A pós-verdade e… o futebol! (artigo de Manuel Sérgio, 191)

Ética no Desporto 28-04-2017 16:55
Por Manuel Sérgio
O diretor da Brotéria (uma das revistas que eu não dispenso), o jesuíta António Júlio Trigueiros, escreveu no editorial desta publicação (Março de 2017): “O referendo sobre o Brexit no Reino Unido e a eleição presidencial de Donald Trump nos Estados Unidos estiveram na origem da escolha da palavra do ano 2016 que os dicionários britânicos Oxford fixeram. Trata-se da palavra pós-verdade, “post-truth” em inglês. Segundo a definição avançada, é um adjetivo que se refere a circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais (Oxford Dictionary).

De acordo com a mesma fonte, a palavra pós-verdade tornou-se em 2016 numa recorrente referência no comentário político e o seu uso aumentou dois mil por cento, relativamente ao ano anterior de 2015. A entrada da palavra pós-verdade no discurso público está intimamente relacionada com a ascensão das redes sociais como fonte de informação e a crescente desconfiança, face aos factos apresentados por políticos, jornalistas e comentadores, como referiram os editores dos dicionários. Com facilidade passou a dar-se crédito a informações bombásticas e pouco credíveis, mesmo que provenientes de fontes duvidosas ou claramente ideológicas, que procuram produzir emoções e suscitar tomadas de posição, ainda que epidérmicas e imediatas”. Que atravessamos o tempo da pós-verdade dizem-nos, pelo que fazem, muitos comentadores do futebol, na Rádio, na TV, nos Jornais, nas Redes Sociais, etc., etc. Empreendem eles erigir monumentos imperecíveis à crítica do futebol (mais duradouros do que vazados em bronze) através de mentiras, de birras, de uma parcialidade que tem a sua justificação, entre outros motivos, no facto de pegarem à vara do pálio dos presidentes dos seus clubes e beneficiarem por isso de presidencial munificência.

Mas estes críticos, banhados de certezas e sacudidos pelas apóstrofes aos seus adversários, querem passar por homens sensatos, estimáveis, probos, não dando conta que o seu discurso empolga os seus consócios especialmente dados a um clubismo mais impetuoso, mais contundente, mais estupidificante. Quantas vezes me ocorre, ao escutar uns e outros, a sentença de Nietzsche (1844-1900): “Deus morreu!”. E me acode à memória o livro Nietzsche de Daniel Halévy (Editorial Inova, Porto, s/d) onde se relembra uma interrogação do autor de Humano demasiado humano: “é possível o enobrecimento do homem?”.

Escreve Daniel Halévy: “Por muito tempo ainda os leitores de Nietzsche e os seus filhos e após eles os seus netos, interrogarão o enigmático tesouro que ele lhes deixou. Por muito tempo ainda, o incêndio nietzscheano iluminará, com os seus clarões, a crise de uma humanidade que sente caírem-lhe em cima as sombras e trevas que, num dia de tristeza, o solitário predisse. Possa uma das altas chamas iluminar algum dia esse renascimento do homem, que Nietzsche tinha esperado tão obstinadamente e procurado tão perigosamente. É possível o enobrecimento do homem? Perguntou ele num texto da juventude. A pergunta ainda estremece nos nossos lábios” (p. 406). Sob o pretexto do estilo poético e aforístico, houve quem não reconhecesse em Nietzsche a qualidade de filósofo.

Mas como desconhecer que o seu pensamento revelou notável força profética e exerceu influência marcante na filosofia do século XX? E apresta-se para igual magistério, na filosofia do século XXI? Antes ainda de Freud, ninguém melhor do que Nietzsche, soube desmascarar o racionalismo e o homem da modernidade; ninguém melhor do que Nietzsche abriu pistas onde se inscreveram, entre outros, Sartre, Buber, Jaspers, Heidegger, Kafka, Rilke, Malraux. Com Marx, Darwin, Nietzsche e Freud, um corte aconteceu, numa rotineira e repetitiva modernidade…

Já estou muito velho para iludir-me com o triunfo passageiro de algumas ideologias. No entanto, acredito piamente no Estado de Bem-Estar (Welfare State), ou no Estado Providência, quero eu dizer: num regime democrático que, no lugar de propor prioritariamente ao chamado “poder popular” o dogmatismo de alguns populismos e nacionalismos, propõe e assegura e realiza a satisfação dos mais instantes e legítimos direitos dos seus concidadãos. Só com discursos de muitas horas não se resolvem problemas e, já o sabemos, com ideologia a mais, há tecnociência a menos. E, sem esta, os problemas não têm resolução capaz.

