“Violência e Futebol”: - um livro a reler (artigo de Manuel Sérgio, 190)

Ética no Desporto 16-04-2017 16:53
“O futebol é muito mais do que um esporte profissional de alto rendimento: é a metáfora de uma sociedade. Em outras palavras, é a síntese de múltiplas determinações objetivas e subjetivas – emocionais, existenciais, culturais, sociais, humanas” (p. 17).

A frase é do sociólogo brasileiro Maurício Murad, no seu livro Violência e Futebol (Editora FGV, Rio de Janeiro, 2007) que hoje reabri e reli, quando a violência insidiosamente parece querer apoderar-se do futebol, tanto a nível nacional como internacional. O jornalista Hugo Vasconcelos titulava assim a notícia do dia, no jornal A Bola, de 12 do mês em curso: “Autocarro do Dortmund atacado à bomba. Três explosões no caminho para o estádio. Vidros partidos feriram Bartra que foi operado”. Segundo as autoridades alemãs, tratou-se de “um grave ataque com explosivos” que afinal teve efeitos menos graves do que os esperados pelos criminosos que o perpetraram.

Em Portugal, o José Lima, coordenador, de exemplar diligência, do Plano Nacional de Ética no Desporto, refere que, “nos últimos dias, o desporto português tem sido notícia pelos atos de violência, de modo particular no futebol”. E continua: “Felizmente que o desporto português não é só futebol e não é só violência. Das dezenas de milhares de jogos que se realizam todos os fins de semana, em diversas modalidades, só numa ínfima parte há problemas. Continuamos com o defeito de olhar só para a árvore e não para a floresta”. Mas não desculpabiliza o que se passa, no futebol, com a violência física e a violência verbal, pois que a violência já enodoa (o que parece incrível) o futebol dos infantis. Com efeito, o jogo entre Coimbrões e Candal da série 1 de Infantis da A.F.Porto terminou, antes da hora regulamentar, por violência nas bancadas. “É por isso que o PNED/IPDJ defende que é no binómio educação/prevenção e na promoção do fair-play que se joga o sucesso de um desporto diferente” (Record, 2017/4/11).

Mas voltemos ao livro de Maurício Murad: “Os meios de comunicação, televisão e jornais notadamente superdimensionam os fatos violentos ocorridos no futebol (…). Com ou sem intenções predeterminadas, transformam o secundário em principal, já que operam uma divulgação espetacularizada e até narcísica dos acontecimentos. Isso acontece devido a uma obediência, nem sempre desprovida de oportunismo, aos padrões e critérios imediatistas e mercantilistas, hegemónicos ao que parece, na atualidade da mídia” (p. 171). No entanto, as manifestações de violência física e verbal radicam insidiosa e principalmente nas claques organizadas, infiltradas por indivíduos que se distinguem por comportamentos condenáveis, no futebol e… não só. Tem raízes sociais a violência no desporto? É evidente que tem! Ainda proliferam as desigualdades, a fome, a precariedade e os fundamentalismos de todo o tipo, incluindo alguns que se dizem religiosos. Mas por que será que até pessoas que andam por aí com a alegria de viver a estourar-lhes das bochechas e que são médicos e advogados e engenheiros e professores e artistas manifestam um clubismo tão doentio, não esboçando um único gesto de cortesia, ou de simpatia, em relação aos clubes rivais? É verdade também que a competição capitalista, corporizada por gente de velhos orgulhos e velhas formas de ver o mundo, inquinou, muitas vezes irremediavelmente, a competição desportiva. Mas, verdadeiramente, o que é, para mim, um “acontecimento” é a “falta de educação” de “pessoas bem educadas”, na análise, por exemplo, de um jogo de futebol. Como Gilles Deleuze o assinala na sua Logique du Sens, há pessoas que não vão do som às imagens e das imagens ao sentido, instalam-se à partida no sentido e tudo o mais já não interessa. Também para muitos sportinguistas e benfiquistas e portistas o sentido é independente da realidade, porque a realidade existe, porque existe o Sporting, ou o Benfica, ou o Porto. Ou seja, a sua lógica é uma patetice. E é como patetas que julgam e discutem – as televisões assim o confirmam…

