Futebol: Caos, guerra, indiferença ou dignidade? (artigo de Aníbal Styliano, 20)

Espaço Universidade 26-04-2017 11:43
Por Aníbal Styliano
O futebol, a política e todos os “universos” do país têm de começar a identificar principais responsáveis e atribuir-lhes as devidas sanções e penalizações. Só assim também poderemos valorizar a competência. O clima de guerra que o futebol atravessa, interna e externamente, poderá ter muito a ver com os avultados investimentos e recursos que o alimentam e tentam aprisionar, com as “facilidades” de circulação de capitais e de apostas desportivas e com a “ganância e incompetência de altos dirigentes”.

Há quem afirme que esse clima de guerra favorece a sua mediatização, logo torna-o uma presença diária, contínua, um interesse por vezes mórbido e obsessivo. Dos dramas dos refugiados, voltam-se olhares e as câmaras para os confrontos semanais, por vezes muito violentos, que até permitem ganhar dinheiro com uma simples aposta.

Ódios alimentados por “pirómanos” e nunca resolvidos por negligência de autoridades que se recusam a enfrentar os graves problemas existentes, por razões que o bom senso desconhece. De pequenas falhas (como os erros na formação), avança-se para a colocação de dirigentes amigos, cooperantes, cordatos e silenciosos, que cumprem eventuais planos elaborados por um grupo restrito de técnicos, provavelmente com apoios externos de alto nível, e se caminha na demolição de um património da humanidade, que atrapalha incertos interesses.

Há quem afirme que é o caminho natural da evolução… Discordo completamente, receio que como Casillas afirmou “o futebol está a fugir-nos das mãos” e acrescento, a ser entregue a quem o pode destruir. A banalização do erro sistemático como “normalidade”, a imediata descoberta da “culpa” para cumprir rituais que são do fundo do tempo (sacrifício do bode expiatório), a utilização de redes comunicacionais para servirem agendas particulares, vão fazendo um trabalho de alienação objetiva, imparável, com eventuais consequências devastadoras.

Mesmo sem se dar conta, o mundo apresenta também, diariamente, mudanças profundas e imponderáveis… Refletir, prever e antecipar são tarefas de todos mas que lideranças nunca podem desvalorizar. A quem não consegue acompanhar estes desafios ou não revela capacidade para encontrar respostas adequadas e contextualizadas, resta a dignidade de sair de jogo… Depois, pode ser tarde e só com “expulsão”, processo normalmente traumático, ainda que necessário. Porém, sempre com atribuição das devidas responsabilidades; nunca com distinções ou elogios “fúnebres”.

Não há mortes violentas sem responsáveis. A dignidade, neste como noutros casos, deveria impor-se e assim assistirmos a algumas demissões/substituições voluntárias. Poderia ser um bom caminho e uma adequada lição de pedagogia cívica.

“O senhor Blatter quer Platini na UEFA ou na FIFA”, é um dos atuais títulos da imprensa. Como é possível e que objetivos se pretendem reforçar? A designada “globalização” está a ruir com consequências imprevisíveis e a permitir o reforço de nacionalismos “ferrenhos” e violentos. Antes que deixemos utilizar o futebol nessa “orgia de poder”, não seria preferível defender os seus princípios e devolvê-lo aos seus valores mais importantes?

Há demissões que se aguardam sem imposição de ninguém mas ditadas pela consciência de quem sabe que falhou e muito… A partir daí, sem exemplos de coragem, de frontalidade, de liderança, de coerência, a manterem-se nos lugares privilegiados, passando pelos “intervalos da chuva sem se molharem”, estaremos a caminhar para um abismo e mesmo que ganhem milhões, a obra que continuam impunemente a criar será sempre de perdição.

Aprender a saber ganhar ou a saber perder faz parte do jogo mágico, mas muitos, inexplicavelmente, nunca o conseguem compreender.

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol.
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