Olimpismo e Teologia da Glória (artigo de Gustavo Pires, 61)

Olimpismo 03-05-2017 21:26
Por Gustavo Pires
Ao desencadear a institucionalização dos Jogos Olímpicos na era moderna, Pierre de Coubertin introduziu a dimensão competitiva formal nas atividades físico-recreativas que, para além dos modelos de ginástica vigentes, eram praticadas na Europa na segunda metade do século XIX. Para o efeito, em 1894, fundou o Comité Internacional dos Jogos Olímpicos que, no justo equilíbrio da euritmia do confronto entre, por um lado, a pulsão dionisíaca do entusiasmo, da entrega e da criatividade que podia conduzir os praticantes desportivos ao excesso do alto rendimento e, por outro lado, a pulsão apolínea da ordem, da regra, da disciplina e do planeamento que procurava alargar a prática desportiva a todos os continentes, tinha como missão organizar, de quatro em quatro anos, à escala mundial, uma edição moderna dos Jogos Olímpicos.

Tratava-se de um projeto que tinha como grande objetivo desviar dos campos de batalha para os terrenos de jogo as disputas que, até então, eram travadas entre os países europeus. Nestes termos, o desporto devia ser um instrumento de educação, de cultura, de paz e de desenvolvimento. Coubertin tinha do fenómeno desportivo uma visão humanista pelo que o Movimento Olímpico devia estar ao serviço de uma meta suprema, consubstanciada no desenvolvimento máximo de todas as capacidades do ser humano, pela atribuição de um valor positivo à competição, a fim de garantir o futuro da humanidade. Infelizmente, aquilo que, posteriormente, em muitos países, veio a acontecer foi a deturpação do pensamento de Coubertin com a utilização do desporto e dos atletas de maior prestígio para fins político-ideológicos. Quer dizer, à margem do desenvolvimento humano e através de uma visão darwiniana do processo de desenvolvimento do desporto, o Movimento Olímpico foi colocado, não ao serviço das populações mas ao serviço dos regimes políticos dos mais diversos países.

Se a utilização política do desporto em larga escala aconteceu, pela primeira vez, nos Jogos Olímpicos de Berlim (1936) que decorreram sob o signo do nacional-socialismo, a primeira utilização política premeditada de um atleta aconteceu nos Jogos Olímpicos de Helsínquia (1952) com o extraordinário atleta checoslovaco Emil Zátopek (1922-2000) que ficou conhecido para a história do Movimento Olímpico internacional como a Locomotiva de Praga ou a Locomotiva Humana. Numa entrevista ao jornal L`Équipe, Zatopek relatava que lhe chamavam o “coronel honorário” por os seus galões, obtidos enquanto oficial do exército, terem sido conseguidos através dos resultados conquistados no atletismo que serviam para propagandear as virtualidades do regime comunista da Checoslováquia.

A partir de Helsínquia (1952), devido à “guerra fria” desencadeada após o término da Grande Guerra (1939-1945), a utilização do desporto e da imagem dos atletas de exceção deu origem à institucionalização de uma cultura enquadrada por aquilo a que denominamos por Teologia da Glória que, com características protofascistas, passou a colocar o desporto, não ao serviço das pessoas e dos países, mas ao serviço dos regimes e das nomenclaturas político-partidárias detentoras do poder tanto à esquerda quanto à direita do espectro político. Em consequência, o número de medalhas olímpicas começou a ser interpretado não como um indicador, entre outros, relativo às políticas públicas em matéria de desporto mas, unicamente, como “o indicador” da supremacia ideológica de cada regime e de cada país relativamente aos demais, independentemente de terem ou não uma prática desportiva de base minimamente organizada no país. Esta visão populista, transformou os Jogos Olímpicos numa espécie de campo de batalha, uma vez que cada um dos dois blocos ideológicos em confronto, os EUA e a URSS, acompanhados dos respetivos países satélites, passaram a afirmar a superioridade do seu estatuto imperial em função do número de medalhas olímpicas conquistadas.

