De Platão até hoje… (artigo de Manuel Sérgio, 189)

Ética no Desporto 09-04-2017 16:10
Por Manuel Sérgio
Platão foi um notável filósofo grego? Não, Platão é um dos mais notáveis filósofos de todos os tempos. Nasceu no ano 427 antes de Cristo de uma das famílias mais abastadas da Hélade e faleceu em 347, com 80 anos portanto. A lenda atribui-lhe um porte atlético, ombros largos, testa ampla e mãos férreas e, daí, o facto da comutação do primitivo nome de Aristocles para o de Platão. Eram políticas as tradições da família, mas ele preferiu a filosofia. Demais, foi aluno de Sócrates que nele deixou sulcos profundos, na sua formação intelectual e orientação filosófica. Será de referir que o nome de Sócrates, um filósofo de incomparável encanto e de imortal sedução, figura em todos os diálogos de Platão, à exceção das Leis.

Em O Banquete, um dos diálogos platonicos, Pausânias, personagem deste diálogo, orgulha-se de pertencer a um povo que cultiva a filosofia e a ginástica, em contraste com os povos bárbaros que desprezam tanto a filosofia como a ginástica. Esta dividia-se, nos gregos, por três finalidades bem práticas: a ginástica militar, a ginástica atlética e a ginástica médica. No século XVI, Jerónimo Mercurialis, no seu De Arte Gymnastica, define a ginástica como uma arte médica, pertencente à medicina mais de cunho profilático do que terapêutico. Enfim, sempre uma filosofia a fundamentar os exercícios ginásticos, como o desporto, em Coubertin, radica, declaradamente, numa filosofia humanista. Como já o tenho dito e escrito muitas vezes, no desporto não há fisiologia tão-só, mas também inteligência e… ética! Só correr, saltar, rematar, defender, encestar, nadar, patinar ainda não é desporto. Para que o desporto aconteça, importa que o exercício físico, os primores técnicos, a inteligência tática se façam à luz de princípios categóricos, éticos e se possível estéticos sobre o mais. Foram os gregos os primeiros a integrar a ginástica na sua paideia, ou seja, em toda a sua educação. Platão e Aristótoles dão-nos informações claras, a este respeito.

Relembro um diálogo platónico, o Timeo: “O matemático ou o que realiza alguma outra prática intelectual intensa deve também executar movimentos corporais, por meio da ginástica; por seu turno, o que cultiva adequadamente o seu corpo, o que faz ginástica, deve guardar alguns momentos do dia para, pela música e pela filosofia, cultivar também a alma, para ser, simultaneamente, belo e bom”. No passado dia 2017/4/5, li a seguinte notícia no jornal A Bola, acerca da agressão do Marco Gonçalves ao árbitro José Rodrigues: “O agressor do árbitro José Rodrigues, no jogo Rio Tinto-Canelas, utilizou as redes sociais para tecer fortes críticas aos dirigentes do clube gaiense, que o afastaram da equipa, depois do triste episódio que o levou a tribunal, na segunda-feira. O alvo principal das palavras de Marco Gonçalves foi o presidente do clube, Bruno Canastro: “Arrependo-me de tudo o que aconteceu e peço desculpa ao árbitro e à sua família. Mas os dirigentes do Canelas não podem falar assim tão mal de mim, porque nunca me disseram na cara que estava dispensado, assim como nunca me disseram que tive culpa em tudo o que se passou. Sou culpado e assumo , agora eles fazem-se de santinhos e atiraram tudo para cima de mim. Isso não admito. Esse senhor que falou que tenho de ser castigado é o mesmo que me disse que se tiver de f… dois ou três, para fazê-lo. Sou culpado das minhas atitudes, mas não me venham tapar os olhos, seus otários”, escreveu o também elemento dos Super Dragões”. Portanto, se é verdade o que diz o Marco Gonçalves, alguns jogadores e alguns dirigentes equivalem-se, na ausência de desportivismo. Repito-me: se é verdade o que diz o Marco Gonçalves, no Canelas, atualmente (é meu dever respeitar a história deste clube) pode haver malandragem a mais e desportivismo a menos.

