio de Janeiro-1965), (Guaratinguetá-1986), (Jacarei-1995) e (Vitória-1999). Nas diversas participações nos 35 Campeonatos Sul-Americanos, efetuados até agora, as representações brasileiras conquistaram 33 medalhas, sendo 26 de ouro, 5 de prata e 2 de bronze. As mais próximas competidoras foram as seleções da Argentina com 23 medalhas (1-15-7), Chile com 16 medalhas (4-5-7), Perú com 10 medalhas (1-4-5), Colômbia com 9 medalhas (1-2-6) e Paraguai com 7 medalhas (2-2-3).

Nos torneios de basquetebol feminino nos Jogos Pan-Americanos, que se realizam de quatro em quatro anos, e que tiveram o seu início em 1955 (quatro anos mais tarde que os homens), as seleções brasileiras de senhoras ganharam 3 medalhas de ouro em (Winnipeg-1967), (Cali-1971) e (Havana-1991), 4 medalhas de prata em (Chicago-1959), (S.Paulo-1963), (Indianápolis-1987) e (Rio Janeiro-2007) e outras tantas medalhas de bronze no (México-1955), (Caracas-1983), (S.Domingo-2003) e (Guadalajara-2011) num total de 11 medalhas, logo a seguir aos EUA que conquistou 14 medalhas (7-5-2).

No que diz respeito aos Campeonatos Mundiais de Basquetebol Feminino, o Brasil organizou por 4 vezes este importante evento que foram localizados no: (Rio de Janeiro-1957), (Brasília, Niterói, Recife e Saulo -1971), (Brasília, Porto Alegre, Rio Janeiro e S. Paulo-1983) e (Barueri e S. Paulo-2006). Em termos de classificações a seleção feminina foi campeã mundial em 1994, na Austrália, medalha de bronze em 1971 e obteve o quarto lugar em quatro ocasiões (1953, 1957, 1998 e 2006).

Nas participações em Jogos Olímpicos a equipa feminina do Brasil conquistou a medalha de prata nos jogos de (Atlanta-1996), sendo ultrapassada no jogo decisivo por 111-87, pela crónica vencedora do evento a seleção dos EUA. Nos J.O. seguintes, (Sydney-2000), ganhou a medalha de bronze ao vencer a representante da Coreia do Sul por 84-73. Já não foi tão feliz quando conseguiu chegar, pela terceira vez consecutiva, às meias finais do evento olímpico (Atenas-2004), tendo perdido com a congénere da Rússia por 71-62 e arredada da medalha de bronze.

No ranking da FIBA para as seleções nacionais seniores femininas, atualizado após os J.O. do Rio de Janeiro, a equipa do Brasil está posicionada no 8º posto a nível mundial, terceira posição no continente americano, depois dos USA (1º) e do Canadá (6º). Apenas ultrapassada por quatro seleções europeias Espanha (2ª), França (3ª), República Checa (5ª) e Turquia (7ª) e, ainda, pela fortíssima seleção da Austrália (4ª) que se apresenta sempre como forte candidata a todas as provas internacionais em que participa.

Relativamente ao basquetebol sénior masculino, o Brasil já organizou em 7 ocasiões o Campeonato Sul-Americano: (Rio de Janeiro-1935), (Rio de Janeiro-1939), (Rio de Janeiro-1947), (Rio de Janeiro-1961), (S. Paulo-1983), (Guaratinguetá-1993) e (Campos dos Goytacazes-2004). As seleções brasileiras arrebataram, nas 47 edições da prova, 18 medalhas de ouro, 13 medalhas de prata e 8 de bronze, num total de 39 medalhas. Segue-se com 38 medalhas a Argentina (13-12-13), com 36 medalhas o Uruguai (11-13-12), a Venezuela com 11 medalhas (3-3-5), com 7 medalhas o Chile (1-2-4), também com 7 medalhas o Perú (1-2-4) e o Paraguai com 3 medalhas (0-2-1).