A URSS, a partir dos anos trinta, aquando da liderança de José Estaline, instituiu um programa nacional de educação desportiva sob a divisa “prontos para a defesa e o trabalho” que provocou um significativo desenvolvimento do desporto no País. Ao tempo, foi tida como premissa fundamental do desenvolvimento a compatibilidade e complementaridade entre o desporto de massas e o desporto de elite. Para o efeito, através de uma organização burocrática fortemente centralizada, os programas de desenvolvimento do desporto, para além de promoverem entre a juventude a lealdade ao Estado e ao Partido, cultivavam as virtudes mais apropriadas à afirmação do regime político como a disciplina, a responsabilidade e respeito pelo coletivo. De acordo com o pedagogo Anton Makarenko os jovens eram mais facilmente influenciados e disciplinados através de uma pressão interpares que, no fundo, não era mais do que aquilo que Thomas Arnold preconizou nas Escolas Públicas inglesas no início do século XIX. Nesta perspetiva, o jornal Pravda (1969-08-22) esclarecia que o desporto escolar na URSS tinha sido concebido para formar comunistas patriotas com uma mentalidade internacionalista. Na realidade, grandes atletas como Valeriy Brumel e Vladimir Iashenko, entre outros, iniciaram a prática desportiva no desporto escolar. Por isso, não é de admirar que quando em 1951 o Comité Olímpico nacional da URSS solicitou a adesão ao Comité Olímpico Internacional COI) a intenção fundamental tenha sido a de abrir um novo espaço de propaganda político-diplomática, a fim de aproveitar as vantagens que o Movimento Olímpico podia proporcionar. Desde logo porque Estaline tinha consciência da superioridade do programa desportivo desenvolvido na URSS relativamente ao modelo de desenvolvimento do desporto nos EUA. Em conformidade, ao participar nos Jogos Olímpicos de Helsínquia (1952), o Comité Olímpico da URSS fez ver ao Mundo que o evento tinha deixado de ser o passeio vitorioso a que os EUA estavam habituados. E, quatro anos depois, nos Jogos Olímpicos de Melbourne (1956), a perspetiva de Estaline foi plenamente confirmada na medida em que a Missão Olímpica americana sofreu uma “humilhante” derrota desportiva traduzida numa diferença de vinte e quatro medalhas relativamente às conquistadas pela Missão Olímpica soviética. A situação foi de tal maneira dramática que, imediatamente depois dos Jogos, a revista “Newsweek” (1956-12-17) publicou um editorial intitulado “Men – Medals – Marxism” em que defendia que, assim que os Jogos Olímpicos se iniciassem, cada atleta tinha o dever de se sentir como “um combatente da guerra fria”. O artigo voltou a ser publicado quatro anos depois (1960-08-09) pouco antes dos Jogos Olímpicos de Roma. Todavia, a Missão Olímpica americana a Roma (1960), mais uma vez, ficou atrás da soviética com uma inacreditável diferença de mais de trinta medalhas. Em resultado desta “afronta”, em Janeiro de 1963 o Senador Hubert Humphreyn escreveu na revista “Parade” um artigo intitulado: “Why We Must Win the Olympics” onde argumentava que Jogos Olímpicos representavam a luta entre a liberdade e o comunismo. E, no ano seguinte, em Julho de 1964, Robert Kennedy, publicou no “Sports Illustrated” um artigo com o título: “A Bold Proposal for American Sport” onde afirmava: “…é de interesse nacional que voltemos a ganhar a nossa superioridade olímpica e que, uma vez mais, demos ao mundo uma prova da nossa força interior e vitalidade”. Infelizmente, partir de então, fazendo da guerra a metáfora do desporto e do desporto a metáfora da guerra, os americanos começaram a ir para a guerra como se fossem para uma final do “Superbowl”, tal como, em 2001, afirmou um piloto americano de um B1 depois de uma missão de bombardeamento no Afeganistão: “Sinto-me bastante orgulhoso, tal qual um jogador de futebol no dia do Superbowl”.

Entretanto, em 1979, devido à “diplomacia do ping-pong” e à necessidade de se libertar do imperialismo ideológico da União Soviética, a República Popular da China (RPC), já sob a liderança de Deng Xiaoping, regressou ao Movimento Olímpico de onde tinha saído em 1956. A partir de então, a RPC virou completamente de rumo relativamente ao passado em que pretendeu institucionalizar os Jogos das Novas Potências Emergentes onde, veio a saber-se, os resultados eram politicamente estabelecidos por Zhou Enlai o Primeiro-ministro. Sob a liderança de Deng Xiaoping, a quem não interessava saber se o gato era preto ou branco desde que fosse capaz de caçar ratos, os Jogos Olímpicos e os resultados desportivos, começaram a ser de capital importância no que diz respeito à promoção política e económica, interna e externa, do país pelo que o manual da Teologia da Glória passou envolver o Movimento Olímpico chinês. E, de acordo com esta nova perspetiva, em 1992, Pequim candidatou-se a receber os Jogos da XXVII Olimpíada. Embora não tenha conseguido o seu objetivo, não desistiu e acabou por ganhar a realização dos Jogos da XXIX Olimpíada no ano de 2008. E na lógica da Teologia da Glória no interior dos equipamentos dos atletas da Missão Olímpica chinesa presentes nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008), podia ler-se a frase transcrita do hino nacional: “levantem-se e marchem”. Quer dizer, os Chineses não estavam interessados nos Jogos Olímpicos para participar mas sim para ganhar do ponto de vista desportivo, económico e político.