Mas, uma vez mais, o nome de Nietzsche pode aqui invocar-se: a sua “morte de Deus” significa uma vigilância anti-idolátrica contra todas as ditaduras que na Europa se implantaram… em nome de Deus! Ou em nome de ídolos vários! Só que o Deus ao qual Nietzsche, criticamente, se refere era um ídolo também pois que a sua opção preferencial não era a promoção das classes mais desprotegidas, mas unicamente os magnos interesses da burguesia, do capital e de um cristianismo de grande infidelidade ao Evangelho, encerrado na estreiteza da tradição constantiniana.

Também a crítica que irrompeu de Nietzsche de a cultura europeia dever deslocar os seus vetores mais significantes da ordem do ser e do logos, para o espaço e movimento da corporeidade, mostrou a rara clarividência deste filósofo. Já Gabriel Marcel, em l’homme problématique, escrevia: “Na presença de um grande espírito que contribuiu, mais do que ninguém do seu tempo, para a renovação do horizonte espiritual, surge em nós uma exigência superior de inteligibilidade” (p. 36). Mas eu volto à “morte de Deus” que o Nietzsche, com a força do seu génio, proclamou, para sublinhar que são, muitas vezes, os grandes heréticos os que melhor antecipam o mundo nascituro.

Relembro agora o discurso do Papa Francisco à Cúria Romana, lamentando que ela se encontrasse doente de “Alzheimer espiritual”, isto é, por aquela doença que se manifesta por um fundo esquecimento de muitos dos momentos mais importantes da história da nossa própria vida, que estruturam e dão sentido à nossa passagem por este mundo. No comentário desportivo, numa simples análise de um jogo de futebol, há também quem se esqueça de certos valores, há quem se esqueça afinal que o seu anti-benfiquismo, ou anti-portismo, ou anti-sportinguismo, primários, são verdadeiros obstáculos epistemológicos à compreensão do mundo do futebol.

Mas todos nós, os que os lemos e ouvimos, sabemos que a sua prosa e o seu discurso é do tempo da pós-verdade: eles não querem servir a verdade, mas unicamente os seus interesses, travestidos de um acrisolado amor ao seu clube. O seu (repito-me) anti-benfiquismo, ou anti-sportinguismo, ou anti-portismo, primários, amplificados pelos “media” e pelas redes sociais, não merecem o mínimo crédito, nem ético, nem científico, nem jornalístico. Enfim, como diria o Nietzsche, todos eles atestam que vivemos o tempo da “morte de Deus” ou a era da “pós-verdade”. E no entanto são multidões os que os aplaudem, as audiências dos programas em que participam atingem números invulgares. Ou seja, é na distorção da realidade, na fuga à verdade dos factos, na ausência de séria investigação, na mais descarada manipulação, que muita gente parece sentir-se plenamente feliz.

É verdade: há quem rejeite, por demasiado metafísico, um debate de ideias, ou uma procura de nitidez nos conceitos e aceite, com um sorriso seráfico nos lábios, a pós-verdade de verdadeiros “vendedores de ilusões”. Reconheço que das nossas decisões emerge mais irracionalidade do que racionalidade. Eu próprio me penitencio, aqui e além, deste mesmo pecado. Mas, na busca persistente da verdade e no (impossível, reconheço) equilíbrio entre a razão e a emoção, um pouco de auto-crítica torna-nos menos cúmplices deste bloqueamento cultural, deste obscurantismo, em que, pelo futebol, nos pretendem mergulhar.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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