Nos eventos de basquetebol masculino dos Jogos Pan-Americanos, que se realizam de quatro em quatro anos, o Brasil foi sede do evento em (S.Paulo-1963) e (Rio Janeiro-2007), tendo as seleções de homens conquistado 14 medalhas, sendo 6 de ouro ((Cali-1971), (Indianápolis-1987), (Winnipeg-1999), (S.Domingo-2003), (Rio Janeiro-2007) e (Toronto-2015), 2 de prata em (S.Paulo-1963) e (Caracas-1983) e 6 de bronze nos torneios efetuados em (Buenos Aires-1951), (México-1955), (Chicago-1959), (México-1975), (San Juan-1979) e (Mar del Plata-1995), em igualdade com os EUA que também arrecadou 14 medalhas (8-3-3), o que demonstra perfeitamente a excelente prestação das seleções brasileiras na história dos Jogos Pan-Americanos.

Nos Campeonatos Mundiais de Seniores Masculinos, o Brasil teve a oportunidade, e soube aproveitá-la, com a realização da prova por duas vezes na cidade do Rio de Janeiro nos anos de 1954 e 1963. Foi nessa distante época que a seleção sénior masculina ganhou a medalha de prata (1954) no torneio realizado no Rio de Janeiro, conquistou o primeiro mundial (1959) em Santiago do Chile, tornando-se bicampeão mundial, em 1963, novamente no Rio de Janeiro, medalha de bronze (1967) na cidade de Montevideo, outra medalha de prata (1970) em Ljubljana, na antiga Jugoslávia e, ainda, outra medalha de bronze, em 1978, na cidade de Manila, nas Filipinas. Se acrescentarmos a tudo isso as 3 medalhas de bronze conquistadas nos Jogos Olímpicos de Londres-1948, Roma-1960 e Tóquio-1964, podemos afirmar, sem qualquer patriotismo lusófono, que naqueles anos, ou seja, de 1948 a 1978, se viveram três décadas de loucura basquetebolística, que influenciaram decididamente o desenvolvimento da modalidade no Brasil e em todo o continente americano.

No ranking da FIBA para as seleções nacionais seniores masculinas, atualizado após os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, a representação do Brasil está colocada na 7ª posição a nível mundial, aparecendo no terceiro lugar no continente americano atrás dos EUA (1º) e Argentina (6º). As outras seleções que ocupam lugares anteriores ao Brasil são as equipas europeias da Espanha (2º), Sérvia (3º), França (4º) e Lituânia (5º).

As sociedades, ao longo dos tempos, evoluíram na procura da melhoria da qualidade de vida dos seus cidadãos, cuja velocidade esteve sempre dependente do comportamento dos seus lideres políticos. Os sistemas desportivos, em todos os recantos do mundo, são influenciados pela política educativa e desportiva (quando ela existe) adotada pelos diferentes governos. O Desporto é aproveitado, na maioria das situações, pelo poder político para alcançar objetivos nada consentâneos com os valores da educação desportiva e do movimento olímpico. Os oportunistas surgem, de todos os lados, para ganhar protagonismo e quando não são controlados procuram tirar partido da situação sem prestar contas a ninguém. Será o Apocalipse do desporto se não houver acompanhamento regular e controle permanente da situação financeira por parte do departamento governamental responsável pelo desporto.

Como é possível que o departamento ministerial do desporto brasileiro deixasse a Confederação Brasileira de Basquetebol funcionar em roda livre, durante dois mandatos, até chegar à situação em que se encontra facilitando, deste modo, a intervenção da FIBA ao tomar uma atitude drástica face à incompetência e incapacidade demonstrada pelos dirigentes da entidade máxima responsável pela modalidade no Brasil. Segundo consta, o que se passou já não é de agora, já se vem arrastando de há uns anos a esta parte, podendo tornar-se num mau exemplo para o país, para o basquetebol no continente americano e, até mesmo, para o desporto ao nível internacional.