Em finais dos anos oitenta com a queda do muro de Berlim e a desagregação da URSS, ainda se acreditou que, com a “vitória” da democracia liberal, o tempo histórico das ideologias tinha chegado ao fim e, assim também, a Teologia da Glória que, enquanto ideologia de falsos valores ao serviço dos regimes chauvinistas tanto de direita quanto de esquerda, ia ser enviada para o “caixote do lixo da história”. Na realidade, nada disso aconteceu. A dinâmica mercantil desencadeada por Antonio Samaranch enquanto presidente do COI, começou a funcionar com a máxima potência nos anos noventa pelo que o poder do dinheiro acabou por recuperar a Teologia da Glória, desta feita ao serviço de uma visão neomercantilista de uma nova oligarquia político financeira que, desde então, começou a dominar as mais diversas organizações desportivas a partir das grandes multinacionais. E, hoje, estamos a viver a estranha situação do COI, os Comités Olímpicos Nacionais (CONs), as Federações Internacionais (FI) e as Federações Nacionais (FN), bem como grandes clubes por esse mundo fora estarem dependentes dos patrocínios de empresas multinacionais que, desprovidas de quaisquer sentimentos para além do amor ao lucro, estão a destruir a alma do desporto. Em consequência, as organizações da superestrutura do desporto, tanto as de nível internacional como as de nível nacional, estão debaixo de enormes críticas ético-morais na medida em que a fonte dos seus rendimentos está dependente dos patrocínios das empresas gigantes mundiais que fabricam e comercializam produtos como carros elétricos, computadores, “smartphones” e outros “gadgets”, cujas baterias necessitam de cobalto extraído, por exemplo, das minas da República Democrática do Congo onde, em regime de escravatura, trabalham crianças a partir dos quatro anos de idade. Quanto dos lucros proporcionados por estas crianças às multinacionais revertem para o COI a fim de serem distribuídos através dos programas da Solidariedade Olímpica para a promoção da prática desportiva em países do primeiro mundo é o que fica por saber.

Infelizmente, hoje, perante a passividade dos Governos e o desinteresse da opinião pública parece certo que estas questões nunca serão resolvidas uma vez que as políticas desportivas nos mais diversos países do mundo estão mais direcionadas para replicarem o circo romano do que para honrarem o estádio olímpico.

Em consequência, à revelia dos interesses das populações, ao estilo do “quero, posso e mando”, as lideranças da generalidade das organizações desportivas, aproveitando-se da democracia simulada que, de uma maneira geral, rege os países, está a colocar em causa o desenvolvimento integrado e sustentado da pirâmide de desenvolvimento, a endeusar atletas em exercício a fim de os utilizar como “carne para canhão”, e a desprezar a dignidade dos ex-atletas olímpicos que, no quadro da Teologia da Glória, são considerados como simples adereços de eventos desportivos, sociais e políticos, sem quaisquer possibilidades reais de intervirem na organização do Movimento Olímpico do futuro.

Partindo desta realidade, a Teologia da Glória só interessa para alimentar a esquizofrenia populista, totalitária ou imperial dos dirigentes políticos e desportivos de países como os EUA, a Rússia, a China, a Bielorrússia ou, entre muitos outros, a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte) que, para arregimentar as massas, se servem de umas ridículas proclamações e palavras de ordem tais como: “o desporto é um desígnio nacional”; “devemos estar prontos para competir pelo Querido Líder”; “transformemos todo o desporto na conquista de medalhas olímpicas”; “devemos estar preparados para partilhar o destino do Querido Líder, seja ele competente ou incompetente; só o Querido Líder representa o futuro que nos une”. Quer dizer, a Teologia da Glória, sob a conivência do COI, de diversos CONs bem como da generalidade das FI e das FN está, não só, a destruir o Movimento Olímpico à escala do Planeta como, à revelia do sonho de Pierre de Coubertin, a transformar o desporto, num instrumento de alienação de massas ao serviço das novas oligarquias económicas e financeiras.

Em conclusão, o que se espera é que os Governos, antes que a “bomba relógio” lhes rebente nas mãos, no respeito pela liberdade e independência que deve presidir ao livre associativismo desportivo, assumam as suas próprias responsabilidades que passam por garantir que, de acordo com as recomendações da própria Organização das Nações Unidas, o desporto, enquanto projeto de desenvolvimento humano, esteja, verdadeiramente, ao serviço dos países e das suas populações de maneira a contribuir para a promoção da paz e a qualidade de vida, tendo em atenção a salvaguarda da dignidade da pessoa humana. Para o efeito, em alternativa à Teologia da Glória, é necessário que as políticas públicas em matéria de desporto desencadeiem uma nova Teologia, desta feita uma Teologia da Libertação que, no respeito pela condição humana, projete o desporto na senda do futuro.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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