“Reeducação, prevenção e punição, eis o tripé de medidas necessárias e irrecusáveis, para o tratamento da violência esportiva em geral, futebolística em particular. A experiência tem demonstrado a eficácia dessas medidas, quando aplicadas em conjunto, de forma articulada e planejada” (Maurício Murad, op. cit., p. 164). Prevenir, educando, na escola e na sociedade toda, parece-me o remédio a prescrever, imediatamente. A escola, embora indispensável, não basta. Por mais empático e criativo e honesto que seja um professor, por mais nítida que seja a conceptualização do corpo teórico que procura ensinar, bem pouca relevância tem diante das imensas possibilidades das novas tecnologias e da sociedade do espetáculo, quase sempre ao serviço do deus-lucro. E, diante de uma “sociedade com memória” (cujos referentes são a História e a Filosofia) e uma “sociedade sem memória” (cujos referentes são uma hiperinformação, que se transforma em subinformação, e uma atabalhoada comunicação) os alunos escolhem, naturalmente, o que mais fácil é de escolher, o que exige menos reflexão e pensamento, a “sociedade sem memória”. No tempo em que vivemos, valoriza-se a cultura do espetáculo, da imagem, do virtual. Pensamos pouco (ou pretendem que pensemos pouco) e somos muito, muitíssimo manipulados. “Este contexto histórico-social repercute-se nos alunos, através do irracionalismo das emoções, no hábito de detestar tudo e de gostar de poucas coisas; na fadiga perante o trabalho e o esforço intelectual; nas lacunas estruturais, aos níveis da compreensão, da análise, da síntese e das competências linguísticas, argumentativas e comunicativas” (Manuel de Jesus Couraceiro, “O valor pedagógico da Filosofia no Ensino Secundário”, in Os actuais programas de Filosofia do Secundário, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, p. 227).


Sem uma falha, um desânimo, uma dissonância, o PNED/IPDJ desenvolve no nosso País um trabalho incansável, criterioso, contra a violência no Desporto, salientando que o verdadeiro espírito desportivo se resume a uma competição entre amigos e não entre ferozes inimigos. A prática desportiva pode transformar-se num espaço onde se sublima o que de nós emerge, como instinto de pura destruição, ou seja, como forma de canalizar as pulsões violentas à transcendência física, psíquica, intelectual, moral. No Desporto, a agressividade, a combatividade não se confunde com a violência, pois que há uma axiologia desportiva (ou, se assim se quiser, um humanismo) que o não permite. Da vida seivosa e forte do Desporto devem despontar valores que orientem os comportamentos dos atletas e das pessoas em geral. Como defino eu “valor”? São crenças ou padrões normativos, que dão justificação e fundamento à nossa conduta. Nietzsche sustentou que a feição primacial do ser humano é criar valores e deles viver. Diremos o mesmo do desportista: os seus espantosos desempenhos deverão exprimir-se também, em função de uma, ou várias, referências axiológicas, úteis a qualquer pessoa, seja ou não desportista. Sabemos bem, mormente nós os que acompanhamos o futebol, o que pode contribuir para elevar, a patamares inesperados, a auto-estima de um povo, ou de uma região, a vitória numa competição desportiva de relevo internacional. É o suficiente para um país surgir, nas primeiras páginas dos jornais, ou na abertura dos jornais televisivos, como “uma impetuosa força em marcha”. A violência é uma constante estrutural da história da humanidade. Só que, sem ética, não há desporto. O desporto não é violento, tem violência – a violência que nele põem os oficiantes de um clubismo (e até integrismo religioso) em estado de adiantada crise. A violência não define o futebol (nem o desporto em geral) define, sim, muitos dos que nele andam. Incluindo alguns que constituem a síntese de todo o ridículo possível e… impossível!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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