Embora tivesse havido da parte da FIBA uma enorme flexibilidade e apoio, em múltiplas ocasiões, antes dos Jogos Olímpicos Rio-2016, o executivo da CBB nunca foi capaz de cumprir as suas obrigações estatutárias, nas mais diversas situações, como membro da Federação Internacional de Basquetebol, tais como:

— Não cumprimento do pagamento das elevadas dívidas à FIBA por um período de tempo demasiado extenso;

— Não organização do evento “3x3 World Tour” no Rio de Janeiro;

— Não participando nas competições continentais para jovens e no Campeonato Mundial de Seniores em 3x3, impedindo que um elevado número de atletas não tivessem a oportunidade de qualificação e participação em futuras competições internacionais;

— Cancelamento das competições nacionais destinadas aos jovens praticantes de basquetebol, que são o futuro da modalidade;

— Situação financeira insustentável por parte da CBB para poder efetuar a gestão corrente da instituição;

— Perda total do controle da situação do basquetebol no país;

— Inexistência de um plano estratégico de reestruturação da CBB e desenvolvimento do basquetebol no Brasil.

Estas foram as principais razões para que a FIBA tivesse decretado a suspensão temporária da Confederação Brasileira de Basquetebol, poucos meses após a realização dos Jogos Olímpicos Rio-2016, e decidisse criar um grupo de trabalho (Task Force) para a reorganização da Confederação Brasileira de Basquetebol e desenvolvimento do basquetebol no Brasil.

Entretanto, com a chegada do derradeiro mandato ao seu final realizaram-se, durante o mês de março, novas eleições para os corpos gerentes da Confederação Brasileira, tal como definem os seus estatutos. Concorreram duas listas lideradas por pessoas conhecidas no panorama do basquetebol brasileiro, tendo Guy Peixoto e a sua equipa vencido por 17 votos contra 9. O novo elenco diretivo da CBB, no seu projeto de candidatura apresentou, como premissa prioritária, um plano de emergência denominado “Plano dos 100 dias”. Nesse espaço temporal, prometia tomar algumas medidas consideradas imperiosas e fundamentais para a credibilização interna e externa da instituição, tais como:

1 – Redução das despesas de funcionamento da CBB;
2 – Auditoria externa às contas apresentadas nos dois mandatos anteriores;
3 – Criar uma nova imagem pública da CBB;
4 – Apresentar à Federação Internacional de Basquetebol as principais ideias sobre a reestruturação da CBB;
5 – Elaborar um plano credível de desenvolvimento do basquetebol no Brasil.

Em consequência foram tomadas as seguintes medidas:

— Relativamente às despesas, foram feitas alterações internas no processo de funcionamento e redução dos espaços a utilizar, que conduziram a uma poupança anual de dois milhões de reais, ou seja, um total de oito milhões durante o mandato.

— De seguida, foi adjudicado, a uma reconhecida empresa internacional, a realização de uma auditoria à gestão financeira dos dois últimos mandatos.

— Depois, foi criado e apresentado publicamente um novo logotipo do basquetebol brasileiro a utilizar na camisola das seleções nacionais.

— Também foi assinado em Campinas, um contrato para a utilização da Arena Concórdia, em regime de exclusividade, para a instalação do Centro de Treino e Aperfeiçoamento das Seleções Nacionais.

— Deslocaram-se à sede da FIBA na Suíça, uma delegação da nova direção da CBB, para apresentação da nova estrutura diretiva e das principais ideias que orientam a acão durante o respetivo mandato.

Nas reuniões efetuadas com a FIBA, os argumentos apresentados pelos novos dirigentes da CBB não convenceram os patrões do basquetebol mundial (FIBA) que prolongaram a suspensão temporária do basquetebol brasileiro das competições internacionais até ao final de julho. Também informaram os dirigentes brasileiros que devem dar a maior recetividade à ação futura da “Task Force” que já está a trabalhar.

Estamos convencidos que, enquanto não for apresentado um plano de saneamento credível pela CBB relativamente às dívidas à FIBA, não haverá alteração da posição da Federação Internacional. A gravidade da suspensão atinge sempre os mais indefesos e menos culpados nesta situação, os jogadores. É necessário que os dirigentes desportivos, sejam eles nacionais ou internacionais, entendam definitivamente que os mais importantes agentes desportivos são os jogadores. São eles que constituem as equipas e seleções nacionais e, como tal, são eles os praticantes e sem praticantes não há desporto. Impedir os jogadores de participar em representação dos seus países, através das seleções nacionais, é um erro grosseiro que desprestigia o basquetebol e os seus dirigentes. Se há que punir alguém, por motivos óbvios, que castiguem os dirigentes e deixem a juventude desportiva em paz.
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