José Couceiro, um treinador de futebol que é um cavalheiro, escreve, no mesmo número do jornal A Bola: “Nada do que se está a passar, no futebol nacional, é novidade. Desde o clima de violência até ao sucesso internacional. Todos têm conhecimento do ambiente de agressividade que se vive em muitos estádios portugueses, incluindo recintos de equipas profissionais, tendo como exemplo mais negativo as agressões a agentes desportivos, com relevo, evidentemente, para o que se passa com os árbitros”. Hoje, numa sociedade mergulhada na alta competição económica e desportiva e assim onde tudo parece homogeneizar-se e nivelar-se na vulgaridade de um consumismo irracional, até a violência sobre os árbitros parece ser um ilícito que não merece o mínimo espanto ou estranheza. Depois, a crise de valores que assola o mundo atual origina um crescendo de comportamentos agressivos, no espetáculo desportivo, marginais ou perturbadores da pedagogia inerente ao desporto. Por outro lado, grande parte dos órgãos da Comunicação Social, famintos das necessárias audiências, dão lugar de primazia a programas de linguagem intolerante, sectária e de um clubismo estreito e estéril. Que o mesmo é dizer: o que existe de problemático e conflituoso, na alta competição, é o que se salienta, provocando em muitos espectadores, leitores e ouvintes uma insensibilidade assustadora pelos valores éticos e morais de que o desporto é portador. Existe um grande défice de reflexão crítica, no futebol, mesmo em pessoas com licenciaturas e doutoramentos ou que povoam ou frequentam os mais altos cimos da vida social e política do País. E assim cria-se, até insensivelmente, um ambiente em que os problemas éticos parecem falsos problemas, ou nada têm a dizer à prática desportiva.

A Justiça, “grosso modo”, por si só, não pode erradicar a violência no futebol (e no desporto em geral). O mesmo se diga da Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto (e portanto do Ministério da Educação) onde se nota uma inquieta, inabalável vontade de bem servir o desporto nacional. Tem de ser o país todo a fazê-lo e a começar nos próprios clubes. Os principais dirigentes dos “três grandes” têm de rever os conteúdos dos seus discursos, precisam de atualizar a sua linguagem, para que não despertem nos sócios e simpatizantes dos seus clubes, unicamente, o imaginário irracional de algumas emoções. O melhor ensino e o que mais perdura é precisamente o do exemplo. No último Porto-Benfica, um jogo entre os dois candidatos ao título, dele emergiram todos os ingredientes naturais de um “clássico”, mas os jogadores respeitaram-se e respeitaram os seus adversários. E à competição pujante juntou-se uma ética que tornou possível a estética. Sei, por vivência direta, pois que vejo futebol, desde a mais tenra idade, que um jogo de futebol, com jogadores superdotados e supertreinados, onde se cumprem as leis do jogo e onde se preservaram determinados valores, pode transformar-se (assim o penso) num inolvidável espetáculo e até num húmus altamente favorável à invenção de novas formas de vida em comunidade. Mas o que posso eu, num mundo de extremo individualismo, contrário ao caráter relacional de todo o ser humano? Pouco ou nada! Ainda há pouco o célebre Gabriel Batistuta que, no Fiorentina fez uma dupla de eficiência invulgar com o nosso Rui Costa, hoje dirigente do Benfica; um argentino que, na seleção do seu país, marcou 54 golos em 77 jogos, entre 1991 e 2002 – visitou a seleção do seu País, em estágio, e… os jogadores não o conheceram! De facto, no nosso tempo, são poucos os que admiram sem reservas e sem invejas, sem restrições e sem medo, aquilo que as suas consciências lhes dizem merecer admiração e culto. Mas continuemos a lutar, com palavras de austera, inflexível firmeza (embora as palavras não sejam tudo, nem o principal) em prol de um mundo outro, para que o desporto possa ser outro também.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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