As declinações semânticas da bola (artigo de José Antunes de Sousa, 75)

Espaço Universidade 05-04-2017 16:50
Por José Antunes de Sousa
Começa por uma proclamação simbólica, de carácter arquetípico: ela é esférica e a esfericidade é, como intuiu o próprio Parménides, expressão simbólica de uma infinitude, sem começo e sem fim: simboliza a própria redondeza do ser cuja propriedade é simplesmente ser! Mas a bola, como principal protagonista do jogo, ela é sinal de contradição: todos a querem ter e todos a querem acariciar – embora só uns tantos sejam entendidos neste tipo de carícias - , mas todos passam o tempo dando-lhe pontapés – ou pauladas, como no hóquei em patins ou no hóquei em campo! As equipas andam o tempo todo em busca dela, mas o que realmente se verifica é que não descansam enquanto não a vêem longe de seus domínios: ela gera simultaneamente os fenómenos de atracção e de rejeição.

As equipas têm horror que ela possa anichar-se caprichosamente nas redes do seu território definitivo e inegociável – a baliza (o gol, no Brasil) – mas festejam em delírio quando isso acontece nas redes do lado contrário do campo, um campo simultaneamente de batalha e ringue de Wrestling, de rijos gladiadores e de macios fiteiros: sim, a maior parte do tempo os soldados desta peleja entretêm-se a desentenderem-se da bola e a rebolarem-se, em estridente gritaria, na relva fofa desta versão urbana e sofisticada das guerras púnicas. A bola também como elemento de um exercício manhoso de simulação e engodo, algo que está convertendo, sobretudo o futebol, num espectáculo ilusório, o que seria bem fácil de contornar: um cronómetro que ignore, como no basquetebol ou no futsal, o tempo gasto com interrupções resolveria o escândalo.

Mas a bola, enquanto símbolo redondo do ser, encarna também, talvez por isso mesmo, a simbologia da sensatez, do juízo, daquilo que deve ser: fulano ou sicrano não bate bem da bola, isto é, ele não gasta da loja do bom senso – ele não é bom da cabeça, tendo esta como o último andar do edifício corporal onde supostamente está instalado o painel de comando – e sabemos todos os problemas clássicos dos últimos andares, sobretudo quando os prédios são muito altos. Por isso uma agressão em campo a um adversário implica que o autor se esqueça da bola e perca a cabeça – que sem cabeça não há jogo que se veja, que possa agradar aos espectadores.

Mas a bola é também motivo de qualificação performativa: dizer, por exemplo, que o Bernardo Silva “é bom de bola”, como ouço aqui no Brasil invariavelmente da boca dos exuberantes relatores, é afirmar que ele é particularmente habilidoso, com superiores qualidades técnicas, que é, enfim, um desses raros acariciadores justamente da redondinha. Neste caso, uma vez mais, a bola como signo cinético de uma perfeição que se busca na orla do infinito. Como na consagradíssima e brasileiríssima expressão “show de bola” que expressa de forma gutural e quase em registo de samba, que isso ou aquilo não poderia estar melhor, como tão gracil e sugestivamente o mostra o vendedor (brasileiro) de bolas de Berlim nas areias intermináveis de Monte Gordo, ou nas paias de Copacabana e Ipanema, onde curiosamente espontâneas equipas de vólei dão, nem mais, um grande “show” de bola!

A bola como metáfora em movimento de ventos ora benéficos ora maléficos: ela não vai à minha bola, ou seja, ela “deu-me com os pés” – pontapeou-me para longe do seu território, quanto mais longe melhor – como as equipas fazem, contraditoriamente, com a bola. A bola é a princesa da corte do jogo, pois encarna as qualidades de leveza, de perfeição, de amor – e todos se empenham em ostensivo galanteio: todos, tomados de tórrida paixão se perdem num infatigável exercício de sedução. É por isso que a bola simboliza também a dimensão empática e convivial do jogo: “eu vou à bola dele” (ou dela), querendo com isso enfatizar a simpatia que por ele ou ela nutro – sinal unitivo, de conciliação.

Atendo-nos em exclusivo ao futebol, verificamos que é um jogo contraditório,, paradoxal: tem na bola a sua menina dos olhos e desata aos pontapés a ela. Mais: reclama mestres da táctica, engenheiros que pensem um jogo que, paradoxalmente se joga com os pés, as extremidades mais afastadas da cabeça, onde se localiza o cérebro, alegadamente a sede desse pensar. O futebol é um jogo dúplice – por várias razões, mas sobretudo porque, reclamando a cabeça, ele se baseia no timus (thymus), na sede das emoções, o que faz com que amiúde se choquem a beleza geométrica do jogo e o excesso agonístico, o que acontece quando os agentes perdem a cabeça, quando passam a bater mal da bola.

E falta fazer referência à expressão que o meu querido leitor tem entalada na garganta; “baixa a bola (bolinha)”. E eu baixo, que não quero provocar nem pôr-me em bicos-de-pés. Expressão que conhece a seguinte variação: “bate a bola baixo”, isto é, “não faças ondas”. Não, não faço: não quero molhar ninguém!

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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